sexta-feira, 13 de outubro de 2017

“ O HERÓI SERVE-SE MORTO” – Evocação cinquentenária



Fosse esta crónica um berro histérico alçando um bota-de-elástico que marca bolas de ouro – e o vulgo néscio cairia de bruços, em espasmos de arraial bacoco… Mas não vou por aí. Hoje navego até Outubro de 1967. E curvo-me diante de um Homem, 39 anos feitos, ‘cantados’ e ensopados em sangue, algures no chão matoso da Bolívia: acabava de ser assassinado Ernesto “Che” Guevara. Para uns, um criminoso, para outros um mártir, um San Ernesto Guevara de La Higueta.  Médico, escritor, político, guerrilheiro. Sonhava um mundo livre, uma sociedade de iguais oportunidades para todos. E deu tudo quanto tinha na luta contra a ditadura cubana de Fulgêncio Baptista.  Ir mais além – era a sua meta – e libertar toda a América Latina, colocando no alto da sua bandeira a estrela de um ideal: “Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação”.
Hoje, volvidos 50 anos sobre o seu assassinato, formulo a pergunta que o diário Le Monde estampava nas suas páginas: “Que nos resta agora de Che Guevara”? Algumas publicações, muitas efígies, decalcadas do famoso retrato, da autoria do artista irlandês Jim Fritzpatrik. Dizem até os entendidos que é o segundo retrato mais difundido no mundo, a seguir ao de Jesus Cristo. Testemunhei-o eu próprio no ano de 1972, em Volta Redonda, periferia do Rio de Janeiro, quando o Bispo Duarte Calheiros me confidenciou, em jeito de desabafo: “Sabes, padre português, o governo brasileiro pôs-me um processo judicial, porque mandei colocar  em dia de Sexta-feira Santa um retábulo do Crucificado sobre o altar e eles acharam que a cabeça do Cristo era igualzinha à do “Che” Guevara”!...
Sejam quais sejam as opiniões, deixo aqui o auto-retrato de Alguém, gerado e humano como nós, publicado no seu livro “El Socialismo y el Hombre en Cuba”, onde define o seu conceito de revolucionário:
“Devo dizer, com o risco de parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade. Quiçá seja um dos grandes dramas do dirigente: deve unir a um espírito apaixonado uma mente serena e tomar decisões dolorosas.  Nessas condições, há que se ter uma grande dose de humanidade, um grande sentido de justiça e de verdade para não cair em erros dogmático, em isolamento das massas. Todos os dias é preciso lutar para que esse amor à humanidade se transforme em factos concretos, em actos que sirvam de exemplo”.
Seu pai, engenheiro civil, orgulhava-se do jovem lutador  Ernesto, dizendo: “Nas veias do meu filho corre o sangue dos irlandeses rebeldes”. Porque a sua rebeldia não ambicionava o poder nem a vanglória oportunista. Pretendia, tão-só, a libertação dos povos oprimidos do continente americano. Por isso, o mataram. Dele bem poderia dizer o grande poeta ‘moçambicano’ Reinaldo Ferreira: “O Herói serve-se morto”!...  
Que diria hoje a sepultura do Herói: “Terá valido a pena dar a vida para galgar o poder e instaurar outra ditadura, qualquer que seja a sua cor?... Jamais”!
Tremendo aviso para os políticos arrivistas que pululam por toda a parte. Aqui também. Ganhar para acomodar-se à poltrona da ambição interesseira, nunca! Mais vale perder lutando do que viver amodorrado na almofada do ego. Mais vale morrer lutando do que viver apodrecendo no trono!

13.Out.17
Martins Júnior