sábado, 3 de junho de 2017

O FOLCORE DO ESPÍRITO

Consabido é largamente que folclore é Povo, criatividade popular ou tudo quanto o Povo transfigura,  umas vezes sublimando  e  outras desfigurando os factos e conteúdos. Desde o rimance à novelística, desde a literatura à música, desde a gastronomia à superstição. E é aqui mesmo, na esfera livre e desgarrada do fenómeno religioso, que o folclore ganha asas, rompe a atmosfera tangível e penetra na estratosfera do indizível. Mais concretamente, a inesgotável inspiração popular diluiu-se e, depois, apoderou-se da entidade denominada “Espírito Santo” e deu-lhe forma, figura, guarda-fato, orquestra, toda uma arquitectura superavitária, como o praeter  ou sobrenatural convidam a ser e em cujo vértice brilha uma alegria natural, desinibida e difusiva, a que os comes-e-bebes emprestam corda e chama.  Compulsando os manuais da história eclesiástica, (em Portugal, a obra de Fortunato de Almeida, por ex.) constatamos que, à pala do “Espírito Santo”, o Povo foi desenvolvendo uma teia confusa, mistela do sagrado e do profano e  abusos tais que a Igreja institucional teve de intervir, pondo cobro a algumas tradições desviantes e, por vezes, sacrílegas em relação ao objecto essencial do culto em causa.
A Madeira, desde o tempo do Zarco, abriu-se à nova vaga vinda de Portugal Continental, iniciada precisamente pela Rainha Santa Isabel, esposa de D. Dinis, com a construção de um templo em Alenquer dedicado ao “Espírito Santo”. Em diversos pontos da ilha, inclusive no Porto Santo, a devoção ganhou templos votivos de grande influência no devocionário popular madeirense. Hoje, ainda são públicas e notórias as romarias, as saloias, as violas e os cantares ao “Divino”, nas divertidas visitas domésticas de índole privativa (casa-a-casa) bem recheadas e melhor regadas, terminando tudo com a ‘conquista do troféu’, ou seja, as ofertas pecuniárias da praxe. Não há muito tempo, um conhecido especialista em folclore, testemunha ocular destes eventos, dizia na nossa TV que muito lhe “custava ver famílias paupérrimas com três envelopes em cima da mesa: um para a igreja, outro para o padre e outro para a festa do “Espírito Santo”.  Enfim, escuso-me de comentar, neste momento, semelhantes práticas.
Pela parte que toca à localidade onde me situo, esclareço que a alegria do Espírito de Deus, transmissiva e saudável, segue outro ritual, susceptível de apreciação crítica, como qualquer outro. Juntam-se os dois “sítios” vizinhos, ou seja, contíguos territorialmente, celebramos a assembleia eucarística em comunidade (conforme a narrativa do Livro dos Actos dos Apóstolos, cap.1º), pela meditação procuramos alcançar a mensagem dinâmica do Espírito em nós e, complementando todo este envolvimento, há festa no campo, as pessoas trazem frutas, produtos da terra, cântaros de flores, petiscos de gaiado seco, bacalhau e similares atados à garrafa de vinho,  bolos e pães confeccionados em casa, tudo é leiloado num espectáculo cheio de humor e música ao vivo.  O mais significativo e até emocionante é que a população  partilha em comum toda a ementa leiloada. A nota dominante nas três celebrações campais (consoante os “sítios” ) é a alegria, não a exclusivista, mas a comunitária que mobiliza e valoriza aqueles encontros em que os jovens também são parte integrante com os instrumentos da tuna.
Passando adiante neste apontamento de reportagem, o que importa relevar e nunca esquecer é que o Espírito manifesta-se em tudo quanto existe: em nós, prioritariamente, na terra, no frutificar das sementes pela mão do lavrador, nos operários fabris, no trabalho intelectual, enfim, em tudo o que levanta o ânimo dos povos. Por isso, no hino litúrgico que hoje e amanhã as igrejas cantarão, lá está o princípio activo dinamizador da vida: “Vinde, Espírito de Deus, vinde renovar a face da Terra”. Em qualquer lugar, por mais inóspito que seja, e lá houver Vida a germinar  no coração da pessoa e no seio da terra ou do mar ou do ar, aí estará o Espírito autêntico que renova o mundo e a sociedade.

Foi o que vivi hoje (permitam-me este desabafo) na longínqua freguesia de  Canas de Senhorim, distrito de Viseu, no convívio anual da Companhia que o meu amigo e conterrâneo Capitão Miliciano Dr. Alexandre Aveiro  comandou em terras de Moçambique, nessa malfadada guerra colonial: as famílias, filhos e netos, até  um jovem casal que propositadamente veio da Holanda  para juntar-se ao pai, ex-militar, enfim, um abraço solidário entre os que sobreviveram e uma saudade imensa por aqueles que a morte já não deixou marcar presença. Da celebração passou-se à mesa do restaurante na Quinta do Boiça, onde  se viveram momentos de entusiasmo fraterno e, com a ementa, continuámos a servir-nos as iguarias do pensamento crítico positivo sobre temas do maior interesse espiritual e social.
Hoje, foi Dia de Pentecostes, a aura do Espírito, em Canas de Senhorim. Amanhã, sê-lo-á na nossa comunidade da Ribeira Seca. E continuará sempre em cada qual, quem no queira – seja individual e intimamente, seja  solidária e colectivamente – desde que “os ossos se reanimem” (Profeta Ezequiel) e queiramos renovar a face da terra!  

03.Jun.17

Martins Júnior