sexta-feira, 19 de maio de 2017

UMA PRECE QUE É PROTESTO


Do muito que ficou por dizer, depois de pensar, sobre a apoteose de Fátima, termino as minhas anteriores considerações com esta oração que é só minha, respeitando todas as outras  que entendam fazer

Vejo o mar e vejo as ondas
Lenços brancos braços nus
Vejo aí náufragos presos
Aos barrotes de uma cruz
Mas não te acho

O chão ferve e canta
A terra é grito e o mar um facho
De sacras labaredas
Mas a ti não te acho

Fizeram-te um trono
Aos ombros de fardas
Com chicotes  espingardas
Dentro
Mas não estavas lá

Não quero ver-te Inês
‘A que depois de morta foi rainha’
Nem Nefretite  faraónica ‘Princesa’
Afogada de oiro até à bainha
Tecida de filigrana e de cambraia
Que não é essa a tua praia
Mas a rota do Egipto
Onde pediste abrigo
Judia refugiada

Não é esse o teu andor

Já ninguém te vê andar
Mulher do Povo Mulher Nossa
Subindo a montanha
Descendo à choça
E dar a mão a quem perdeu os dedos e definha

Aí é que eu te sinto e amo

E se algum milagre peço
É que partas as amarras
Os pregos com  que te ataram
 E serena varras
Do teu terreiro
As eminentes  sedas tecidas de ‘lingerie’
Dos que te cantam agora
Em solene frenesi
Sobre o corpo de um Filho
O Teu que mataram outrora

Não te vi nem tu estás
Nos palácios dos Herodes
Nem nos tronos dos Caifás

Estás na terra
De todos e de ninguém
Mulher do Povo Senhora  Mãe

19.Mai.17
Martins Júnior