segunda-feira, 29 de maio de 2017

A FEIRA DA LIBERDADE, ONDE O POVO É PROTAGONISTA

À mesa do último encontro ‘senso-consensual’, sugeri um percurso aéreo sobre a paisagem cultural da ilha, onde estrelas cadentes brilhavam nos pontos cardeais deste pequeno território. Hoje, vou deambulando pelo rectângulo claro-escuro da calçada entre o Teatro Municipal e o Largo da Sé,  transformado agora  em palco multicolor de todas as artes e de todos os gostos. É a Feira do Livro do Funchal, uma multímoda ‘wikipédia’ de saberes e lazeres, ali à beira-baixa da cidade e à maré-alta de todos as apetências. Folheando o extenso guião da Feira, dificilmente poderia conceber-se  uma simbiose tão perfeita – una e múltipla – envolvendo gerações, territórios, géneros literários, artes plásticas, cinemateca, ludoteca, biblioteca, enfim, uma enciclopédia do mundo no terreiro  da nossa casa.
De entre todas as variantes do programa, é de assinalar a preocupação de trazer à rua a linguagem da cidade e da ilha pela voz de autores e artistas madeirenses. No princípio, no meio e no fim desse roteiro ilhéu, uma nota se impõe: não ter medo de fazer soar a memória do povo na conquista do seu espaço histórico, da sua identidade interventiva e lutadora, nada e criada em diversos extratos sociais, a começar pela actividade braçal, consignada no volume “O Arrais” do jovem Alves dos Santos. A reimpressão da obra de António Loja –“A Luta do Poder contra a Maçonaria” – veio trazer ao de cima e em público o impulso revolucionário de um punhado de madeirenses, de diversas classes e profissões, muitos clérigos inclusive, contra o absolutismo da Inquisição reinante no Portugal do século XVIII.
Mais impressiva, porém, foi a aventura da historiadora Raquel Varela que, em parceria com a investigadora Luísa Barbosa Pereira, aguçou-nos o desejo de conhecer por dentro a transição mais decisiva ocorrida  no último quartel do século XX – “História do Povo da Madeira no 25 de Abril”. Aliás, trata-se de focalizar na Madeira o mesmo olhar com que viu e escreveu a “História do Povo Português no 25 de Abril”. O trabalho de Raquel Varela vale por si próprio, porque enraizado na autenticidade de  testemunhas oculares, a voz de quem entrou, sofreu e venceu as barreiras  de um  neofascismo emergente que os governos civil, militar e  eclesiástico porfiavam implantar no pós-25 de Abril. A Autora não se limitou ao ‘diz-se, diz-se’ da imprensa ou do audiovisual de então, manietados  ou acomodados aos governantes. Desceu ao terreno, ouviu ‘in loco’ contar, pelos próprios, os avanços e recuos da Revolução dos Cravos na Madeira, os operários da construção civil, os camponeses, os pescadores, as bordadeiras, todos os que, sabendo dos acontecimentos de Lisboa,  juntaram a carga opressiva  que traziam aos ombros desde gerações seculares e irmanaram-se  aos heróicos fautores da mudança em Portugal. Machico ocupa um merecido lugar de referência, porque aqui foi o povo genuíno que  esteve na centralidade da alvorada libertadora.
Mas o mérito da elucidativa apresentação de Raquel Varela não se ficou por aí. Enriqueceu-se com o debate público, em plena avenida, onde os ouvintes falaram, chamaram à colação factos e nomes, até agora mumificados no congelador de complexos acumulados de 43 anos de ‘democracia musculada’, um eufemismo para encobrir a mais despudorada ditadura pós-25 de Abril na Madeira. Por isso, afirmo e sustento que um dos valores trazidos por Raquel Varela foi esse mesmo: quebrar o mito e o medo de conhecer a Madeira de quatro décadas, traída pelos herdeiros do 24 de Abril. É gloriosa a história do Povo da Madeira no 25 de Abril! Reergamo-la, corajosamente, para que não façam aos vindouros, o que soberanos ilhéus sem escrúpulo fizeram à nossa geração.
Felizmente que vão surgindo estudos históricos de rigor científico, como a já conhecida obra do Dr. Bernardo Martins, lançada em Machico nas comemorações do 43º aniversário do 25 de Abril. Mas muito, muito falta ainda por dizer. É verdade que a História não pode ver-se nem analisar-se cabalmente, na hora da refrega, o que, para nosso mal, já aconteceu com alguns escritos subsidiados pelos detentores do poder e do capital locais.
A caminho do cinquentenário, é chegada a estação de encontrar as fontes e as raízes do passado recente – e enquanto é tempo útil – para que não perdurem os silêncios cúmplices, as reportagens deturpadas, as campanhas maquiavelicamente orquestradas por escribas colaboracionistas que, por meias-verdades,  esconderam  a inteira verdade dos factos.
Por isto e por tudo o mais, valeu e continua a valer a Feira do Livro  do Funchal.

29.Mai.17
Martins Júnior