terça-feira, 31 de outubro de 2017

DOIS INSTANTES QUE MARCAM MEIO SÉCULO


O audiovisual regionalizado tem-se encarregado de pintar em caracteres garrafais os 50 anos de vida da nossa RDP. Desfaz-se em largas e pitorescas manifestações, dá corda aos carrilhões domésticos para que todos os madeirenses despertem e cantem em uníssono os parabéns da praxe. São entrevistas, reportagens, espectáculos, séries sequenciais. Chegam, por vezes, a cansar os repetidos relatos da exiguidade de meios, as ferramentas artesanais, as bobines que vinham de Lisboa, as cenas das primeira infância radiofónica regional,
Da análise dos conteúdos pouco transpira, a não ser umas lágrimas de pólvora seca sobre a “Censura” fascista com que Salazar e seus fiéis patriotas lobrigavam perigosos tigres onde nem de gatos se via sombra. Esquecem-se os narradores profissionais de lembrar os tempos pós-Abril na Madeira em que eles próprios eram forçados a deitar cá para fora noticiários e parangonas que os espectadores classificavam, genericamente, de “rádio-tele-jardim”. São mais que muitos os madeirenses que foram prejudicados, amesquinhados, injustiçados nesses tempos. Quão difíceis e frustres eram as tentativas de resposta!
No entanto, dois episódios – um dos quais na rubrica “PUXA PARA TRÁS” – emergem como luzeiros marcantes no meio das sombras. Refiro-me à entrevista concedida pelo antigo director da RTP/M, eng. Carlos Alberto, Transcrevo: “O Pe. Martins tinha sido entrevistado em Lisboa, ainda nos estúdios do Lumiar, pelo jornalista Adelino Gomes. O brigadeiro Azeredo deu ordens para que não passasse a entrevista na Madeira. No dia seguinte, o brigadeiro pretendeu usar os estúdios regionais para responder à dita entrevista. Eu limitei-me a esclarecer: ‘Sim, o senhor responde, mas com a condição de passarmos primeiro a entrevista do Pe. Martins’. E assim aconteceu”.
Não se sabe que mais admirar: se (pela negativa) a prepotência do poder civil e militar, arvorando-se em dono soberano da comunicação social regional,  se (pela positiva) a verticalidade e o respeito deontológico por parte do profissional da informação!
O segundo episódio, contou-o o Padre António Simões, capelão militar, graduado em coronel, na rubrica “UMA HISTÓRIA, UMA VIDA”, retransmitida anteontem, a propósito da ordem do antigo bispo do Funchal para que o referido sacerdote lesse uma nota da Cúria diocesana, aquando da missa dominical celebrada, então,  nos estúdios da RTP/M. O padre opôs-se vivamente, alegando que o “texto envolvia conteúdos de teor político”, o que lhe estava vedado como capelão militar. Após as embaraçosas cenas que o próprio narra na entrevista, dirige-se ao Paço  e entrega ao bispo a responsabilidade do caso, recusando-se a celebrar mais alguma vez  o ofício dominical naquelas circunstâncias. E cumpriu.
Quid júris? . em relação a mais este capítulo. Por um lado, a arrogância do Paço Episcopal , conluiado com a Quinta Vigia, ao ponto de mandar na RTP/M. Por outro, a dignidade e o desempenho deontológico do militar-capelão.
Circunscrevendo-se embora à RTP/M, os dois episódios contêm matéria comum aos diversos canais do audiovisual regionalizado, durante meio século.  Mais casos exemplares, certamente, outros protagonistas poderão lembrar.   Só por isso, valeu a pena comemorar tão expressiva efeméride, fazendo votos de que a Informação, que ao Povo pertence, devolva ao mesmo Povo a sua identidade primeira – o isento e verdadeiro serviço público.

31.Out./1.Nov.17

Martins Júnior     

domingo, 29 de outubro de 2017

O MESTRE – PRESO NAS CHAMAS DA INQUISIÇÃO JUDAICA

 Vi o meu país a arder. E partilhei convosco a visão de quem sente as chamas de Pedrógão contagiando corpos e almas, tribunais e Escrituras, partidos e classes sociais. Foi anteontem, quando subi ao observatório do SENSO&CONSENSO e de onde  avistei  serenamente a paisagem circundante. As interpretações ficam ao critério de quem lê. Todas plausíveis, todas aceitáveis.
Hoje, alargo o olhar e percorro mais de dois mil anos de história e constato que, afinal, a sina existencial do ser humano é, talvez, viver entre as achas de uma fogueira interminável, porque inextinguível. E com esta verificação retomo o nexo lógico da reflexão do sábado, 21 de Outubro. Porque, hoje é Domingo.
O ar que o Cristo de Nazaré foi obrigado a respirar, durante os três anos de vida pública, estava infestado de chamas virulentas que as classes dominantes reacendiam à Sua volta, sem tréguas, umas vezes ostensivamente, outras armadilhadas sob as cinzas da hipocrisia e do oportunismo mal disfarçado. No Domingo passado, vimos o ardil capcioso com que os donos do poder civil e religioso pretendiam “caçar” o Mestre, a pretexto do pagamento de impostos aos Césares de Roma. Hoje,  a armadilha, congeminada pelos donos do capital e do direito, os fariseus, trazia todo o veneno de uma flecha em brasa, embrulhada  numa pergunta, a mais dócil e aparentemente inofensiva: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei”?
Só se entenderá o alcance desta cilada se nos situarmos no contexto sócio-ideológico da época. Aí, imperava o regime teocrático, cujo rigor dominava as instituições e as mentalidades, sobretudo, no âmbito do culto. As únicas linhas programáticas da Religião assentavam numa projecção vertical: religioso era só aquele que olhava para o Alto e fazia do culto legalista, extra-terrestre, o exclusivo passaporte para ser aceite na comunidade. Daí, as mais desumanas prescrições, por vezes cruéis e contra-natura.  Era o despotismo religioso à solta, o reino do sufoco e da escravatura para o povo.
O Cristo, pelo contrário, fixava o seu olhar menos para o Alto e mais para a terra, para o povo abandonado, carente e amordaçado pelos donos da religião. “Tudo o que fizerdes a um destes mais pequeninos é a mim mesmo que fazeis”. Abissal esta mudança de registo e de acção! Era a Religião na sua essencial dimensão horizontal. Estava, assim,  lavrada a sentença do Sinédrio e dos Juízes-Sumos Sacerdotes: “Esse homem é Belzebu, é um demónio em pessoa”. É um herege, um ateu – diríamos hoje. “Portanto, é réu em tribunal, tem de morrer”!
Este, o ambiente, o ar calcinado que se respirava então. Mas faltava a confirmação formal pela boca do próprio. Era preciso apanhá-lo em flagrante, publicamente. Daí, o ferrete da pergunta. “Qual é o primeiro mandamento da Lei”?... Novamente, o Mestre entre a espada e a parede! Não podia contradizer-se, negando a substância da sua pedagogia, o serviço ao outro é um serviço a Deus. Mas também não daria o flanco aos fariseus detractores, negando o culto ao Deus Iahveh, sob pena de blasfemo e réu no supremo tribunal.
Então veio a resposta. Ténue na voz, mas imponente, inapelável no conteúdo: “Sim, o primeiro é esse que vós dizeis: ‘Amar a Deus’. Mas o segundo é idêntico (igual) ao primeiro: Amar o Próximo”.
Permitam-me destacar neste episódio, não tanto a tese inclusa na resposta (porque essa povoa toda a mensagem) mas o seu contexto, isto é, o clima de perseguição, de intriga, de maledicência, enfim, a satânica fogueira inquisitorial, em cujas chamas  os ditadores da religião e do capital pretendiam afogar a pessoa e o ideário libertador do nosso Cristo. Razão tinha Augusto Cury para escrever esse respeitável estudo, a que deu o apropriado título: “O Homem Mais Inteligente da História”. É esta visão do Cristo Horizontal, tocante, lado-a-lado connosco – a que Ele talvez prefira – em vez do Messias Verticalizado, assumpto e extra-terrestre, objecto de preces e benesses de circunstância.
         Admitindo e respeitando outras e diversas abordagens sobre o assunto, assento a minha perspectiva nesta verificação prática, retomando o pensamento de Blaise Pascal: “Jesus estará em agonia até ao fim dos tempos”. Pois bem: este Cristo em agonia não é o Cristo das Alturas, invisível, sideral, porque a esse os novos Fariseus e Sumos Sacerdotes não incomodem nem perseguem. Até ajoelham diante do seu altar. A quem  os dominadores do mundo atiram às chamas, ferem e matam são os Cristos vivos, os que vivem a horizontalidade intrínseca da sua mensagem, os “que têm fome e sede de justiça”, os que sofrem mas não desistem, os que gemem mas cantam, os que morrem mas continuam redivivos, ressuscitados. Como o Mestre. Como tantos, gente anónima, de ontem, de hoje e de amanhã.

