sábado, 21 de outubro de 2017

“DAR A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR”

                                                         
Porque “hoje é sábado, amanhã domingo”, passo ao largo desta vaga em que baloiça a Madeira, com programas estratégicos de governos, remodelações e autarquias, novinhas em folha. Entro, pois,  noutro ritmo programático, o da análise global sócio-ideológica daquele que veio reformular a condição humana. Teremos amanhã, nos textos bíblicos oficiais, mais um momento alto dessa análise, Trata-se da famosa resposta de J:Cristo aos “sábios do templo de Jerusalém e aos doutores” da lei judaica. Tão forte e tão densa que se tornou viral, repetida, dobrada e desdobrada tantas vezes quantos os gostos dos intérpretes.
Descontextualizada do corpo factual que lhe deu forma, a resposta converteu-se em axioma generalizado para distinguir os conteúdos funcionais, as especialidades profissionais e, ainda, a dicotomia dos serviços oficiais: os que pertencem ao mundo ou à polis e os que à religião ou ao culto dizem respeito. E aqui não faltam exímios dissecadores da questão, secessionistas escrupulosos, a puxar o monóculo e o bisturi para o corte que lhes convém.
Entretanto, prefiro “ler com olhos de ver”  a factualidade original dos acontecimentos. É tão linear, tão leve e límpida que dispensa ‘ilustradas’ e complicadas interpretações. Insere-se numa outra luta, a antítese entre o pensamento livre e transparente de J:Cristo e o emaranhado de prescrições, engenharias estrábicas dos Sumos-Sacerdotes e Fariseus, ditadas exclusivamente para encobrir e, se possível, contrariar a descoberta da Verdade inteira.
Vejamos: nos domingos anteriores, os textos evangélicos revelam a coragem do Mestre face aos deturpadores do pensamento religioso, resguardados nas sombrias e largas vestes oficiais da elite vigente. Não há paralelo na história que se assemelhe ao fogoso combate do Mestre contra a classe hipócrita de Jerusalém: “Cegos, que guiais outros cegos. Assassinos. Sepulcros que fedem a podridão” . E este anátema, sem apelo nem agravo: “Os pecadores e as prostitutas entrarão no meu reino, mas vós sereis postos fora. Porque eles arrependeram-se e vós não”!
Amanhã, começa o contra-ataque. A gana revanchista da elite organiza-se em conciliábulos secretos onde traça plano de acção. Tacticamente, com medo da contestação popular. E sai o primeiro round: testar a vertente político-fiscal do  Nazareno. Numa terra colonizada pelos romanos, os impostos eram pomo de discórdia e raiva quotidiana entre o a população contra o colonizador. A armadilha é perfeita, pidesca ao mais alto requinte: “Mestre, então, o que é que achas desta carga de impostos contra nós? Parece-te justo explorar assim o nosso pobre povo para enriquecer o exército dos Césares”?...
Espada de dois gumes, encostada ao pescoço do Mestre. O “sim” e o “não”  arrastariam a mesma condenação: uma, da parte do Imperador; outra, da parte do povo. Não esperavam, porém, os “doutores forenses” e os “papas-cardeais-bispos” de Jerusalém, a intuição repentista do nosso Cristo. “Mostrai-me essa moeda com que pagais os impostos. De quem é essa imagem cunhada na moeda”? – “De César” – “Então, se é dele, devolvei-lha”.
“Dai a César o que é de César”. Eis a origem pragmática da expressão que tem sido pretexto para as mais díspares e repuxadas interpretações. A armadilha que as elites prepararam para “caçar” o Mestre foi essa, a mesma, com que ficaram enredados e derrotados. Ainda assim, não desistiram. Como não resultou a estratégia política, voltaram a reunir o sinédrio e congeminaram uma outra, mais capciosa e fatal, a estratégia cultual-religiosa, uma questão intocável na mentalidade de então. É o que leremos no domingo seguinte.
Passados mais de dois mil anos, como é que não possível ainda entender a linearidade libertadora e saudável de Quem veio abrir o caminho novo da plena realização da Vida?!

21.Out.17
Martins Júnior