domingo, 11 de junho de 2017

“QUE É QUE ANDAM A DIZER DE MIM?”…



De entre as agitadas diversões deste fim de semana, restará ainda por aí, no terreiro da vossa casa,  uma ponta de banco tosco onde repousar os ossos e accionar a ignição do pensamento latente activo?
Pois, se houver, aqui vai um olhar vespertino sobre a cúpula de um monumento construído ao longo dos muitos domingos marcados pelos passos do Cristo histórico. Após a trajectória de uma vida, desde o Nascimento até à Morte, os fenómenos da Ressurreição, Ascensão  e Pentecostes, eis-nos chegados hoje ao fim da linha: a entronização da denominada  “Santíssima Trindade”. É a cereja em cima do bolo, a chave de ouro com que se fecha o extenso ciclo das comemorações.
Por imperativo do assunto em causa, serei breve. Cito Lacordaire: “Quando a dor nos bate à porta, gritamos. Mas quando essa dor é grande, dá-nos para sufocar e calar o sofrimento”. No lugar de “dor” coloco  o espanto da descoberta ou o seu contrário, o horizonte inatingível, a pergunta sem resposta, numa palavra, o mistério. É  aí, à beira do abismo e cegos pelo golpe agressivo do sol , que ficamos imóveis, absortos num silêncio de êxtase, sem achar caminho à frente dos nossos passos.
Tudo isto, a propósito deste Domingo da “Santíssima Trindade”. Uno e trino! Uma entidade, a mesma e única, subdividida, transmutada, autónoma em três Pessoas distintas! Quantos oceanos de tinta invadiram a história da Igreja e das mentalidades  – tinta salgada e amarga - porque deram origem a debates e combates, dissenções e cismas?!... Teólogos, doutores, escrituristas, pregadores,  hermeneutas, um batalhão incontável de ‘especialistas’, terçando armas e ideias, lobrigando pelas galáxias da retórica, por vezes doentia, para descobrir o misterioso paradoxo de “Três em Um” e “Um em Três”… Nem mesmo a tríplice heteronímia de Fernando Pessoa seria capaz de acender um frágil fósforo, para  alumiar o mistério trinitário!
Metido nesta enorme ampola delirante de desvendar o enigma, socorro-me de uma alavanca que a racionalidade humana me oferece: se é de um mistério que se trata, o que a Suprema Divindade me pede e exige é que não tente entrar por esse mar estranho, necessariamente oculto aos meus olhos, porque não me foram dados braços e pernas para saber nadar nessa fundura. Perder-me-ia, afogar-me-ia, de certeza. Deus não pode exigir que eu O entenda ou que penetre nos arcanos da Sua Transcendência, da mesma forma que eu nosso posso exigir à flor do meu jardim que me entenda ou à mais preciosa pedra de diamante que leia o meu pensamento. São naturezas diversas, categorias qualitativamente (e infinitamente!) distintas.
Daqui, parto para duas conclusões. A primeira é a de duvidar de muitos palradores, tagarelas de feira que nas suas prédicas,  a cada dois minutos, falam de Deus, como se tratasse de um “tu cá, tu lá” ou como se estivessem a fazer publicidade de um detergente de supermercado. “Não invocar o Santo Nome de Deus em vão” – está escrito nas placas de pedra que Moisés transportou aos ombros. A segunda conclusão é a de vencermos aquele  medo visceral que nos incutiram, desde a infância,  perante um Deus castigador, Justiceiro e Ditador. É verdade que a Transcendência toma a veste da Imanência, mas isso não nos autoriza a moldar a Divindade à nossa imagem e semelhança. E é o que mais se vê em formulários estereotipados e em piedosas devoções.
“Que é que estão para aí a dizer de Mim?” – poderia Deus interpelar certas pregações, discussões e elucubrações acerca da sua Essência. Foi esta construção imaginária que atrevidamente (mas civicamente)  lancei uma vez no Centro Nacional da Cultura, em Lisboa, aos doutores da teologia, eclesiásticos e leigos, especialistas nacionais e estrangeiros, reunidos em conferência. Aliás, foi esta a pergunta que o próprio Cristo fez aos apóstolos (Mt.8, 28-29).
E hoje diria o mesmo. Com a certeza de que me colocaria – e ainda me coloco – na posição do vigilante atento ao sopro do Espírito. O Padre José Luís Rodrigues disse-o também no “Banquete da Palavra” da semana transacta. Permanecermos num silêncio meditativo.
Afinal, não fui breve. E o quanto e até onde levar-nos-ia este tema?!
Captarmos o pensamento genesíaco do Pai-Criador e continuarmo-lo no concreto da existência… Interiorizarmos a lógica regeneradora do Filho-Salvador… Enchermos os pulmões da energia dinâmica  do Espírito-Renovador --- eis uma tríplice proposta para homenagearmos e actualizarmos a todo o momento o denominado mistério da “Santíssima Trindade”!
11.Jun-17
Martins Júnior