sábado, 25 de novembro de 2017

CHUVA EM PROSA: SEM RIMA NEM PRECE

                                  
      Venho hoje decifrar a “SERENATA À CHUVA”, que  anteontem deixei neste mesmo lugar. Porque nem sempre a linguagem elíptica do poema traduz a verdade cirúrgica, imersa na metáfora, permitam-me este regresso à chuva na prosa dos dias. Um regresso que tem cinquenta e mais anos, neste preciso 25 de Novembro.
Ao  ler em toda a imprensa portuguesa a evocação desta noite de 25 para 26 do ano de 1967 e da tragédia provocada pela tremenda aluvião que desabou sobre  Lisboa,  censurei-me a mim próprio pelo completo alheamento da catástrofe, enquanto na metrópole (assim se dizia então) centenas de vítimas eram arrastadas, afogadas, no turbilhão  das águas diluvianas. Foi há 50 anos. Estava eu e estavam milhares de homens noutras torrentes, algumas ensopadas em sangue, na guerra colonial. A nenhum de nós chegou a notícia da tragédia de Lisboa. E concluo: o poderoso sufoco da ‘Censura’ salazarista que escondia maquiavelicamente a informação – a de cá aos de lá. E a de lá aos de cá!
Estranho paradoxo! Há 50 anos, os portugueses gritavam esmagados pelo fragor das águas em catadupa. Hoje, gritam os portugueses, os campos, as barragens, os animais pela falta delas! “Vejam agora  os sábios na Escritura que segredos são estes de Natura”, exclamaria hoje o nosso épico. (V,22)

 Enquanto o cidadão mais avisado aponta o dedo também ao abuso humano da atmosfera e à passividade de entidades públicas e privadas face às alterações climatéricas, regista-se o esforço ingente de quem tenta matar a sede às populações, recorrendo ao transporte ininterrupto de água em autotanques. Enquanto  isso e após meses de extática contemplação, surge a inspiração do alto, ditada  pelo báculo cardinalício do Patriarcado de Lisboa: REZAR PELA CHUVA. Mais abaixo, no Alentejo profundo, um grupo de crentes organiza a procissão de Beja, impetrando dos céus a bênção da cobiçada chuva, maná deste tempo de seca severa. Pelos vistos, a prece de Beja parece ter sido ouvida mais depressa que a de Lisboa. Só agora é que chegaram alguns pingos das alturas e com esta bizarra contradição: os do norte (que não rezaram) tiveram direito a uma ração mais vantajosa que os do sul, pois a estes só lhes coube o suficiente para continuarem secos os campos.
Sabendo que esta minha reflexão será objecto de críticas e duros ataques, entendo usar o direito de expressão para limpar o ar que respiramos, identificando espessas nuvens de superstição e obscurantismo, ao mesmo tempo que sejam postas no seu devido assento as realidades, tanto as terrestres como as extraterrestres. Por respeito aos homens e aos deuses.
E por mais devoto que pareça, não deixa de ser um abuso chamar à querela quem nada tem a ver com ela. Além de que demonstra um perigoso exercício de inércia intelectual persistir em práticas obsoletas, porque baseadas na mais grassa ignorância científica e religiosa. Não temos o direito de considerar Deus como um ‘levadeiro’ de serviço ao domicílio, da mesma forma que outros querem tê-lo como ‘bombeiro’ na hora ou ‘artilheiro’ nas suas guerras domésticas. Era essa a concepção do povo judaico do Velho Testamento, contrária à mensagem de Cristo. Quanto à ordenação planetária e à Natureza, Deus concedeu-lhes autonomia de movimentos, outorgando ao homem este solene mandato: “Dominai a Terra” (Génesis, I,28).
Quem leu a entrevista do Cardeal Vingt-Trois, arcebispo de Paris ao jornal Le Figaro (que comentei no blog de 13/11/17) terá reconhecidamente fixado o seu pensamento: “Pela minha educação e pela minha história pessoal, não atribuo a Deus os acontecimentos do mundo. A Criação foi uma ‘aventura’ que Deus entregou à sabedoria do homem”. Nada mais sábio e clarividente! Afigura-se um grave atentado a Deus e ao homem interpretar o mundo e as suas rotações com critérios medievais, puramente empíricos, tal como os marinheiros das naus ‘viam’  nos relâmpagos o “Fogo de Santelmo”, a intervenção de São Pedro Gonçalves Telmo, padroeiro dos homens do mar. (Lus. Canto V,18). Mais grave e criminoso é iludir o povo a quem se subtraiu o direito à cultura e à informação histórica.
Até onde poderia levar-nos esta reflexão?!... Basta pensar na tragédia do Monte, em 15 de Agosto pp.. Não há aí quem tenha a coragem de interpretar os sinais dos tempos e as encruzilhadas da fé?!  É uma exigência irrenunciável impedir que se exponham ao ridículo realidades supremas, sobretudo em relação à crença religiosa. Não se chame Deus a responder onde Ele não é chamado. Haja respeito!
Sei do que falo. Experimentei-o, ao vivo. Também há cinquenta e mais anos, em 1964, no Porto Santo. Não choveu durante oito meses. Em Março, o trigo mal saía da terra, à míngua de água. Três dias e três noites fizemos peregrinação à capela de São Pedro. E ao terceiro dia, a terra ressuscitou com as chuvas copiosas caídas das nuvens. “Milagre” – diziam-me as pessoas, de braços abertos. Mas, no meu íntimo, pesava-me esta incógnita: “Será Deus tão sádico que nos obrigue a sofrer tanto e a ajoelhar rudemente  para nos socorrer?... A resposta é NÃO!
Termino esta reflexão (mas não lhe fecho o percurso) com um excerto do livro do Padre José Luís Rodrigues – “O QUE A FÉ NÃO DEVE SER”, – no capítulo “A Fé não é um guarda-chuva”, publicado em 2013:           
         “Muita da dor provocada pelas tragédias resultam da irresponsabilidade, da incúria, dos desmandos, dos abusos, da violação dos espaços e das regras das forças da natureza. Então, temos a factura que a natureza nos envia carregada com valores elevados de destruição, desolação, sofrimento e morte”.
         Perfeito!


         25,Nov.17
        Martins Júnior