domingo, 13 de agosto de 2017

TRÊS MESES EM ALTA TENSÃO

     
    Se os decibéis sonoros  se transformassem em fogueiras (Vade retro, credo abrenuntio) podíamos pegar rastilho num qualquer lugarejo da ilha e teríamos durante 90 dias um poderoso anel de fogo na cintura, no dorso, da cabeça aos pés, desta paisagem estival em que se tornou a Madeira. Não se sai de uma aldeia, vistosamente engalanada, que não se entre noutra a abarrotar de gente envolvida ‘à sombra’ de plásticos multicolores que se abanam com o ribombar dos foguetes e os estridentes acordes do palco. O povo andarilho lá vai de poiso em poiso, ao toque do arraial e à pala do santinho ou da santinha, tantas vezes os mais desconhecidos da festa, mas que lhe dão uns salpicos de devoto conforto.
         São assim os nossos arraiais, rivalizando uns com os outros, quase numa corrida à camisola amarela. Dos programas publicados, lanço um olhar exclusivo sobre o panorama musical. A alegria exige animação, muita música, sob a batuta do ‘chefe de orquestra’: Façam barulho! É curioso observar, pelos anúncios públicos, que os géneros são muito similares, os solistas e respectivas bandas vão passando de um arraial para outro, chegando-se ao cúmulo que alguém exprimiu assim: “Basta ir a um só que fica tudo visto”. Referia-se à frágil, senão mesmo nula,  originalidade distintiva deste ou daquele lugar. Para desenfastiar, lá vêm do rectângulo os ‘cromos’ animadores das feiras, alguns até com uma salada pimba que revolve o debulho. E o povo gosta, diverte-se, esquece as pisadas da vida.
         Profundando a análise dos factos, não será difícil concluir que a falta de identidade característica que distinguiria uma festa da outra deve-se a  outra lacuna: a falta de criatividade participativa da população local na construção do seu programa de animação. A ausência do elemento Povo no palco varre todo o encanto típico daquela festa, por mais rica e espectacular que seja. O Povo demite-se e passa procuração a terceiros que nada trazem de representativo da sua terra. Dir-se-ia, à moda antiga, é a “mesma chapa seis” em todas as paragens.
         Longe de mim o culto de um regionalismo doméstico (paroquial, como  displicentemente classificam alguns) e, muito menos, qualquer sombra de menosprezo pelos artistas profissionalizados, de cá ou de lá. Aliás, em datas festivas, há sempre uns aperitivos diferentes da ementa quotidiana. Mas o que me parece indissociável da festa é o perfil marcante da sua população, coreografia adequada  e a produção literária autóctone dos poetas populares, que todas freguesias têm, particularmente nos meios rurais e suburbanos. E toda essa caracterização  visual ao serviço de conteúdos vivos, tocantes e quase sempre atractivos. Pela sua simplicidade e pela sua autenticidade. É isto que faz falta.
         Sem pretender ‘embandeirar em arco’ exclusivo uma localidade já conhecida na Madeira, apraz-me reconhecer e prestar homenagem aos mais de setenta participantes em palco, na última festa da Ribeira Seca, cumprindo uma tradição antiga. Os nossos ‘bailarinos’, desde os quatro e seis anos até aos de setenta (estes, antigos executantes de há quase cinco décadas) desfilaram em palco, cada qual com o seu traje diferenciado, idealizado por cada grupo ou sítio,  apresentando o perfil da população residente, as suas tradições laborais, os moinhos artesanais de outrora, o tear, as vindimas, os emigrantes,  as justas ambições dos jovens, enfim, fragmentos da sua história, traduzidos em canto e dança. Da enorme afluência de espectadores, ninguém arredou pé enquanto os nossos ‘artistas’ estiveram em palco.
           Festa é Festa – lá diz a velha cantiga. Desejável, porém, seria que a  festa não fosse apenas um narcótico barato, alienante, tão fortuito com o foguete que assusta o sol e fica logo em nada, estatelado no chão. O arraial bem pode ultrapassar a estaca rasca – “só para comer e beber”, é o que mais se ouve. Pelo contrário, deve alimentar a auto-estima colectiva, a exaltação de um Povo, o itinerário dos seus antepassados, enfim, o arraial pode preencher simultaneamente o corpo e o espírito. Não apenas, os arraiais populares, mas até os grandes concertos internacionais. Recordo aqui, a título exemplificativo, bandas famosas como os U2, Bruce Springsteen, os Downtown. E tantos outros de craveira mundial que fazem das guitarras, da  voz e das  baterias não apenas episódios de diversão mas poderosas ondas comunicacionais de mensagens firmes que sustentam os grandes valores da condição humana.
         Transcrevo uma das estrofes com que o grupo de jovens locais encerrou a sua actuação:

Nas ilhas do vulcão
Nas terras do basalto
Erguemos bem alto
A chama deste grito
E o chão de granito
Brada sem demora
O futuro é nosso 
Esta é a nossa hora



 13.Ago.2015
Martins Júnior