sábado, 11 de novembro de 2017

“ÀS ARMAS” – QUE DOCES ARMAS!


Vi-os entrar. Primeiro, as secções. Depois, os pelotões, as companhias e, num ápice, estava ali, pujante e possante, um batalhão inteiro. Mais do que isso, juntou-se ali um Regimento. Três batalhões formaram fileiras, numa estranha e majestosa falange: os da Terra, os do Mar e os do Ar. Mais imponente e enigmático, porém, era o silêncio que atravessava todos aqueles corpos hirtos, inamovíveis como esfíngicas estátuas pairadas na noite.
Como um relâmpago furtivo, entra o estratega da ‘guerra’. E, de um gesto – e não mais – as armas ergueram-se, instintivas, altivas. Eram revérberos de luz ofuscando o espaço, espadas flamejantes prontas para o duelo. E logo logo, estala a refrega. Estampidos metálicos rasgam a paisagem, vibrantes, ameaçadores. Silvos errantes escapam-se, ao troar cavo dos canhões submarinos e até os carrilhões das catedrais tocam a rebate. A luta vê-se, não se a descreve. Ataques e sobressaltos. Avanços e recuos, chamadas e respostas, estouros e tambores. Mas, no aceso da batalha, abrem-se clareiras  que nos devolvem a paz mágica de que o mundo precisa.
É este um diário de campanha dura. Só que, por sortilégio, as armas não matam, antes ressuscitam. As espadas flamejam, mas consolam. As metralhadoras não deitam petardos mortíferos, mas são saxos, trompas e trombones. E os trompetes não fuzilam, antes enchem de luz toda planura. Enfim, não há vencidos neste duelo nocturno, Todos saem vencedores: os maestros, os compositores, os executantes, todos nós que ali estivemos, no memorável concerto que reuniu os três ramos das Forças Armadas: Exército, Marinha, Força Aérea. Nunca a nossa ilha viu tamanho areópago da ”arte dos deuses”.
Bem sei que a Música, ou seja, as Bandas Militares têm por objectivo estrutural servir as artes marciais. Tal como a instituição dos capelães militares está ali como sustentáculo e garantia de apoio às operações bélicas dos Estados soberanos. Digo-o, por testemunho  próprio, vivido e sofrido em terras moçambicanas. Aliás, as grandes marchas executadas pelas Bandas adstritas aos Estados, com especial destaque para os Hinos Nacionais, são moldadas numa mística de combate a um qualquer inimigo, seja ele qual for. Pertence à História Mundial da Música o genial compositor Richard Wagner cujas marchas avassaladoras, segundo versão dos investigadores,  foram dedicadas e habilmente exploradas pelo regime nazi.
De tudo, porém, o que se possa dizer sobre o assunto, manda a verdade aclamar, como de resto viu-se ontem na Sala de Congressos da Madeira, aclamar vibrantemente o concerto que nos foi oferecido pelo Comando Operacional da RAM. Numa altura em que se sente o planeta ameaçado de guerras endógenas e exógenas, faz bem interpretar as Forças Armadas como fonte portadora de paz, conforto e estabilidade psicossocial.
Foi bom ver “ao vivo”  que as fardas militares manejam armas mais positivas e poderosas  (que não as  G3 e os canhões sem recuo) e tornam a vida mais saudável e mais feliz. Pela minha parte, constituiu um fenómeno de catarse espiritual sintonizar-me àquele concerto. Permitam-me um desabafo: é verdade que os militares músicos apresentaram-se em traje de gala, como mandam as NEP’s. No entanto, preferia vê-los num contraste maior: envergando o “camuflado” de campanha ( o de má memória) e sobre ele a beleza e a magia de toda a instrumental. É, apenas, um gosto privativo.
Contra os semeadores de guerras, viva e permaneça por outros tantos anos tão bela iniciativa!

11.Nov.17

Martins Júnior