quarta-feira, 15 de novembro de 2017

DESCARBONIZAR – É O QUE FAZ FALTA, JÁ!

                                                  


O mundo todo vomita CO2. Por todos os poros! E ando eu, andamos todos asfixiados, sem dar por isso, vítimas inconscientes, moribundos, por inalação tóxica e  sem corredor possível para a fuga. Multiplicam-se as cimeiras, os convénios, os acordos locais, nacionais, mundiais. E deles nada sai mais que uns tiros de pólvora seca que espantam o vulgo mas apenas servem para dissimular a inércia latente dos decisores participantes.
É o que me ocorre nesta data em que Angela Merkel, desde Bona, levanta os braços e grita que “o tempo escasseia”. E, em coro uníssono, todos os comparsas lhe repetem o refrão, acossados pelo descontrolo da atmosfera, pelas secas, pelos incêndios,  pela morbilidade crescente neste nosso planeta. Bem se cansa o Papa Francisco de repetir até à exaustão o  Laudato Si para lembrar urbi  et orbi a responsabilidade dos governantes sobre a Nossa Casa Comum.
Mas não é só da invasão do carbono atmosférico que me enfado e temo. É  outro o poluidor, mais corrosivo e imperceptível, que se injecta, a cada instante, nas nossas veias como nas nossas ideias. Ele penetra subtilmente e nós franqueamos ‘casa e coração’. Ele queima os neurónios, remexe o cérebro e faz de nós robots gratuitos ao serviço de centrais invisíveis. Canais privilegiados são os da informação que ofuscam e embrutecem sociedades inteiras, desde o berço à sepultura. Aceitamos tudo o que eles despejam para a rua, todas as  toxinas e vírus com que enxameiam os computadores das nossas mentes. E ainda pedimos mais. Não sei como é possível aceitar sem protesto horas televisivas de monovolumes quadrúpedes a rolar na estrada ou no stand oficial, só para propagandear firmas produtoras de carbono estridente. Da mesma feita, poderia citar programas de noitadas de copos e ‘vapores’, todas tiradas a papel químico, três, quatro vezes, na mesma noite. Dos futebóis e respectivos comentadores, nem é preciso falar. Vivemos numa cave saturada de fumaça e droga. Alegremente! O avejão mítico da pós-verdade e das fake news, até traz colorido ao negrume poluidor.
Pela mesma via, vêm as baforadas de incenso beatífico acerca das religiões, das igrejas, das crenças mais arcaicas. E tudo consumimos, sem ao menos exercer o legítimo direito ao livre exame e à crítica fundamentada. Mas o pior químico é o que transforma tudo em capital, moeda ou papel. Estoura-me os miolos a transacção de botas e bolas em dinheiro milionário, a instalação de lavadouros autorizados de luvas sujas e smokings pretos, como os do Panamá e agora os Paradise Papers, criminosos antros do sangue, suor e lágrimas roubados ao povo. Chegados aqui e olhando para trás, mais não somos que ridículas marionetes, títeres anões, digladiando-nos uns aos outros  no terreiro dos nossos casebres, enquanto os magnates, invisíveis porque distantes, vão-nos intoxicando nos espessos rolos de carbono saídos dos palácios-casernas de exploração e morte.
Desculpem-me o desabafo, mas hoje estou assim. Insatisfeito, revoltado, sem gosto de viver no breu de um mundo como este. E mais revoltado por ver que a massa informe e bruta em que me insiro, lá vai “cantando e rindo”, sem dar pelo ar infecto que respira.
E se ontem sentia o impulso de despertar, hoje brada mais alto o apelo-palavra de ordem: Descarbonizar, é preciso! Para recuperar frescura e optimismo.

15.Nov.17

Martins Júnior