quinta-feira, 15 de junho de 2017

"ISTO É O MEU CORPO"


Desde o romper da manhã, hoje o Dia é um campo de trigo louro ondeando energia e paz. É também o cheiro capitoso dos vinhedos a perder de vista diante dos nossos olhos. E onde não é  trigal nem vinhedo, o Dia é um pomar de saúde borbotando das macieiras em flor, um poema de rimas doces e homéricos alexandrinos. Por isso, hoje é o Dia lírico, onde o verve sensual do planeta se irmana com  a excelsa altitude do Espírito.
Chamam-lhe o “Corpus Christi”, o Dia do Corpo do Cristo Nazareno. E por isso, hoje é o Dia claro do Poema que bebe da água das nascentes mais fundas  e jorra para além de tudo o que é fronteira do humano. E é esse o convite que aqui deixo para cada um de vós tornar-se uma estrofe desse corpo. Considerem-no o que quiserem: sublimação mística ou panteísmo telúrico ou cântico intemporal -  solenemente declaro que é esta a minha Oração Universal.
Eu Te saúdo, ó Cristo, que não buscaste o ouro, o diamante ou a estrela distante para Te identificares no horizonte da História. Antes quiseste ser terra que dá espigas - espigas que dão farinha do moinho  e depois  se abrem em pão para o Corpo e para o Espírito. Eu te saúdo no rústico pomar, na estufa delicada, nos rios que se fazem ao mar e no azul aquático que sobe para o alpendre das nuvens e retoma o movimento circular da criação primeira. Não quiseste outra veste senão a do Pão e a do Vinho transbordante da taça da Vida!
Procuro-Te  nesta mesa proletária comum, mas  rica de nutrientes biológicos sustentáveis. Ninguém venha convencer-me que mastigar a Tua carne, beber do Teu sangue ou trincar os Teus ossos é mais importante que assimilar o Teu pensamento, moldar-me às Tuas atitudes ou consubstanciar-me com o Teu projecto!  É outra e maior a  consubstanciação que me queres  doar, como é mais radical e pujante a transfusão que operas em quem Te recebe. Nesta Quinta-Feira e em todos os dias e todas as horas que são também Quinta onde Tu moras. Como Teilhard de Chardin, também professo que entre panteísmo e idolatria prefiro o primeiro:  ver-Te assim,  ecologicamente desnudo na planura virgem  da Mãe-Terra. E não consigo melhor tradução daquela imensa ressonância que atravessa milénios: ”Isto é o meu Corpo… Isto é o Meu Sangue… Fazei isto em Memória de Mim”.
Porque é Dia do Poema sem palavras, as crianças que hoje acederam, pela primeira vez e por direito própria, à Mesa Eucarística, trouxeram  a cereja em cima do bolo quando, em apertado abraço da “Família da Primeira Comunhão”, cantaram assim:
“Na Primeira Comunhão
Nós desejamos, Senhor,
Que no mundo haja mais Pão,
Mais Respeito e mais Amor

Por isso agora prometo
Para quando for maior
Lutar pela Eucaristia
Fazer um Mundo Melhor”


Dia do “Corpus Christi” – 15. Jun.17
Martins Júnior