29.Out.17
Martins Júnior



sexta-feira, 27 de outubro de 2017

PORTUGUÊS=INCENDIÁRIO NUM PAÍS EM CHAMAS…


Hoje, vejo-me na pele de fugitivo. E corro, a sete léguas, para o mais alto dos Pirinéus, de onde avisto esta ‘jangada’ breve chamada Portugal. Revejo nela o mesmo pânico do famoso  “Paris está  a Arder”. Mas agora é o meu país.
O fogo devorador de Pedrógão Grande pegou-se com Leiria, Lousã, Coimbra, Viseu,
Alastrou-se pelas auto-estradas, chegou a Lisboa,  abalou São Bento, chamuscou Belém, incendiou a Assembleia da República, assou na grelha Ministra e  Ministério.
Bateu à porta dos sindicatos e poucos escaparam. Ao cordão em brasa  agarram-se os médicos, os enfermeiros, mais a brigada dos polícias, guardas,  professores,  contínuos, os públicos funcionalismos. Agora é que é! “Vamos ao bolo, que isto está quente e até dá jeito começar o fim-de-semana mais cedo”… Das queimaduras não se livram os doentes nos hospitais e as crianças nas escolas. O importante é largar Pedrogão da mão e  mandar gás ao Orçamento.
A paranóia incendiária até já chegou ao Porto, trepou as escadas da Relação e pega gasolina à mulher. O juiz e a juíza casam-se de toga e atiram para a fogueira, não uma, mas todas as mulheres da terra, filhas de Eva, condenadas pelo Livro do velho Jeová. Mas vêm a seguir os bispos e 'queimam' o Vétero-Testamento, a pedido da pecadora Madalena.  Quem se livra deste manicómio em chamas?!...
E como  o “mal quando vem toca a todos”,  também lá andam vestidos do perigo “laranja” os donos do laranjal, a atirar granadas de fogo do sul para o norte e do norte para o sul, à espreita do perigo “vermelho”.
Ainda sobram aqui e além mais umas mangueiras combustíveis entre o “coiceboll” e os apitos já pretos de carvão, mais fora que dentro dos estádios. E ainda há quem por aí se espante dos 30 graus que afogam o ar que todos respiramos… Para cúmulo, o sufoco faz aparição na casa do vizinho e estala também  na Catalunha exaltada e exaltante.
E agora, digam-me ou não se estou condenado a vestir a pele do fugitivo para escapar ao contágio desta fúria pirómana?
Ou sátira ou rábula ou parábola, entendam como quiserem o  “COM ou SEM SENSO” de hoje. Mas, ao menos,  permitam-me desabafar: com tanto inferno à solta, as próprias chamas que porventura seriam necessárias anulam-se umas às outras, tal a fumaça intempestiva e desabrida  com que se apresentam ao país.
Quando virá a chuva benfazeja para apagar  nervuras e neurónios?...

27.Out.17
Martins Júnior   

   

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A TERRA DO TAMANHO DE UM HOMEM – E O HOMEM MAIOR QUE A SUA TERRA

“Creio mais no Deus da Natureza que no Deus da Bíblia”
Padre Manuel de Nóbrega

 Pés nascidos mergulhados
Nos aquíferos subterrâneos
Que lhe correm nas entranhas

O tronco - de urzes milenares
Assenta nos basaltos musculares
Que o vulcão abriu em cratera

Todo o peso da terra
Carregam-no seus ombros de gigante

A fronte soberana como o  Levante
Cai-lhe do monte abraça o vale
Beija o musgo rasteiro
A resina do pinheiro
O barbuzano e a orquídea brava

E onde agonizava
O indefeso laetinervis
Ele o afaga e trá-lo ao peito
Dá-lhe um nome e um trono
Como a um filho perfeito

Terra e Homem – Um só
No regresso ao materno seio
Serás mais que cinza e pó
À tua sombra verde hasteio
Descansarão os castanheiros que amaste
Os folhados os loureiros  os tis
Montanhês Ilhéu  e Nobricense
Nosso Francisco de Assis

25.Out.17
Martins Júnior



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O FIM DO PRINCÍPIO E O PRINCÍPIO DO FIM – BOA VIAGEM!


