segunda-feira, 15 de maio de 2017

O PAPA FRANCISCO E A RIBEIRA SECA

                                           
Jorge Mário Borgollio nunca ouviu falar da Ribeira Seca madeirense. Nem antes nem, provavelmente, depois de ascender ao trono do Vaticano. No entanto, nunca estivemos tão perto e tão sintonizados no espírito da palavra. Terá sido este contraste que inspirou a  equipa de produção do SENSO&CONSENSO  a colocar em epígrafe a  montagem das duas gravuras-supra. De costas voltadas pela distância territorial, mas tão íntimos e comunicantes pela osmose do pensamento  ou, como o próprio Papa costuma definir, pela corrente da oração.
Em nome desta porção do Povo de Deus em Marcha no recôndito suburbano que ‘não é vila nem cidade’, deixo aqui expressa a mais ampla gratidão ao “Bispo de Roma”  presente em Fátima,  pela descoberta de uma ponte anímica que une uma modesta igreja da ilha  ao novo mundo que emergiu das naves seculares da Basílica Vaticana. Quatro pilares seguram esta ponte identitária, inscrita nos quatro tópicos que Francisco Papa desenhou nas intervenções que produziu em Fátima. Ei-las, em síntese:
1º - TEMOS MÃE!  Disse-o e repetiu o líder da Igreja Católica, para separar o original das fotocópias que os homens fizeram de Maria. O original, foi buscá-lo às fontes bíblicas: O Livro do Apocalipse e o Evangelho, ambos de João Evangelista:  “Eis aí a tua Mãe”. – quer dizer “essa Mulher que está ao teu lado”.  que me acompanhou desde a nascença até à morte, enfim, a Maria-Mãe única, histórica. No acento sonoro do pontífice orante  – TEMOS MÃE –  pareceu-nos ouvir a convicção que, desde há mais de quarenta anos, alimentamos e seguimos:  “Mãe (espiritual) há só uma, Maria e mais nenhuma”. Aprendemos que os figurinos, as alcunhas ou  apelidos, que sucessivamente têm posto a Maria conduzem a uma tresloucada confusão e à mais pagã idolatria, misturadas com lendas pias, arremedos fantasiosos e até alucinações místicas, cuja flagrante contradição imagética está bem patente na mesma Virgem, que é ‘branca’  em Fátima e torna-se ‘preta’  na Aparecida do Norte, Brasil!!! Ou, ainda, a absurda e aberrante superstição, tão propalada,  que a Senhora que está numa imagem em Fátima ou em  Lourdes faz mais ‘milagres’ que a outra, singela e pobre, que habita o modesto templo da aldeia mais longínqua.
2º - SERÁ QUE PROCURAM UMA SANTINHA A QUEM SE PEDE UM FAVOR A BAIXO PREÇO?! – Nunca se ouviu de um Papa, de um bispo ou de um padre doutor da Igreja, uma interpelação tão poderosa e tão brilhante. Só faltou aplicar o termo da gíria financeira, low cost. E teríamos uma Nossa Senhora  a preços de promoção ou rebaixa mercantil. Teríamos, digo mal. Temos – é isso que vemos e ouvimos, em pagelas, orações, promessas, peregrinações e velas de cera estearina. Obrigado, Santo Padre. Há mais de quarenta anos, a ‘nossa’ Senhora do Amparo, na Ribeira Seca,  não aceita que a tratem por uma vulgar merceeira ambulante das feiras populares. O que ela nos pede é que a conheçamos, a Maria histórica, aquela que aceitou ser Mãe de um Filho destinado a ‘carne para canhão’ dos ditadores de então.  E que ponhamos os nossos pés nas suas pegadas, feitas de espinhos e dores, mas plenas daquela coragem que leva aos cumes de uma vitoriosa felicidade!
3º - VÓS SOIS AS CHAGAS ABERTAS DE JESUS – foi assim a consoladora homenagem que o Papa Francisco prestou aos doentes que aguardavam a sua bênção. Esta tão sofrida saudação era o eco das palavras do Padre António Vieira, proferida há quatro séculos, em São Luis do Maranhão, perante os ‘devotos’ gestores das Misericórdias do nordeste brasileiro: “As imagens de Jesus Crucificado que estão nas igrejas são imagens falsas, que não sofrem nem padecem. Imagens verdadeiras de Jesus Crucificado são os doentes, os pobres, os desamparados que padecem e sofrem”.  Que conforto ouvir da boca do ‘Representante de Cristo’ aquilo que já aprendêramos, há perto de cinquenta anos!
4º - DEUS QUER UMA IGREJA POBRE DE MEIOS, MAS RICA DE AMOR – A esta chamada, respondemos logo: Presente! Sem nos conhecer, o Papa Francisco estava a falar connosco, que pertencemos a uma comunidade pobre, durante séculos explorada pelos senhorios da colonia,  uma população que vive do seu  braço do trabalho - actualmente escasso e ingrato -  mas que se une, lutando pelo seu lugar ao sol, na conquista de mais cultura, mais amor, mais alegria. Sem saber sequer onde fica a Ribeira Seca, era de nós que se lembrava e de todos os que, como nós, são “EXCLUIDOS, DESERDADOS E ÓRFÃOS” – exclusão e orfandade por parte das hierarquias, mas não de Jesus e Sua Mãe. Ao lado do “Bispo de Roma” estavam as tais hierarquias clericais da ilha.  Almoçaram com ele à mesma mesa os que, há mais de quarenta anos, nos excluíram e nos deserdaram. Terão ouvido a voz do Chefe?...
Nós ouvimo-la e guardámo-la. Para nosso conforto e nossa força. E para nos assumirmos como  SENTINELAS DA MADRUGADA, cumprindo o seu apelo.  Pode crer o Papa Francisco que em 12 e 13 de Maio de 2017, cumpriu-se na integralidade a sábia filosofia das nossas gentes: “Longe da vista, mas perto do coração”. Estamos juntos! 
        
15.Mai17

Martins Júnior