segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A IGREJA NÃO DEIXA DORMIR?

                                                        

Águas paradas não movem moinhos, já o sabemos. Nem moinhos, nem barcos, nem velas, Muito menos os mareantes que somos todos nós. Bem vindas, pois, as rajadas de vento norte que purificam o ar e polinizam os campos e as flores.
Tomo esta alegoria para referir-me a recentes oscilações locais que têm trazido a Igreja madeirense para a ribalta da ilha. Parece que todo o bolor armazenado nas sacristias saiu à rua, pois nunca a instituição andou tanto na praça pública. ‘Virou’ moda falar da organização eclesiástica. Pela minha parte, passarei hoje ao lado da actual casuística da praxe regional  e dispensar-me-ei de ditar sentenças sobre o menu que o jornalismo local tem servido ao rancho geral da nossa tropa.
Como num duelo de contrastes, trago hoje o testemunho pessoal de uma das mais prestigiadas figuras da Igreja europeia, o Arcebispo de Paris, Mgr. Vingt-Trois, quando completou 75 anos, solicitando em carta entregue  ao Papa Francisco a resignação (demissão) nos termos e para os efeitos do Direito Canónico.. Transcrevo alguns excertos da entrevista dada ao jornal Le Figaro, do último sábado.
Bastaria uma única passagem para atestar o dinamismo jovem deste septuagenário que tem enfrentado casos muito sérios em França, entre os quais o da diocese de Lyon, envolvendo também  o bispo local, Mgr. Barbarin. Eis a palavra de ordem de Mgr. Vingt-Trois, na mensagem de despedida:
A missão dos cristãos é não deixar o mundo dormir”!
Por outras palavras, ele chamava a atenção da Igreja para  o imperativo essencial e inadiável de agitar uma sociedade inerte e amorfa,  acomodada ao reino do mais fácil, onde o oportunismo egoísta torna tudo    num pântano irrespirável, gerador de  anomalias e inimagináveis sobressaltos. Quando o jornalista Jean Marie Guénois o confronta com o papel redutor da hierarquia, responde frontalmente: “Não posso conceber uma  Igreja a duas velocidades. A Igreja do povo (LÉglise du peuple) deve aceitar as diversas modalidades de pertença... O responsável de uma comunidade não está lá para impor as suas reacções subjectivas” E formula um desejo profundo; “A minha esperança é que um dia  venhamos a ter uma Igreja suficientemente viva e saudável para acolher (abraçar) pessoas que não lhe estão necessariamente conformes”. Que fino apuramento de sensibilidade e que evangélico sentido democrático de um alto titular da hierarquia!
Ficarão, decerto, escandalizados os crentes pietistas (vulgarmente, os beatos) com esta lição de catequese esclarecida: “Por educação e pelo meu histórico de vida, não tenho tendência para atribuir a Deus os acontecimentos  que ocorrem no mundo, muito menos os maus acontecimentos. A vontade de Deus sobre  a humanidade é uma aventura que Ele entrega à sabedoria (ciência) do homem”.  E concretiza, de forma lapidar, eloquente: “A missão do cristão baptizado está em comprometer-se o mais directamente possível nessa aventura… É  ao domingo, quando sai da igreja, que tudo começa. À sua volta, esteja onde estiver”.  Extraordinário este toque de trombeta profética que,  na mesma entrevista, fá-lo alertar para o perigo da “anestesia colectiva”!
Por aqui me quedo. Será este, por enquanto, o meu contributo no meio da agitação superveniente àquele dolce far niente (há quem lhe chame marasmo) em que ‘alegremente’ temos vivido, cantando ao Senhor nesta “Ilha do Santíssimo Sacramento”! E se houver quem, perto ou longe, aguce o olhar sobre este  modesto puzzle, desvendando-lhe as semelhanças e as diferenças entre lá e cá – darei por bem empregue a transcrição apresentada.
Mais que tudo, porém, o que interessa é que o nosso despertador de todas as manhãs e de todas as horas nos pique as orelhas com o clarim do sábio hierarca Mgr. Vingt-Trois:  “A missão do cristão é não deixar que o mundo adormeça”.
A começar por cada um de nós!
13.Nov.17
Martins Júnior