Foi hoje o fim do princípio. E, por mais estranho que pareça, foi  o princípio do fim.
Hoje, último dia  da tomada de posse daquele que foi o Dia de Ano Novo para os recém-eleitos do Poder Autárquico! 
Terminou, pois, aquele tempo de espera – e, mais que de espera, de trepidante expectativa – que culminou na eleição de 1 de Outubro de 2017. Fechou-se o tempo do namoro alcançado. Recorto o sabor desta metáfora, propositadamente,  para sintetizar a maré-cheia de sonhos altruístas, as juras viscerais de bem servir o ‘povo constituinte’ e doar-lhe aquela inteira chama  que só  se entrega a quem se ama. Quero crer que a tinta com que subscreveram o termo de posse tem a cor rubra do coração dos respectivos signatários. Isso viu-se no “brilhozinho dos olhos”,  no gesto ansioso, na elegante frescura, até, da indumentária festiva. Quem já passou por cenas idênticas, adivinha a pulsação dos eleitos que sentem nesta hora o mesmo deslumbramento de quem recebe as chaves do novo apartamento e  abre as cortinas virgens das janelas ou desdobra os lençóis do enxoval bordado. Enfim, para os eleitos, a Primavera veio no Outono
Mas hoje é também – e mais impressivamente – o princípio do fim. Apraz-me repetir, porque a sinto em toda a  profundeza,. a paráfrase inspirada em Sérgio Godinho – “Hoje é o primeiro dia do resto do teu mandato”. Quatro longos anos ficam já na próxima estação, ao virar da esquina. Cuidado! Aqueles que, insipientemente, hoje se vangloriam da vitória, não se esqueçam que, daqui a quatro anos,  vão andar novamente  de porta em porta, como pedintes à procura da recompensa ou da esmola de um voto. Daí, a humildade – não a subserviência! – daí, a transparência – não o suborno ou  compadrio! – daí, a justeza e o sacrifício, com gosto, de ser fiel ao 1º de Outubro de 2017.
Sem chamar para aqui o “Velho do Restelo”, talvez seja útil aos empossados interiorizar esta constatação: em nenhum outro plano existencial,  como no da política autárquica, são tão traiçoeiras as luas-de-mel!... Talvez porque ainda me  pesa o topo de algumas vitórias, em tempos duros contra a ditadura insular, incomoda-me e estremeço perante cenários tão desequilibrados de quem, ainda antes de tomar posse, já pensa em abandonar o lugar e atirar-se  como um trapezista de circo   ao arame  para o qual não foi chamado! Mais degradante, porém, é oferecer-se como barriga-de-aluguer em plena via pública!... Francamente, como simples observador, prefiro esconder o rosto e curtir baixinho: Para isto, mais valera ter perdido…
Permitam-me compartilhar o gosto com que acedi ao convite da Junta de Freguesia de Machico  (recordando outros tempos) e sublinhar a sobriedade do protocolo na cerimónia  da tomada de posse, a elevação de conceitos na administração autárquica, o bom gosto decorativo, a participação cívica e, sobretudo, o respeito mútuo entre as formações concorrentes ao acto eleitoral, registando a franca e saudável confraternização entre todos os elementos, o que nos augura um mandato feliz e produtivo.
Em jeito de mensagem, retenho a afirmação do empossado autarca-presidente: “Para nós, ganhar não é apenas triunfar. Para nós, ganhar é cumprir”!
Sejam quais os ventos, Boa Viagem e bom regresso ao nosso  “Cais do Desembarcadouro”, o cais de Tristão Vaz.

23.Out.17

Martins Júnior

sábado, 21 de outubro de 2017

“DAR A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR”

                                                         
Porque “hoje é sábado, amanhã domingo”, passo ao largo desta vaga em que baloiça a Madeira, com programas estratégicos de governos, remodelações e autarquias, novinhas em folha. Entro, pois,  noutro ritmo programático, o da análise global sócio-ideológica daquele que veio reformular a condição humana. Teremos amanhã, nos textos bíblicos oficiais, mais um momento alto dessa análise, Trata-se da famosa resposta de J:Cristo aos “sábios do templo de Jerusalém e aos doutores” da lei judaica. Tão forte e tão densa que se tornou viral, repetida, dobrada e desdobrada tantas vezes quantos os gostos dos intérpretes.
Descontextualizada do corpo factual que lhe deu forma, a resposta converteu-se em axioma generalizado para distinguir os conteúdos funcionais, as especialidades profissionais e, ainda, a dicotomia dos serviços oficiais: os que pertencem ao mundo ou à polis e os que à religião ou ao culto dizem respeito. E aqui não faltam exímios dissecadores da questão, secessionistas escrupulosos, a puxar o monóculo e o bisturi para o corte que lhes convém.
Entretanto, prefiro “ler com olhos de ver”  a factualidade original dos acontecimentos. É tão linear, tão leve e límpida que dispensa ‘ilustradas’ e complicadas interpretações. Insere-se numa outra luta, a antítese entre o pensamento livre e transparente de J:Cristo e o emaranhado de prescrições, engenharias estrábicas dos Sumos-Sacerdotes e Fariseus, ditadas exclusivamente para encobrir e, se possível, contrariar a descoberta da Verdade inteira.
Vejamos: nos domingos anteriores, os textos evangélicos revelam a coragem do Mestre face aos deturpadores do pensamento religioso, resguardados nas sombrias e largas vestes oficiais da elite vigente. Não há paralelo na história que se assemelhe ao fogoso combate do Mestre contra a classe hipócrita de Jerusalém: “Cegos, que guiais outros cegos. Assassinos. Sepulcros que fedem a podridão” . E este anátema, sem apelo nem agravo: “Os pecadores e as prostitutas entrarão no meu reino, mas vós sereis postos fora. Porque eles arrependeram-se e vós não”!
Amanhã, começa o contra-ataque. A gana revanchista da elite organiza-se em conciliábulos secretos onde traça plano de acção. Tacticamente, com medo da contestação popular. E sai o primeiro round: testar a vertente político-fiscal do  Nazareno. Numa terra colonizada pelos romanos, os impostos eram pomo de discórdia e raiva quotidiana entre o a população contra o colonizador. A armadilha é perfeita, pidesca ao mais alto requinte: “Mestre, então, o que é que achas desta carga de impostos contra nós? Parece-te justo explorar assim o nosso pobre povo para enriquecer o exército dos Césares”?...
Espada de dois gumes, encostada ao pescoço do Mestre. O “sim” e o “não”  arrastariam a mesma condenação: uma, da parte do Imperador; outra, da parte do povo. Não esperavam, porém, os “doutores forenses” e os “papas-cardeais-bispos” de Jerusalém, a intuição repentista do nosso Cristo. “Mostrai-me essa moeda com que pagais os impostos. De quem é essa imagem cunhada na moeda”? – “De César” – “Então, se é dele, devolvei-lha”.
“Dai a César o que é de César”. Eis a origem pragmática da expressão que tem sido pretexto para as mais díspares e repuxadas interpretações. A armadilha que as elites prepararam para “caçar” o Mestre foi essa, a mesma, com que ficaram enredados e derrotados. Ainda assim, não desistiram. Como não resultou a estratégia política, voltaram a reunir o sinédrio e congeminaram uma outra, mais capciosa e fatal, a estratégia cultual-religiosa, uma questão intocável na mentalidade de então. É o que leremos no domingo seguinte.
Passados mais de dois mil anos, como é que não possível ainda entender a linearidade libertadora e saudável de Quem veio abrir o caminho novo da plena realização da Vida?!

