sexta-feira, 11 de agosto de 2017

DESFECHO DO DRAMA “FICAR OU LARGAR” (III)


Quem, em tempo de férias relaxantes, preferiu viajar na linha livre das duas estações anteriores (“Ficar ou Largar”- I e II) estará hoje à espera do desenlace final: em que ficamos? Terá razão a sentença proferida pelo juízo da leitora: “Quem não se revê nos valores da instituição não faz parte dela”! E eu pergunto: haverá direito a recurso quando em apreço está a instituição-Igreja?...
         Sem correr o risco de enfadar o repouso de verão, tentarei marcar algumas bóias de referência neste mar propenso a dúvidas e equívocos sem conta. Quero crer que do paralelo descrito no texto anterior – entre os diversos modelos de instituição  -  pergunta-se se o Império organizacional da Igreja-instituição corresponde à matriz original do seu Fundador ou se, pelo contrário, configurou-se à imagem e semelhança das monarquias absolutas?... Trata-se de um organigrama burocrático-militar ou, antes, de um organismo vivo, dotado de inteligência, sensibilidade e criatividade no pensamento e na acção?...
         É esta a chave do enigma. Os que antepõem a instituição-Igreja à comunidade de corpos e almas em marcha para a Vida – decretarão depressa  a exclusão, ‘sem apelo nem agravo’. Os que invertem a equação – Povo em  perpétua viagem em vez de betão armado, colunas, tronos  e  cúpulas ogivais, por mais sofisticadas que sejam – esses descobrirão que o seu protótipo e Líder, O Cristo Evangélico,  identificou-se com a carne humana, o Povo em marcha, deu-se-lhe todo, combatendo a ignorância, a alienação e a despersonalização com que os pilares da Sua Religião, sediada em Jerusalém,  sufocavam os crentes. A Sua paixão era a dignificação e a ascensão global dos seus conterrâneas, ao ponto de ser acusado pelos fariseus de subverter a lei de Moisés e de colocar o Homem à frente de Deus. Poderia o Mestre afastar-se, abandonar, largar – deixando os seus contemporâneos condenados às garras do obscurantismo, do medo, do terror divino. Mas não fez. Manteve-se firme, inteiro e intemerato até ao fim. Mesmo sabendo que após a Sua morte viriam os abutres sem escrúpulo (“ a praga do Vaticano”,  disse-o  Francisco Papa) e do Seu Corpo fariam mina de ouro, dos seus braços amorosos fariam chicotes de tortura e do Seu Coração aberto jorrariam labaredas condenatórias contra quem Lhe seguisse as pegadas. Mas não desistiu!
         Milhares de homens e mulheres, mártires da Inquisição de todos os tempos, que abraçaram a comunidade, a Sua Ecclesia, acabaram atirados às feras pela instituição-Igreja. Mas não desistiram! Porque viam no seu Povo, não um rebanho acéfalo, manada bruta de autómatos invertebrados, mas carne da mesma carne e sangue do mesmo sangue, com fome e sede de Verdade e Luz, sempre em escala ascendente ao encontro da Casa Paterna.
         Certo é que, neste dilema, abrem-se dois caminhos opostos, um dos quais é o de sair e lutar denodadamente (alguns pegaram em armas) para derrubar a instituição. O outro, permanecer e abrir clareiras na mentalidade dos crentes, ‘armá-los’ de ideias e perspectivas, num paciente e porfiado esforço de propedêutica sócio-cultural e espiritual, redescobrindo o rosto fraterno do Cristo-Fundador, para esconjurar os falsários predadores da instituição e  cumprir a directiva do bracarense Frei Bartolomeu dos Mártires (1514):  Ecclesia sempre reformanda – a Igreja deve estar sempre em processo de transformação. De purificação, acrescento.
         É este um trabalho árduo, mas consistente. Quando os cristãos de base interiorizarem que também são fermento na Igreja, então serão eles os construtores da Igreja-comunidade, de regresso às fontes primeiras da sua crença. Abrir-se-lhes-ão os olhos e então cairão as superstições pias, os báculos acusadores, as mitras balofas. Tem sido assim o percurso do Papa Francisco, esperando ele que a imensa assembleia dos cristãos compreenda o seu alcance e assuma o  lugar que lhe compete no grande fórum da História.
         Louvo todos quantos – gente boa, verdadeira “estirpe cristã” – que no seu dia-a-dia vibram com este anseio libertador. Louvo os que largaram, como bem descreveu Bernardo Santareno, na peça “A Traição do Padre Martinho”, quando este, perseguido pela Pide, abandonou a sua paróquia do Cortiçal,  desabafando amargamente: ”Não é possível ser-se padre em Portugal”.  Tal como na luta sócio-politica, louvo os que desertaram da guerras fratricidas em África e, no estrangeiro, lutaram contra a ditadura.
         Mas maior louvor dedico aos que ficaram, organizando e apoiando o Povo nas suas justas reivindicações, os que foram despedidos, perseguidos, jogados às prisões, manietados e torturados. Esses mantiveram-se firmes às raízes e aos ideais. Por vezes, custa mais ficar que partir. O mesmo se pode subscrever quanto à organização familiar.
         O importante é o conhecimento. Recordo-me do Prof. H. Hoestlandt, da Universidade de Lille, quando o acompanhei na Madeira numa inesquecível pesquisa científica por todo o litoral insular. Ofereceu-me a obra do P. Vouiillaume, Au coeur des Masses, sobre a vida e o assassinato de Charles de Foucauld, no deserto dos tuaregues. E apôs a seguinte dedicatória: “Pour uns découverture du Christ”. Foi este convite à descoberta que me  marcou os passos futuros, já lá vão mais de 60 anos.
         Apraz-me terminar esta mini-trilogia – “O drama de ficar ou largar” – com recurso à estância 40, Canto I, do valoroso Luís Vaz de Camões: “É vergonha desistir-se da coisa começada”, Aqui, “coisa” é conhecimento, é ideia, é “sonho que comanda a vida”!
         11.Ago.17

Martins Júnior