domingo, 25 de junho de 2017

POR QUE NÃO CANSA A “COISA AMADA” ?


Não deixam de atravessar-me as narinas os tições  fumegantes de Pedrógão Grande nem o contraste das garridas marchas populares do trio  santoral de Junho pára de soar aos meus ouvidos. Entretanto e porque hoje é domingo faço um ‘stop’ estratégico para mergulhar  noutras águas mais profundas que vão desaguar no escrito do meu “Dia ímpar”, 22 de Junho. Como é possível amar durante quase meio século sem nunca nos cansarmos da “coisa” amada? … Por “coisa”  considera-se aqui  uma   entidade ontológica, ou seja, a totalidade do objecto que se ama , quer se trate de uma  pessoa, paisagem, pátria, livro, ciência ou arte. Com este cenário em fundo,   estamos todos no mesmo palco. Toca-nos a todos o grande enigma que aquela pergunta condensa.
Amar não é dar. É dar-se.
Desta diferença abissal  emerge em plena luz  que não é a prenda nem o anel nem o ramo de flores nem o cheque de enxoval que define a promessa de amor, nem sequer a incondicional entrega dos corpos em exaltação febril. Da mesma forma que não são o “pão e os jogos” nem a auto-estrada  nem o bloco de apartamentos nem as pontes voadoras nem os sumptuosos monumentos que tornam inesgotável o filão da “pátria”  que se ama. Tudo isso “se esfuma como a brancura  da espuma que se desmancha na areia”, assim escreveu o inspirado sambista brasileiro Orlando Silva. Desengane-se, também, o Povo das juras e das patrióticas doações dos que servem em baixelas de festas arraialescas os tambores e os foguetes, o betão e o alcatrão que tresandam ao velho ‘mercúrio cromo’ eleitoral. Um dia, cedo ou tarde, serão inevitavelmente  “as palavras gastas” do nosso Eugénio de Andrade.
O amor que nunca se cansa da “coisa amada” não tem agência de câmbios mensuráveis. É outro o seu trono – “ o  invisível” de Saint Exupéry – a mentalidade, a pedagogia, a sensibilidade, enfim, a nascente intocável de onde promanam os rios do Ser ( e nunca os do ‘ter’), seja no cidadão individual, na família ou na escola,  seja na personalidade colectiva de um país, de uma região ou de uma remota aldeia. Penetrar na central energética do outro e ver crescer “cravos, rosas em botão” onde só havia cardos e espinhos, eis a “coisa amada”  que não morre e não nos deixa morrer.  Neste entendimento, a história recente da ilha é a prova inapelável de que tudo terão dado aos ilhéus menos o amor, a educação cívico-cultural e social perdurável nas gerações vindouras.
E porque é Domingo, hoje percebi melhor  o alcance do veredicto do Mestre: “Não tenhais medo dos que matam o corpo e não podem fazer mais nada. Temei, sim, os que podem matar a alma e o corpo”. Contrariamente às interpretações da fatalidade justiceira dos deuses julgadores, entendi, hoje com maior incidência cirúrgica, que “matar a alma” significa truncar a mentalidade,   prostituir a sensibilidade,  armadilhar o chão da estrada do futuro – o pessoal e o social. E isso é o desamor poluído e poluente. É a traição consumada, por mais sofisticada e aparatosa  com que pretenda travestir-se. As igrejas têm aqui uma inexorável ‘operação stop’ para questionar-se perante a dura realidade, a de ontem, a de hoje e a de  amanhã.
Do aprofundamento relacional  entre quem ama e o seu ‘objecto’ dependerá a renovada juventude da “Coisa Amada”.

25.Jun.17

Martins Júnior