21.Out.17
Martins Júnior

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

MADEIRA E MALTA – ‘GEMINADAS’ NA SEMI-SECULAR RDP/M!


Nas bodas de ouro da Radiodifusão Portuguesa na Ilha da Madeira, chamo uma outra Ilha – a de Malta – para geminá-la com a nossa. Ambas cercadas de mar por todos os lados  e ambas apertadas pela corda férrea que algema as mãos de quem escreve – garrote à solta que amarra a garganta de quem  afronta os corruptores-poluidores do ar que respiramos.
Saúdo DAPHNE CARUANA GALIZIA, jornalista,  53 anos, assassinada em 16 de Outubro, meia-hora depois de ter denunciado a corrupção dos “donos da ilha de Malta”.
No início das comemorações do cinquentenário da RDP/M, evoco a coragem de Daphne e, nela, todos aqueles e aquelas que, entre nós, sentiram o apelo veemente da consciência jornalística e tentaram, mesmo entre soluços e gemidos, despoluir o negro ‘capacete’ com que os poderosos pretendem afogar o pensamento ilhéu. Gloriosa - mas ingrata – a missão de jornalista!... Sobretudo quando a terra é um charco e o império é de sapos!
Saúdo o malogrado JOSÉ MANUEL PAQUETE DE OLIVEIRA que, amanhã, 20, dia do seu aniversário natalício, será homenageado em Lisboa.
Saúdo TOLENTINO DE NÓBREGA, da estirpe das terras de Tristão Vaz, “de antes quebrar que torcer”.
Saúdo os ilustres jornalistas, Mestres da Palavra pública  que, vindos de Lisboa, deixaram ontem e hoje no Teatro Municipal mensagens libertadoras, sem esquecer o realismo atroz dos que se vêem manietados e amordaçados pelo poder dominante, seja o político, financeiro ou ideológico. Retive, entre outras, a verdadeira, mas arrasadora, constatação de Paula Cordeiro: “A cada jornalista que contesta, há uma fila à porta para entrar” .  A conclusão, nem é preciso dizê-la: Como é duro ser Jornalista nesta terra!

19.Out.17
Martins Júnior


terça-feira, 17 de outubro de 2017

DE PEDRÓGÃO A VISEU, DE COIMBRA ATÉ LISBOA – A QUEM APROVEITA PORTUGAL A ARDER?

              Em Outubro-10,  de 2017,  celebraram-se em Coimbra os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, um marco glorioso, porque pioneiro, que até fez Victor Hugo lançar, desde França, um rasgado elogio aos portugueses, colocando Portugal na vanguarda da civilização universal.
         Hélas! – exclamaria hoje, inconsolável e perdido,  o genial romancista  parisiense, ao constatar a tragédia com que, precisamente no centro do nosso país, deparar-se-ia perante uma paisagem-cemitério de mais de 100 mortos, “A pena de morte voltou a Portugal”!... Mais cruel e assassina que outrora, pois são inocentes todas as vítimas que os 530 incêndios devoraram nos 350 mil hectares de terra queimada!
         Quem, mesmo de longe como nós,  seguiu atentamente a vertigem dos acontecimentos, os gritos lancinantes, o desespero sem tréguas, a fúria do vento em chamas, não resistiu à dor, sentindo o lume chegar-nos à pele, as cinzas turvar-nos  a vista e o corpo todo, sufocando-nos a respiração! Mas o mais pungente foi a sensação de impotência perante a tragédia, a impotência das vítimas, dos bombeiros, do povo anónimo. E a nossa também.
           O estertor do apocalipse bateu-nos à porta. De sobressalto, como o fogo. Sacudiu a sociedade, de alto a baixo. E eis-nos todos – nas redes sociais, na imprensa, em mesas redondas e em debates quadrados - a interpelar a atmosfera, os planos estratégicos, os incendiários profissionais, as corporações, os madeireiros, os autarcas, os meteorologistas, os paisagistas, os governos de hoje, de ontem, do século passado. No meio de todo esta barafunda ensurdecedora, não será difícil distinguir entre a análise serena, criteriosa, sentida  e, do lado oposto, a verborreia sem pausa e sem nexo, descontrolada e enviesada de raiz, enfim, a lamúria-espectáculo para impressionar o consumidor desatento, antepondo ao bem dos lesados outros  interesses encapotados, os seus, classistas, partidários. Sintomático foi o esbracejar de um conhecido comentador que, bem arrumado e engravatado na poltrona do estúdio, exigia ao Estado a expropriação/retenção das terras cujos proprietários não procedessem à sua limpeza. Muito bem, diria eu, se não adivinhasse que o mesmo seria o primeiro opositor da dita proposta, caso o proprietário o constituísse seu defensor na barra do tribunal…
         Não entro por aí. Nem tão pouco pela sofreguidão voraz dos que, desde há muito (e com culpas no processo) só vêm como  solução atirar uma mulher à fogueira, para que os incêndios se extingam e os mortos ressuscitem. E não vou por aí, porque é enorme, no tempo e no espaço, a empresa da regeneração dos solos, do ordenamento florestal, da gestão dos aquíferos e respectiva rentabilização, de uma acurada  pedagogia cívica  e, acima de tudo, de uma inteligente repartição dos recursos disponíveis. Serão necessários orçamentos de décadas inteiras para alcançar o cimo da montanha.
         Julgar e condenar quem, por acção ou omissão, fez de Portugal um lugar de tortura, a morte pelo fogo, é um direito e um dever de cidadania. Mas que, na sentença, seja  imperativo e visível o horizonte da defesa da “nossa casa comum”.  Enquanto usufrutuários inquilinos desta nesga do planeta, apraz-nos ouvir o apelo genesíaco do grande Friedrich Nietzsche: “Irmãos, amai a Terra”!

