quarta-feira, 13 de setembro de 2017

DEMOCRACIA EM FESTA!


Agosto ido, Setembro vindo, Outubro abrindo. Por outras palavras, a festa continua. Outros traduzirão “a luta continua”, mas eu prefiro olhar o 1º de Outubro como a Festa da Democracia. Porque aí, ganhe quem ganhar, é o “Povo Quem Mais Ordena”.
Disse “ganhe quem ganhar” e não disse “perca quem perder”,  porque até aqueles que não conseguirem os seus objectivos podem estar cientes de que não perderam. Pela simples e magna razão  de terem contribuído para o processo democrático. Sem eles, teríamos o império do partido único, a ditadura do UI (o “Único Importante”, mesmo que desprovido de todo), cuja triste memória ainda ensombra as gerações presentes.
Eis, portanto, o valor acrescentado do processo eleitoral. Todos têm acesso aos centros de decisão, todos “nascem iguais” perante a escada do poder. E isso é festa. Demonstra-nos, a olho nu,  o arraial dos empolados estandartes com os candidatos rindo e sorrindo a-bandeiras-despregadas e as candidatas esvoaçando ao vento as cabeleiras ruivas, negras, multicolores. E as palavras de ordem que se soltam, simpáticas, sonoras,  oferecendo-se atrevidamente ao viandante desprevenido.
No entanto,  o mais determinativo é o processo. Direi mesmo que só haverá festa democrática no 1º de Outubro se democrático for o percurso - o processo - de lá chegar. Ou seja, de subir a escada e fazer a escalada até ao topo da montanha.  E aqui é que camba e descamba o ritmo da democracia viva, assumida, autónoma. Embora todos partam, creio eu,  animados e convictos de fazer o melhor para a comunidade, nem sempre se apercebem que são marionetes suspensas dos dedos dos seus patronos, os partidos.  Quem, por experiência visual acumulada, se põe a observar o recrutamento de  populares ‘anónimos’, não deixa de ver que o único móbil que faz correr muitos  assalariados partidários é  “concorrer a todos os concelhos e freguesias”, para apresentar aos “comités centrais ou regionais” um recheado ‘palmarés’,  ainda que  levem na mão uma certidão de óbito eleitoral. Daí, toca-se num amigo quieto, num primo, depois num eventual descontente dissidente, talvez premiando-os com os dez dias de campanha e consequente  folga ao trabalho, aliciando-os, para cúmulo, com um assento que pode valer umas ‘coroas’. E lá vão, “cantando e rindo, levados levados sim”, como cantava a extinta “Mocidade Portuguesa”.   Com este processo e com estas muletas (em que vale tudo) fica claudicada a subida, porque o que sobra em quantidade nas listas escasseia na qualidade e na mística de servir a comunidade.
Para esclarecer quem duvide deste parágrafo, limito-me a descrever a atitude de alguém que foi eleito para membro de uma assembleia de freguesia. Na hora de tomar posse, perguntou: “Quanto é que isso dá?”.  Perante a resposta legal – “ganhas o correspondente a uma senha de presença por cada sessão” – resolveu liminarmente o assunto: ”Isso não me dá para um par de solas nas botas. Renuncio já”… E saíu porta fora. Hoje aparece num cartaz público como cabeça de lista de um outro partido quase irreconhecível na Madeira!!!
Assim, não há festa no 1º de Outubro, porque o processo enferma de um vício estruturalmente anti-democrático. Porque o que se requer no percurso é a inteira disponibilidade ética e psicológica  para construir uma Democracia  convicta, autónoma, desinteressada.
Já foi dito que a quantidade prejudica a qualidade. Inter-partidos e intra-partidos.  Ao ponto de se descobrirem grandes valores  em formações pequenas. “Por saber de experiência feito”, confirmo-o e atesto.  No entanto, não obstante as raras excepções, têm razão aqueles que, perante a prolixa proliferação de partidos concorrentes, vêem uma inflação de mercado, uma democracia por excesso que é o mesmo que democracia por defeito. Sobretudo quando certos peões do xadrez politico estão encapotadamente, como mercenários,  ao serviço das torres hegemónicas e dos cavalos desenfreados que assaltam o poder, a qualquer preço.
O que aqui trago é uma opinião que necessariamente não é dogma.  Outros terão pensamento divergente. Respeitável, na mesma medida. Como cidadão que sou, tenho o dever, mais que o direito, de afastar pedregulhos traiçoeiros de circunstância e preparar o caminho para que no 1º de Outubro  passe, como rainha vitoriosa, a Democracia em cada Freguesia, em cada Concelho, em cada Região deste país. E haja Festa, a “Festa do Povo/ Do Povo que trabalha/ E faz o mundo novo”.  

13.Set.17

Martins Júnior