domingo, 29 de outubro de 2017

O MESTRE – PRESO NAS CHAMAS DA INQUISIÇÃO JUDAICA

 Vi o meu país a arder. E partilhei convosco a visão de quem sente as chamas de Pedrógão contagiando corpos e almas, tribunais e Escrituras, partidos e classes sociais. Foi anteontem, quando subi ao observatório do SENSO&CONSENSO e de onde  avistei  serenamente a paisagem circundante. As interpretações ficam ao critério de quem lê. Todas plausíveis, todas aceitáveis.
Hoje, alargo o olhar e percorro mais de dois mil anos de história e constato que, afinal, a sina existencial do ser humano é, talvez, viver entre as achas de uma fogueira interminável, porque inextinguível. E com esta verificação retomo o nexo lógico da reflexão do sábado, 21 de Outubro. Porque, hoje é Domingo.
O ar que o Cristo de Nazaré foi obrigado a respirar, durante os três anos de vida pública, estava infestado de chamas virulentas que as classes dominantes reacendiam à Sua volta, sem tréguas, umas vezes ostensivamente, outras armadilhadas sob as cinzas da hipocrisia e do oportunismo mal disfarçado. No Domingo passado, vimos o ardil capcioso com que os donos do poder civil e religioso pretendiam “caçar” o Mestre, a pretexto do pagamento de impostos aos Césares de Roma. Hoje,  a armadilha, congeminada pelos donos do capital e do direito, os fariseus, trazia todo o veneno de uma flecha em brasa, embrulhada  numa pergunta, a mais dócil e aparentemente inofensiva: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei”?
Só se entenderá o alcance desta cilada se nos situarmos no contexto sócio-ideológico da época. Aí, imperava o regime teocrático, cujo rigor dominava as instituições e as mentalidades, sobretudo, no âmbito do culto. As únicas linhas programáticas da Religião assentavam numa projecção vertical: religioso era só aquele que olhava para o Alto e fazia do culto legalista, extra-terrestre, o exclusivo passaporte para ser aceite na comunidade. Daí, as mais desumanas prescrições, por vezes cruéis e contra-natura.  Era o despotismo religioso à solta, o reino do sufoco e da escravatura para o povo.
O Cristo, pelo contrário, fixava o seu olhar menos para o Alto e mais para a terra, para o povo abandonado, carente e amordaçado pelos donos da religião. “Tudo o que fizerdes a um destes mais pequeninos é a mim mesmo que fazeis”. Abissal esta mudança de registo e de acção! Era a Religião na sua essencial dimensão horizontal. Estava, assim,  lavrada a sentença do Sinédrio e dos Juízes-Sumos Sacerdotes: “Esse homem é Belzebu, é um demónio em pessoa”. É um herege, um ateu – diríamos hoje. “Portanto, é réu em tribunal, tem de morrer”!
Este, o ambiente, o ar calcinado que se respirava então. Mas faltava a confirmação formal pela boca do próprio. Era preciso apanhá-lo em flagrante, publicamente. Daí, o ferrete da pergunta. “Qual é o primeiro mandamento da Lei”?... Novamente, o Mestre entre a espada e a parede! Não podia contradizer-se, negando a substância da sua pedagogia, o serviço ao outro é um serviço a Deus. Mas também não daria o flanco aos fariseus detractores, negando o culto ao Deus Iahveh, sob pena de blasfemo e réu no supremo tribunal.
Então veio a resposta. Ténue na voz, mas imponente, inapelável no conteúdo: “Sim, o primeiro é esse que vós dizeis: ‘Amar a Deus’. Mas o segundo é idêntico (igual) ao primeiro: Amar o Próximo”.
Permitam-me destacar neste episódio, não tanto a tese inclusa na resposta (porque essa povoa toda a mensagem) mas o seu contexto, isto é, o clima de perseguição, de intriga, de maledicência, enfim, a satânica fogueira inquisitorial, em cujas chamas  os ditadores da religião e do capital pretendiam afogar a pessoa e o ideário libertador do nosso Cristo. Razão tinha Augusto Cury para escrever esse respeitável estudo, a que deu o apropriado título: “O Homem Mais Inteligente da História”. É esta visão do Cristo Horizontal, tocante, lado-a-lado connosco – a que Ele talvez prefira – em vez do Messias Verticalizado, assumpto e extra-terrestre, objecto de preces e benesses de circunstância.
         Admitindo e respeitando outras e diversas abordagens sobre o assunto, assento a minha perspectiva nesta verificação prática, retomando o pensamento de Blaise Pascal: “Jesus estará em agonia até ao fim dos tempos”. Pois bem: este Cristo em agonia não é o Cristo das Alturas, invisível, sideral, porque a esse os novos Fariseus e Sumos Sacerdotes não incomodem nem perseguem. Até ajoelham diante do seu altar. A quem  os dominadores do mundo atiram às chamas, ferem e matam são os Cristos vivos, os que vivem a horizontalidade intrínseca da sua mensagem, os “que têm fome e sede de justiça”, os que sofrem mas não desistem, os que gemem mas cantam, os que morrem mas continuam redivivos, ressuscitados. Como o Mestre. Como tantos, gente anónima, de ontem, de hoje e de amanhã.

29.Out.17
Martins Júnior