         17.Out.19
         Martins Júnior
        


domingo, 15 de outubro de 2017

NO DOMINGO, 15 - “O PIOR DIA DO ANO”


Anúncio do Profeta:
“No alto daquele monte, o Senhor vai preparar um banquete de manjares escolhidos, acabará com o luto, enxugará as lágrimas de todas as faces, rasgará o manto que separa todas as gentes, destruirá a escravidão e a vergonha que pesam sobre o seu povo”… (Isaás,25, 6-10).
Notícia do dia:
O fogo devora montanhas, casas, vidas, povoações… O povo chora e nem as lágrimas apagam as chamas.… Mais além, não há pão na mesa nem leite para as crianças… Em vez do pão servem-lhes um tabuleiro de minas, munições, mísseis e armadilhas… Levantam-se muros da vergonha entre os povos,,, E a morte cobre de luto os campos e os mares… Mas o Senhor não vem, nem Isaías volta a falar.
Palavra de ordem:
O Senhor não vem, nem virá. E tu, Homem, não esperes nem desesperes. Entende: o  Senhor não virá assinar tratados de paz e cooperação… Não tem direito a voto nos parlamentos regionais, nacionais, mundiais… Não fará orçamentos nem planos de actividades plurianuais… Não abrirá hospitais, não dará consultas nem mandará mais enfermeiros… medicamentos… escolas e professores… Não pensa  ordenar o perímetro florestal do teu país, nem tão pouco debater as alterações climatéricas.
         HOMEM – local ou planetário, actual ou intemporal, de hoje e de amanhã!
És tu o co-Criador, o co-Redentor, o Co. Regenerador do mundo que habitas. Na tua mão, o sonho de Isaías! Falta cumpri-lo. De ti, também, depende a mão que assina os tratados, o braço que vota os orçamentos, o olhar vigilante que ajudaste a colocar no monte da tua aldeia, do teu município, do teu parlamento, do teu continente!
         Contigo – Connosco! - “o pior dia do ano” será definitivamente erradicado do calendário e poderá transformar-se no melhor domingo de toda a vida!

         15.Out.17
         Martins Júnior   


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

“ O HERÓI SERVE-SE MORTO” – Evocação cinquentenária



Fosse esta crónica um berro histérico alçando um bota-de-elástico que marca bolas de ouro – e o vulgo néscio cairia de bruços, em espasmos de arraial bacoco… Mas não vou por aí. Hoje navego até Outubro de 1967. E curvo-me diante de um Homem, 39 anos feitos, ‘cantados’ e ensopados em sangue, algures no chão matoso da Bolívia: acabava de ser assassinado Ernesto “Che” Guevara. Para uns, um criminoso, para outros um mártir, um San Ernesto Guevara de La Higueta.  Médico, escritor, político, guerrilheiro. Sonhava um mundo livre, uma sociedade de iguais oportunidades para todos. E deu tudo quanto tinha na luta contra a ditadura cubana de Fulgêncio Baptista.  Ir mais além – era a sua meta – e libertar toda a América Latina, colocando no alto da sua bandeira a estrela de um ideal: “Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação”.
Hoje, volvidos 50 anos sobre o seu assassinato, formulo a pergunta que o diário Le Monde estampava nas suas páginas: “Que nos resta agora de Che Guevara”? Algumas publicações, muitas efígies, decalcadas do famoso retrato, da autoria do artista irlandês Jim Fritzpatrik. Dizem até os entendidos que é o segundo retrato mais difundido no mundo, a seguir ao de Jesus Cristo. Testemunhei-o eu próprio no ano de 1972, em Volta Redonda, periferia do Rio de Janeiro, quando o Bispo Duarte Calheiros me confidenciou, em jeito de desabafo: “Sabes, padre português, o governo brasileiro pôs-me um processo judicial, porque mandei colocar  em dia de Sexta-feira Santa um retábulo do Crucificado sobre o altar e eles acharam que a cabeça do Cristo era igualzinha à do “Che” Guevara”!...
Sejam quais sejam as opiniões, deixo aqui o auto-retrato de Alguém, gerado e humano como nós, publicado no seu livro “El Socialismo y el Hombre en Cuba”, onde define o seu conceito de revolucionário:
“Devo dizer, com o risco de parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade. Quiçá seja um dos grandes dramas do dirigente: deve unir a um espírito apaixonado uma mente serena e tomar decisões dolorosas.  Nessas condições, há que se ter uma grande dose de humanidade, um grande sentido de justiça e de verdade para não cair em erros dogmático, em isolamento das massas. Todos os dias é preciso lutar para que esse amor à humanidade se transforme em factos concretos, em actos que sirvam de exemplo”.
Seu pai, engenheiro civil, orgulhava-se do jovem lutador  Ernesto, dizendo: “Nas veias do meu filho corre o sangue dos irlandeses rebeldes”. Porque a sua rebeldia não ambicionava o poder nem a vanglória oportunista. Pretendia, tão-só, a libertação dos povos oprimidos do continente americano. Por isso, o mataram. Dele bem poderia dizer o grande poeta ‘moçambicano’ Reinaldo Ferreira: “O Herói serve-se morto”!...  
Que diria hoje a sepultura do Herói: “Terá valido a pena dar a vida para galgar o poder e instaurar outra ditadura, qualquer que seja a sua cor?... Jamais”!
Tremendo aviso para os políticos arrivistas que pululam por toda a parte. Aqui também. Ganhar para acomodar-se à poltrona da ambição interesseira, nunca! Mais vale perder lutando do que viver amodorrado na almofada do ego. Mais vale morrer lutando do que viver apodrecendo no trono!

13.Out.17
Martins Júnior

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

NO CENTRO, A VIDA!

