quarta-feira, 7 de junho de 2017

“MARCELO REBELO DE SOUSA NA RIBEIRA SECA”

        Ora aí está uma notícia-paradigma de tantas outras. Tem tanto de aleatório e charadístico, como de verdadeiro e sugestivo. Começo pelo carácter aleatório e charadístico, pois que o Presidente da República nunca pôs os pés na Ribeira Seca. Por outro lado,  a veracidade da notícia: Marcelo Rebelo de Sousa esteve, efectivamente, na Ribeira Seca. Eis como se pode classificar de falsa uma notícia que é simultaneamente  verdadeira. Meia verdade e meia-inverdade. Ou seja: um título que nada tem a ver com  a realidade local da nossa interpretação. O enigma decifra-se em dois toques de  dedos: “Marcelo Rebelo de Sousa despediu-se dos Açores, na freguesia da Ribeira Seca, ilha de São Jorge, ao fim de seis dias de visita ao arquipélago”.  É esta a notícia que a comunicação social difundiu largamente. Está, pois, desvendado o enigma. Aliás, em todas as ilhas açorianas há sempre uma estância – freguesia ou curso de água – com a mesma denominação toponímica. O equívoco do texto está no título e, por arrasto, no leitor desprevenido que, levianamente, nem lê o corpo da notícia ou, se o lê, deixa-se ludibriar pela superficialidade com que o faz. Não se trata, pois, da Ribeira Seca, em Machico, mas da Ribeira Seca, da ilha de São Jorge.
         Achei sugestiva esta reflexão e trouxe-a à nossa mesa, propositadamente, para  chamar a atenção acerca de  determinada e capciosa  técnica de informar, tão em voga nos dias de hoje, particularmente nos órgãos de comunicação escrita em que os títulos não correspondem aos factos. São os jornais sensacionalistas, os de tendência, os de venda rápida, enfim,  do “pronto a vestir” e ao gosto do cliente. Eles por  aí  têm andado, de mão em mão, oferecendo-se  de graça ou por um café, ao transeunte desprevenido. Sem rigor, trocando alhos por bugalhos, desdizendo nas entrelinhas o  estrondoso batente que ostentam em grandes parangonas, quer em títulos quer em gravuras, tão escorregadias e traiçoeiras como cobras cuspideiras. A omissão ‘ingénua’, o advérbio furtivo, até a própria pontuação, tudo serve para manchar a brancura de uma atitude ou, em sentido malevolamente inverso, branquear decisões e comportamentos nocivos à sociedade. Sei, por experiência, o quanto custa em numerários, exercer cabalmente o direito de resposta… Olho no escriba!
         Saindo destes subterrâneos da má informação, debruço-me sobre a opção do Presidente da República quanto ao cenário da despedida. Não escolheu a histórica Ilha Terceira, nem o Parlamento da Horta, nem mesmo  a nobilíssima Ponta Delgada, mas tão-só a distante  Ilha das Fajãs e dentro dela uma Ribeira Seca, povoação com cerca de 1000 habitantes. Tenho para mim que no pensamento do Presidente está inscrita a primeira estrofe de um grande poema: Small is Beautiful – é belo tudo aquilo que é pequeno, singelo. Protótipo acabado desta categoria ético-pedagógica é Jorge Bergollio, o ‘homem-de-branco’  que desce do trono  imperial para abraçar e trazer ao peito os proscritos da sociedade, atirados às valetas.
         Talvez um dia virá em que o título do texto seja uma realidade plena, inteira e inequívoca, nesta Ilha Primeira, onde a inscrição “Ribeira Seca” deixe de estar cativa e marginalizada pelos senhorios deste poio escasso que é a Madeira. Autónoma e livre a ribeira que já não é Seca, mas cheia!

         07.Jun.17
         Martins Júnior