quarta-feira, 31 de maio de 2017

SONHO DE UM SOLSTÍCIO DE VERÃO PARA O DIA DA CRIANÇA

A vida toda corro e tropeço
Dentro de mim                                                         
Para achar a criança que eu já fui
E cada tarde é um fim
Cada manhã um recomeço

Sem astrolábio que preste
É o sonho que me leva
Do vento norte ao mar do leste
Assento os pés num chão estranho
Que já foi meu
Não sei se é cinza ou brasa ou treva
Só sei que não sou eu

E sempre cada tarde é um fim
Cada manhã um recomeço

Agarrado
Ao cajado curvo dos anos
Imploro e brado
Aos deuses sobre-humanos
Se viram por aí
Aquele olhar sem mancha
Da criança que eu vivi

Onde ficaram
Ou que estrelas abraçaram
Esses bracinhos de anjo esses  dedinhos de lã
Que hoje tecem a saudade?

E é sempre um fim a tarde
E um recomeço a manhã

Três vezes rondei o equador
E outras mais juntei os polos extremos
E tornarei seja onde for
Sem velas sem mastros sem remos
Para dormir um instante
Boiando em concha  no aquático vaivém
Do ventre da minha mãe

Do que eu era
O que ficou?

‘Descansa Homem/Mulher e espera
O solstício vem mais cedo
Devolver-te em segredo
O Graal que demandas

E a tarde não será mais fim
Nem a manhã recomeço

No empedrado escuro espesso
Que tu pisas
Estão lá as pegadas e o verde campo
E os pèzitos de criança

Dentro das tuas frouxas mãos pesadas
Palpitam gorjeios e cantatas
Das primaveras de outrora

Nos teus olhos baços
Pelos ventos e marés espinhos e sargaços
Escondem-se as pupilas infantis
Mais ricas que os rubis
Que vêm do Oriente

E se o teu coração bater baixinho
Pára e escuta
São os vagidos do menino
Que tu foste
No seio da tua mãe

Não corras mais nem tropeces
Onde estás está também
A criança que tu és
O sonho que mereces’
….
E Maio findo
Da sua noite mansa
Nasceu o Junho lindo
Do Dia da Criança

31.Mai-01.Jun.17
Martins Júnior