                                                              
            Dias há – e estes são os que ora vivemos – que fazem o pleno total. No hiper-painel do tríduo, desde segunda até hoje, quarta-feira, ofereceram-se aos nossos olhos e à nossa consideração fenómenos, os mais díspares e até contraditórios, que dão para pano para mil mangas e apetite para todos os paladares. Logo na ribalta, os trunfos dos craques lusos contra os ‘cheques´ suíços, as surpresas do campeonato político regional,  os badalados escândalos financeiros, os gloriosos 50 anos sobre a morte de Ernesto ‘Che’ Guevara, o terramoto independentista da Catalunha, os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, evocados no auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, com valiosíssimas prestações de índole médico-ético-jurídica que nos impressionaram vivamente.
         Nesta densa paisagem humana, optei por um outro cenário, esse único e concêntrico, onde tudo nasce e tudo acaba: a Vida, a sua génese, os saltos qualitativos, as estranhas metamorfoses e, por fim, o seu epílogo.  Tudo quanto mexe, cresce e fenece – é dentro da ‘bola mágica’ da Vida que acontece. Oh enigma da unidade e da diversidade do fenómeno existencial!... Tentar descobri-lo, penetrá-lo nos seus estonteantes meandros e constelações é tarefa ingente, só comparável à do mito de Sísifo (que inspirou a Camus um precioso ensaio filosófico e a Miguel Torga um poema de inexcedível beleza) – a  divindade grega,   condenada a transportar até  ao alto uma pesada pedra que, em lá chegando, voltava a resvalar eternamente ao sopé da montanha.
            Vêm estas considerações a propósito de um livro – uma enciclopédia, direi – lançado anteontem em Lisboa. É seu Autor o Prof. Dr. Miguel Oliveira da Silva, catedrático de Ética Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, entre outras funções, primeiro presidente eleito do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV). A obra, apresentada por José Barata Moura, Anselmo Borges e Bento Domingues, constitui uma corajosa incursão numa problemática suscitada pelos tempos de hoje, como se regista em epígrafe. Tocar na Vida exige mãos de veludo e punhos de gigante e em que o foco projector iluminante tem o nome e a dimensão da Bioética. Perante um seleccionado elenco de médicos,  juristas, teólogos, constitucionalistas consagrados e um numeroso grupo de universitários, alunos seus, o Prof. Dr. Miguel Oliveira abriu o imenso Livro da Vida com a coragem de quem não teme encontrar a verdade ético-biológica, sem preconceitos nem dogmatismos, aplicando rigorosamente o método cartesiano da dúvida em demanda da certeza que, tal como o lendário Sísifo, retorna à dúvida metódica e nos obriga a prosseguir viagem. No seu cerne, surgem a vertigem e as limitações das novas tecnologias, as responsabilidades das famílias, das escolas e dos Estados, em ordem ao fim último, “a dignidade das nossas vidas”. Foram duas horas de escaldante concentração mas de íntima satisfação global que a todos  nos mobilizaram, a partir da  Fundação Medeiros de Almeida, Lisboa.
            Impossível traduzir aqui a amplitude das suas propostas, onde a par da humildade interior do cientista avulta o ânimo transformador, positivamente  revolucionário, próprio dos bandeirantes de um mundo novo. A título exemplificativo, transcrevo:
            “Os preceitos morais não perderam, por certo, nem força nem autoridade, mas correm o risco de se subverterem perante situações concretas inesperadas que os códigos tradicionais não podiam prever. Impõe-se, portanto, a tarefa de libertar as normas fundamentais que são peremptórias dos preceitos acessórios e secundários que acidentalmente se lhe juntaram em épocas pretéritas, ao sabor de condições históricas particulares e transitórias… A Ética biomédica não pode, pois, ser reducionista nem fundamentalista, muito menos converter-se numa nova teologia da medicina com as suas velhas e novas leis canónicas e dominantes”.
              E a advertência final, eloquente, persuasiva, exigente:
          “Mas o maior mal é querer ser-se banal, é não querer assumir o seu próprio destino na dialéctica sopesada entre o bem individual e o bem comum na defesa dos mais fracos e vulneráveis, aceitar, continuar a ser-se heterónomo, a passividade perante o poder ético, político, profissional e deontológico que vem de fora”.
              Como sublinharam os apresentadores – um Livro sério, científico, obrigatório! Nós agradecemos, Prof. Miguel!

            11.Out.17
            Martins Júnior

                         

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ANATOMIA AO 9 DE OUTUBRO – DIA DO CONCELHO DE MACHICO



A onda patriótica do 5 de Outubro na capital do país alongou-se pelo mar atlântico e abraçou a baía iniciática da  capital histórica da Madeira – Machico, Terra de Tristão Vaz. Aqui se abriu o Pórtico das Descobertas do Além-Mar Português. E é hoje, 9 de Outubro, o Dia Maior oficialmente designado para alcandorar o nome, a bandeira, o Povo de Machico.   Por isso, pus na minha agenda compor um hino apoteótico àquele território onde o sol nasce primeiro  e ao qual o nosso poeta-filósofo, Francisco Álvares do Nóbrega, dedicou o soneto titulado “À Pátria do Autor”.
Dois episódios, porém, alteraram o projecto patriótico que me tinha proposto. E decidi descer à prosa dos dias e ao catálogo das efemérides. As judiciosas observações, na imprensa diária, de José de Olim, um atento analista do seu concelho, desmontaram, logo de manhã, o meu poema. E  embarquei na sua ideia de autonomizar o Dia do Concelho, dissociando-o das comemorações bicentenárias do “Senhor dos Milagres”. O segundo episódio, tão determinante como o primeiro, aconteceu na sessão solene, em que todos os oradores “obrigaram-se” a colar nos seus discursos a dupla ‘constitucional e sacramental’, enfadonha também: “Hoje, 9 de Outubro, Machico celebra o Dia do Concelho e o Dia do Senhor dos Milagres”.
A sugestão não é nova. Já a tinha equacionado aquando das minhas responsabilidades autárquicas,  lá vão quase trinta anos. Hoje, porém,  algo fez eclodir dentro de mim a imperatividade urgente da sua concretização. Chame-se-lhe adenda, emenda, correcção ou adequação. Eu chamo-lhe respeito pela terra e fidelidade à história.
Desde logo, porque esta comemoração falseia e destrói a idade e a identidade de Machico. Com efeito, o 9 de outubro, em estrito cômputo da história, não tem mais de 214 anos. Situa-se em 1803 o trágico acontecimento que deu origem à (impropriamente) chamada “Festa” do Senhor dos Milagres. Mas o nosso Machico, nobre e ancestral, tem certidão de nascimento desde 2 de Julho de 1419, portanto há quase 600 anos. Bem andou a actual Junta de Freguesia de Machico em instaurar o “2 de Julho” como o Dia da Cidade. Em abono desta tese e em contradita ao 9 de Outubro, basta pensar em certos sítios de Machico, hoje paróquias, caso paradigmático o da Ribeira Seca, que ostenta no seu frontispício a data de 1692,  ano em que o secretário-capitão da Câmara Municipal de Machico, Francisco Dias Franco, mandou construir, a expensas suas, a capela do Amparo naquela, então,  zona serrana, completando agora a provecta idade de 325 anos de história, muito anterior portanto aos 214, hoje comemorados, na sede do município. Contra factos, não há argumentos.
Outro aspecto, este de ordem psicossociológica, que tem muito a ver com a idiossincrasia da população. O garbo, o brio atávico e a emblemática capacidade, optimista e combativa, do Povo de Machico não se espelha numa comemoração trágica que, em 1803, engoliu pessoas, terras e bens, tal como sucedeu no Funchal, cujo balanço conjunto contou com mais de mil vítimas mortais, de todas as idades. Pela mesma lógica, o Dia da Cidade do Funchal seria, não o 21 de Agosto, mas igualmente o 9 de Outubro. E, adaptando a Lisboa o Dia Maior seria o 1 de Novembro, em que um tremendo terramoto arrasou, em 1755, toda a cidade.
Esbatem-se na penumbra do tempo as provas fundamentantes da opção tomada pelas entidades oficiais relativamente ao Dia do nosso Concelho. Não será despicienda, talvez, e admissível a hipótese de agregar num só feixe a memória histórica e a religiosidade popular oriunda de um fenómeno casual centrado na recolha de uma imagem no alto mar por uma galera (tinha de ser!) americana. A valer este argumento, o Funchal teria o seu Dia no 1º de Maio, de São Tiago Menor, que ‘limpou’ a lepra que então grassava na cidade.  E o Dia de Portugal, o 15 de Agosto, evocando o ‘milagre’ de Aljubarrota, em 1385, pela mão de Santa Maria da Vitória. Ou então, o 13 de Maio, pelo maior acontecimento religioso português, desde 1917.
Aqui fica, pois, o meu contributo para a valorização cultural e, sobretudo, para a verdade histórica da vetusta ’capitania’ de Machico. Compete aos historiadores (e há-os, proficientes e persistentes, no nosso concelho) investigar e trazer à luz do dia o marco identitário que exalte o brilho secular, sempre antigo e sempre novo, e mobilize a militância civilizacional que vive no subconsciente histórico das nossas gentes. Permitam-me sublinhar a saudável autonomização das duas comemorações – a civil e a religiosa - evitando promiscuidades supérfluas e até prejudiciais para as duas instituições em causa.
Isto também é amor pátrio!
Como é da praxe, termino: “À consideração superior”.

