sábado, 23 de setembro de 2017

OS METAIS EM CAMPANHA


Impensável ficar alheio ao momento que passa, aqui e agora. Porque o “aqui e agora”  toca-nos o ombro, remexe-nos o cérebro e o coração. É connosco, com cada um de nós. Embora marcado pela transitoriedade, a verdade é que o momento que passa  obriga a confrontarmo-nos com o passado, o  presente e o futuro da terra que habitamos. Sob pena de nos tornarmos desertores, parasitas e, no limite,  cúmplices do acaso armadilhado com que outros pretendem capturar o povo a que pertencemos. Esta é a nossa circunstância – a que modela a nossa personalidade individual e colectiva.
É por isso que nada me é indiferente nos roteiros desta campanha para as autárquicas. Olho-a, por vezes entediado, Mas observo-a atentamente. Peso-a na balança de um juízo que me parece criterioso, E, por fim, decido-me. Não permitirei jamais ser joguete acéfalo de megafones feirantes, por mais estrídulos que se apresentem.
Neste entendimento, não posso deixar de reagir ao chocalhar de metais que certas forças concorrentes agitam em palco, nas manif’s, nos gabinetes governamentais, nas redes sociais. Nunca como agora se ouviu  falar tanto em milhares e milhões a escorrer da serra ao mar. Tantos milhões para a estrada varrida pela aluvião de há quatro anos., Outros tantos para o cais há tanto tempo danificado. Mais uns milhares para limpar as cinzas de incêndios passados. Outra vez milhões para a escola que durante tantos anos rompia pelas costuras das  salas e gemia sob os tectos de amianto. E mais molhos para os bairros sociais. Até a própria cultura, as associações, ‘casas de povo’, os livros escolares, os apoios aos estudantes – tudo vem canalizado em manilhas de moedas sonantes, quase sempre dinheiro que nem sequer ainda é  nado, muito menos criado. Não sei como é que o povo não se afoga no meio de tanto metal a saltar! Mais capciosa é a estratégia de certas reivindicações – neste preciso momento! -  que ostentam a bandeira de melhor servir o público, mas que no fundo, como “gato escondido com o rabo de fora”, lá está a campainha a puxar por mais ‘guita’…
Sem dúvida que não há obra sem orçamento, mais a mais quando toca a dinheiros públicos. Mas o que mais confrange e indigna é esta forma saloia de mandar assentar o povo no chão da favela e atirar-lhe abadas de moeda a rodos, como se fôssemos um rebanho de esfomeados à espera de barretes cheios de tostões. Normalmente são estes os comportamentos das forças dominantes, os “bicheiros” do tesouro público, tesoureiros dos impostos cobrados aos contribuintes.
Espera-se que haja mais elevação na retórica de persuadir as populações. Que se não faça da campanha uma roleta de casino. Que se não caia em frívolos compromissos inexequíveis. Tenham vergonha de se apresentar como dadores de um bodo aos pobres. Antes era a espetada, hoje é o porco assado na via pública, fazendo lembrar cenas mendicantes de há quinhentos anos passados. Estamos no ´seculo XXI. E os valores acumulados de uma educação cívica, cada vez mais  progressiva, não suportam o linguajar barato das feiras medievais, muito menos o chocalhar lá gasto de moedeiros falsos.
Os concelhos e as freguesias merecem um olhar maior!

23.Set.17

Martins Júnior