quarta-feira, 17 de maio de 2017

O CHAMPANHE DE NOSSA SENHORA

                                                  

Não posso deixar de surpreender-me pelos  milhares de amigos que acederam ao meu  último blog. Congratulo-me, sobretudo, por verificar que, mais uma vez, o “Espírito sopra onde quer” (Jo.3,8)), seja na voz eloquente de um líder planetário, Francisco Papa, seja no fio de luz que emerge, silencioso, no coração do mais humilde camponês, debruçado sobre a terra arada da sua aldeia. Basta ficar atento à sua passagem, porque o mesmo vento, tal como a corrente do rio, não  passa duas vezes debaixo da mesma ponte. Abraçar o Espírito ou repudiá-lo está nas mãos do destinatário/receptor.
E com isto quero dizer claramente que o que sai deste teclado não pretende altear-se como joeira da Verdade, nem muito menos impor-se a quem quer que seja. Bem pelo contrário. Todas as opiniões são discutíveis, abraçáveis ou repudiáveis. Foi o caso de alguém que, a propósito do meu penúltimo comentário sobre a trilogia apoteótica - Fátima, Benfica e Salvador Sobral – achou que a presença do Papa em Fátima não devia ser equiparada aos outros dois vitoriosos  acontecimentos. Nem eu os alinhei no mesmo grau axiológico, isto é, na mesma escala de valores. Pretendi apenas (e não é de pouca monta) situar-me na psique e no gesto dos espectadores ou adeptos ou crentes que se rendem incondicionalmente, alucinadamente, misticamente diante  do “santuário” que mais ama. E é aí, no cerne do fervor anímico que os três acontecimentos se encontram. Em pé de igualdade, quanto à soma das motivações e ao clamor das reacções. Um interessante study case a aprofundar!
Hoje, por exemplo, dar-me-ia um enorme prazer  constatar -  para  valorar ou depreciar -  o labiríntico  e, para muitos, escandaloso  novelo que dá pelo nome de “negócio de Fátima”. Um gordoroso sacro-milhões que se reparte pelos cantos e recantos, do centro à periferia, da centenária azinheira. Os jornais mais sensacionalistas extravasam as manchetes com as promessas, as velas, os terços (até têm registo de certificação e já se esgotaram), medalhinhas, bentinhos, pagelas, brochuras e mais brochuras, imagens, votos pios, leques e talismãs, tudo inflacionado e supostamente abençoado com a marca industrial da casa: Fátima. Também há reportagens, na porta dos hotéis, que divulgam em ‘negro berrante’, o preço de uma noite de cama, 2500 euros. Noutro ramo de negócio, o das bebidas, lá vem o licor de Fátima, o chá de Fátima, o vinho de Fátima e, a coroar o fumegante coctail, chega Sua Excelência o “Champanhe do Centenário das Aparições”, um lote de 1917 garrafas,  rigorosamente numeradas e ilustradas com três pombinhas brancas saídas das mãos de um Papa. Tudo em louvor da Virgem.
É caso para formular a sabática pergunta “Quid júris”? – que dizer a tudo isto?
Não terei o espaço tolerável para estender aqui  opiniões e palpites, tanto da minha parte como de outrem, a dos amigos que me lêem, talvez. Entretanto, atiro-me para a frente e atrevo-me a separar as águas. Nestes termos. Em todo o tempo, mas hoje particularmente em que tudo se reduz a cifras (“é a economia, estúpido!”, comenta-se), não espanta que onde houver um aglomerado populacional, accionam-se os mecanismos e as trocas comerciais. Assim nasceram as cidades medievais. E se, porventura, soarem as campainhas avisando que  “aí chega a Vedeta”, então explode a febre negocial para responder à fome pavlóvica da multidão. Compra-se tudo, guarda-se tudo e leva-se para casa, para um amigo, uma devota, uma avozinha,  uma cunhada do peito.
Ninguém nega que o Papa, sobretudo, o Papa Francisco é uma vedeta mundial, queira ou não queira. Portanto, em sua homenagem abre-se a bolsa e ‘levamo-lo’ para casa, seja numa imagem, numa joiinha ou numa garrafa. Quanto aos alojamentos, funciona a lei da oferta e da procura, queira ou não a Senhora. São benesses do chamado turismo religioso. O mesmo fariam com os grandes artistas, futebolistas, recordistas, conforme a “FÉ” que cada fã professa no seu santuário emocional.  É inevitável a concorrência comercial, cada qual faz pela vida, sem atropelar ninguém, muito menos o Sagrado. O comércio laico não é o que me incomoda.
Perturba-me, sim, e revolta-me a simoníaca frieza com que certos responsáveis da Igreja vendem, de consciência enxuta, uma entidade que lhes não pertence – o Sagrado – a troco do vil metal sonante com que vão comprar prazeres, quintas e palacetes, carros topo de gama, enfim, a luxúria  que destrói o Sagrado. São os que forçam Maria-Mãe de Jesus a ostentar-se como vedeta publicitária, contra a vontade dela. São os que se sentam à mesa da Ceia comum e vão logo trocar o Mestre por milhares ou milhões envoltos no saco dos trinta dinheiros. Mais grave, porque sabem o que fazem.
Não consigo continuar. Apenas fico a pensar que há quinhentos anos houve um Papa que, no Vaticano, vendia  e fazia trocos  sobre o outro mundo – Céu, Purgatório e Inferno. Foi o famoso caso das “indulgências”, que levou Lutero a revoltar-se, fundando então, contra Roma, as religiões protestantes, hoje espalhadas por todos os continentes.
Esta é uma questão candente, inadiável, mas que nunca foi resolvida: as relações entre a Igreja e o dinheiro. Cada qual reflicta, se lhe sobrar tempo, e pronuncie-se. Da minha parte, vou já tomar um copo de água fresca, como se fora o, infalivelmente, delicioso espumante, baptizado de  “Champanhe de Nossa Senhora”.

17.Mai.17
Martins Júnior