09.Out.17
Martins Júnior
    


sábado, 7 de outubro de 2017

CORTEJO DE LUZ E SOMBRAS


 
Dias estes, os primeiros de Outubro, para olhar a terra nossa – sítio, vila ou cidade – e amá-la, limpando-lhe o pó do tempo ou as rugas da face e cantando-lhe poemas de amor telúrico. A isto chamo o amor pátrio, o patriotismo total. Desde o 1º de Outubro de 2017 (para uns, glorioso e, para outros, doloroso), até ao centenário 5 de Outubro de 1910 (a primavera republicana), nenhum português deixará de viver, em grande retrospectiva, a história que é nossa. Para Machico, em particular, a noite de amanhã, 8 de Outubro, reveste-se de luz e  prenuncia a data (bem ou mal) do Dia Maior das Terras de Tristão Vaz. É o Dia do Concelho.
            A noite reveste-se de luz!  Talvez para esconjurar os fantasmas da tragédia que, em 8 de Outubro de 1803,  devastou o aconchegado vale de Machico e engoliu terras, pessoas e bens na voragem da tremenda aluvião.
É aqui que me detenho , absorto e vigilante. E daqui tento decifrar a magia dessa noite que, amanhã, fará do centro da cidade o átrio das gentes de toda a ilha. Decifrando, monologo e  dialogo com quem, como eu, também se debruça sobre o mar de luz que começa lá onde acaba o salso mar da baía a que aportaram  os marinheiros do Senhor Infante.
Desde criança, sempre me impressionou a pressurosa  azáfama de gente que se abeirava dos mercados das velas, quer o da sacristia, quer o dos vendedores ambulantes em redor do templo, não obstante a ‘maldição’ que contra eles vociferava o pároco, concorrente do mesmo ‘negócio’. E era ver o rodopio de rudes aldeões e mulheres de xaile traçado, à moda antiga, ostentando logo pela manhã, a caminho de casa, os ‘círios de altura’, as cabeças, braços, pernas, barrigas, todas de cera, embrulhadas em toalhas de linho bordado, prontas para o cortejo nocturno. Devo dizer que, na casa dos meus pais, não tenho memória de alguma vez termos participado nesses rituais.  Passados, porém, quase oitenta anos, é idêntico o cenário, ainda que noutra veste.
Esqueçam esta morosa introdução puramente descritiva para, só agora, dizer ao que venho. Tão longínqua como a minha infância, tal é a irrespondível pergunta  que continua a perseguir-me: “Que vem fazer toda esta gente ao grande cortejo do Senhor dos Milagres?”.   Da boca dos milhares de candelários romeiros, ouvir-se-ia a mesmíssima justificação que herdámos do sincretismo de todas as religiões, mesmo as pagãs: “Venho pagar uma promessa por uma graça que Deus me fez”.
Dispenso-me de dissecar aqui os conteúdos da fé dos romeiros promitentes. Porque fés há muitas. Também não perco tempo com a caixa registadora do negócio em causa. “Vai lá quem quer”. Única e exclusivamente o que me preocupa e, creiam, profundamente me angustia é  a visão redutora do Cristo Histórico, a fé minimalista, apoucada, que tal resposta condensa. Um Cristo, fazedor de graças, de favores pontuais, discriminatório, exclusivista e narcisista, “Jesus foi bom para mim”.  E pensar que por cada ‘feliz milagrado’ há centenas, milhares, talvez milhões de preteridos, abandonados, proscritos… e todos filhos do mesmo Deus! De que justiça estamos a falar?... Não se faça do Cristo Crucificado um agente do euromilhões!!! Já em Fátima o Papa Francisco advertiu os crentes de que não fizessem de Maria  “uma santinha a quem se recorre para obter favores  a baixo preço”.
O nosso Líder e Pedagogo é mais, muito mais que um eventual fornecedor de sortes e benesses. No imenso cordão luminoso, onde é que encontraremos em plena luz o Cristo corajoso, Mestre da Verdade Total, Psicólogo das multidões, Desafiador das estruturas caducas com que os magnatas da Religião, exploradores da fé do povo inculto, queimavam na cruz os construtores de uma sociedade justa, igualitária e pacífica?! Levarão os candelários de uma noite o desejo de conhecer o Cristo, na sua possível plenitude? Bem escreveu o jornalista e teólogo Juan Arias quando titulou assim o seu livro: “Cristo, esse Grande Desconhecido”.
E foi esse o maior anseio que Ele dirigiu aos Doze (e a toda a humanidade) no testamento da Oração do Getsémani: “Pai, que eles Me conheçam e saibam que Tu Me enviaste”.  
 Respeitando a fé particular de cada peregrino e de todos os participantes do interminável velório desta noite, faço dois votos. O primeiro: que o nosso Cristo não lhes repita o que disse à multidão dos felizes contemplados com a multiplicação dos pães: “Vós procurais-Me, não pelos meus sinais, mas porque comestes do pão que vos dei e ficastes saciados” (Jo.6, 26). O segundo:  Que estejam atentos à pergunta feita ao apóstolo Filipe, nestes termos: “ Há tanto tempo que ando convosco e ainda não Me conheces, Filipe” (Jo.14, 8-9).
Oxalá, o cortejo luminoso da noite se abra na alvorada do conhecimento do nosso Cristo Total!

