segunda-feira, 5 de junho de 2017

O VERDE DA CULTURA NO AMBIENTE DA FEIRA

É de ambientes que hoje se fala. No plural, porque ambientes há muitos. E porque o Ambiente Global, que em 5 de Junho o mundo todo alça em arco, mais  não é que a soma de todos os microclimas ambientais que produzimos e onde, simultaneamente, somos reproduzidos e formatados. Entre o verde das coisas e a raiz do pensamento perpassa toda uma rede de vasos comunicantes, a que se pode chamar o ecossistema bio-psico-social de qualquer sociedade organizada.
Desta simbiose perfeita destaco o ambiente cultural, na sua valência bibliográfica, quer de carácter científico, quer sobretudo o de denominação literária. Várias iniciativas e encontros conduziram-me a este objectivo, a começar pelas Feiras do Livro que nesta altura do ano vão surgindo aqui e além, desde a do Funchal, em formato miniatural, até à de Lisboa onde me perco ao longo de todo o Parque Eduardo VII, levado pela vastidão de um oceano abrangente  de autores e culturas.
Mas há um ‘nó górdio’ a desatar e que pode condensar-se nesta simples pergunta:  A extensão da(s) Feira(s) corresponderá à interiorização dos seus conteúdos por parte dos visitantes?... Mais cirurgicamente: num mundo dominado pelas redes sociais, tão dispersas quanto atractivas, será que os jovens de hoje procuram os nutrientes culturais, substancialmente mais suculentos, como os que  advêm dos livros?... A amostragem que nos foi dada no Teatro Municipal Baltazar Dias, aquando do espectáculo de “Diogo Piçarra, em Pessoa”, dirigido, de preferência,  a estudantes do  10º ao 12º anos, não nos convenceu. Vimos “claramente visto” um deficit de literacia, mais visível na leitura dos poemas de Fernando Pessoa pelos alunos que quiseram subir ao palco, numa prova demonstrativa da falta de contacto com o Autor em causa. Quero crer que o episódio não tenha reflectido o panorama geral da juventude estudantil, antes e talvez uma excepção à regra.
A este propósito, em convívio com docentes de literatura  de escolas madeirenses, uma boa notícia chegou à nossa mesa: a de que voltaram aos programas de ensino aqueles autores, os mestres da escrita em Portugal, de que são exemplares as Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett e os fundadores do Grupo dos Cinco, de finais do século XIX. Outrossim, as obras dos clássicos, “imperadores da Língua Portuguesa”. Sem pôr em causa as questões e as ressonâncias dos tempos actuais, espelhadas em bons autores contemporâneos, a verdade é que a ciência e a arte de escrever têm raízes mais longínquas, nas oitavas de um Camões, nos rasgos de eloquência de um  Padre António Vieira, nos sonetos de Antero, nos fogosos alexandrinos de Guerra Junqueiro, nas ‘claridades’ pictóricas de  Cesário Verde e, por todos, na genialidade de um Fernando Pessoa, entre muitos outros. É de saudar com entusiasmos o regresso às fontes, no âmbito da literatura portuguesa. E desejar que haja professores de quem se possa dizer: “ensina como quem ama”.
Mas há mais. Fora dos muros das universidades e dos areópagos espectaculares, raiados por vezes de mundanas vaidades, descobrem-se ambientes intimistas, salas discretas, onde se realizam mensalmente pequenas tertúlias, sem a pretensão dos holofotes publicitários e em que os ‘sócios’, por fruição e carolice, lêem, declamam os nossos poetas e até produzem contributos, poemas e válidas comunicações que, por mero prazer, reúnem em brochuras despretensiosas mas intensas,  guardadas depois nas estantes e nos corações, como a que me foi oferecida recentemente em Lisboa, por deferência de um dos membros dessas prestimosas tertúlias É a isto que eu chamo cultura, Ambiente.
Não se pode negar o turbilhão desconcertante da nossa época, a tendência para o descartável, a atracção pelo efémero campanudo e os menus do “pronto a servir”, razão pela qual  crescem por aí, todos os dias, como cogumelos do nosso audiovisual, das imprensas e afins, com manchas de palmatória, sem que ao menos peçam desculpa aos leitores. É isto, também, um mau ambiente.
Aproximando-se o Dia de Portugal, nascido do legado do nosso épico, Luís Vaz de Camões, auguro a que, dentro das escolas e fora delas, nos palcos luminosos ou no recôndito do nosso meio, engrandeçamos o Ambiente, celebrando o Dia da Nossa Voz  e erguendo bem alto a patriótica bandeira de Fernando Pessoa: “A Minha Pátria é a Língua Portuguesa”.

05.Jun.17

Martins Júnior