 07.Out.17

Martins Júnior

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Em Portugal, na Ilha, na Aldeia, no Mundo SER PATRIOTA …É


é ter o corpo feito do barro
do basalto e do cheiro onde ficou a minha infância…
é sentir correr dentro de mim o rio
ribeira ou  musgo prenhe da nascente que me viu
matar a sede primeira…
é naufragar e beber o sal azul daquela baía
que me abraça e liberta a alma inteira…

saber-me parte do mastro alto da bandeira
que sustento e me sustenta
e que no meio da tormenta
Não deixarei cair ao chão…

SER PATRIOTA…

é ser verso da canção
ora vibrante aureolada
ora triste balada
esperando a madrugada
que trago na minha mão…

a concha da minha aldeia
tem o tamanho do mundo
nela me sepulto e afundo
para tocar-lhe o brilho
amá-la e erguê-la
como o tributo de um filho
à mátria sua,  velhinha e bela…

SER PATRIOTA…É

levá-la a toda a parte
e onde quer que chegue
abrir o peito e apontar  sem medo
Aqui mora  o meu país
Aqui a minha ilha
aqui o meu rochedo

05.Out.17
Martins Júnior

terça-feira, 3 de outubro de 2017

“OS EXTREMOS TOCAM-SE” – ONDE SE FALA DE EXPLOSÃO E IMPLOSÃO


Em nenhum outro plano, como no da Política, se corporiza o sábio axioma da geometria linear que deu título ao exercício que hoje apresento. “Os extremos toam-se “. Tal qual  no círculo que desenha a nossa mão, do mesmo modo no círculo político se descreve esse normativo da filosofia secular. A derrota e a vitória moram lado-a-lado, sem nos apercebermos onde começa uma e acaba a outra. O  mesmo poderia dizer-se na dicotomia amor-ódio, tristeza-alegria, amanhecer-anoitecer.
         Quando serenamente sobrevoamos a paisagem pós-eleitoral achamos divertidas, por vezes bizarras, as manifestações exteriores dos seus protagonistas, num cenário coincidindo  vencedores e vencidos: “Ganhámos! Perdemos uma câmara aqui, ganhámos outra acolá. Escapou-se-nos uma junta, mas metemos além mais um vereador, conquistámos um assento na assembleia municipal ou na assembleia de freguesia”.Nem sempre, porém, os magníficos titulares ponderam uma lição tantas vezes repetida e poucas vezes aprendida: a vitória esmagadora de hoje tem infalivelmente à sua espera  a esmagadora derrota de amanhã. Porque a gigantesca estátua da Política está assente em pés de barro.
         Pés de barro que são as contingências, os imponderáveis, as variáveis imprevistas do quotidiano, enfim, a fractura iminente do alicerce que a sustenta. De fora e, sobretudo, de dentro. Aqui, como em poucas outras  circunstâncias, toca a rebate o aviso de outras eras: “Quem ao mais alto sobe  - ao mais baixo vem cair”.
         Variáveis, disse eu, de fora, mas sobretudo de dentro. Não é a bruxa do pessimismo que me pega na mão para escrever isto. É o realismo inexorável da experiência que mo dita. Entremos nos Conselhos (Nacional, Regional, Local)  dos partidos derrotados que hoje se reúnem, desde o PSD ao PCP. Com mais ou menos cambiantes, o espectáculo é o da mais temerosa implosão ou, como é do estilo,  “a noite das facas longas”. Olhos demolhados, mortiços, atravessados; aplausos surdos, lenços brancos que, de dentro dos bolsos, acenam adeuses; demissões, abafados prantos. E pensar que a implosão de hoje foi a explosão de ontem, de há quatro e oito e doze  anos!...
          Paralelamente, os gloriosos triunfadores abraçam-se entre girândolas de palmas e risos, ruidosas ‘palavras de ordem’. E, espalhadas aos quatro ventos,  juras perdulárias  de fidelidade canina ao partido. É a explosão  no seu mais alto  clímax!... Mas um fantasma paira no salão da festa e no  palco da praça, agarrado às canas dos foguetes ou embuçado no lençol da bandeira  matriz: “Esta é a minha oportunidade. Qual o meu cadeirão, a minha pista, qual  o meu pódio?!”. E, assim, paradoxalmente, o fantasma das “facas longas” já começa a afiá-las em surdina na noite dos tambores da vitória. E o líder, vigilante na gávea da barcaça engalanada, chama à consciência  o repto da sabedoria popular: ”Quanto maior a nau, maior a tormenta”.  E mais estremece, quando lhe bate ao subconsciente o  agoiro da ameaça: “Será hoje o primeiro  passo para a implosão de amanhã”?
         Cenas contraditórias, mas reais, da tragicomédia humana, que nos fazem parar ante a portagem larga da trajectória política. Ela  tem tanto de nobre e fascinante, como tem de frágil, mórbido  e decepcionante. Porque a esmagadora vitória de hoje bem poderá ser a cama da esmagadora auto-destruição de amanhã. A história no-lo diz.
         O melhor antídoto ou a mais segura salvaguarda contra os perigos deste escorregadio plano inclinado é olhar o Povo Eleitor e ver nos votos recolhidos não um “voucher” gratuito para a “passerelle” da fama interesseira, mas uma ferramenta emprestada nas mãos dos eleitos para construírem o futuro dos seus constituintes.

         03.Out.17
         Martins Júnior