segunda-feira, 27 de novembro de 2017

“DORES DO PARTO” – E BONS NASCIMENTOS!


“Nada de humano me é estranho”. E eu retomo o pensamento do grande Aristóteles  para pluralizá-lo (deixem passar o neologismo) traduzindo-o numa linguagem global: Nada do que é humano nos deve ser estranho.
         É nesta premissa que me apoio para apreciar a lufa-lufa das diversas formações partidárias na preparação dos respectivos Congressos e, preventivamente, na escolha dos seus líderes. Antes de mais, É de saudar esta movimentação, nalguns casos até, esta agitação das águas para não deixar estagnar a mística crepitante que deve animar toda a militância política. Desejável seria que os manuais de estratégia interna não resvalassem para os libelos fogosos das lutas externas, ou seja, que a descoberta do Melhor à cabeça do partido ultrapassasse a rasteirice, sempre censurável, da ganância do poder a qualquer preço. É neste escolho rochoso que esbarra a escolha do líder, impedindo de chegar à foz  o livre curso de critérios limpos e seguros, condição ‘sine qua non’ de uma boa opção. E, neste âmbito,  incomodam, magoam a sensibilidade do cidadão comum ver, ouvir, ler certa literatura quase deprimente (pode tirar-se  o ‘quase’) entre candidatos e respectivas hostes. Isto cá e lá, lá e acolá, em Portugal e fora dele - neste, nesse, naquele e ainda naqueloutro partidos. Pela minha parte, desisto de pousar os olhos em certos nacos de novelas de cordel político intra-partido.
         Na mesma medida também, cheira a proselitismo barato, para não dizer charlatanice de feira, acenar ao vulgo com os retalhos do lençol sebastianista, o mítico espantalho de uma estirpe privilegiada, quais arcanjos extraterrestres brandindo a espada flamejante nas trevas da noite . “Este é que é o tal, este é que vai salvar o beco, a vila, a cidade, o país, o mundo”.
        
         A este propósito, nunca é demais acautelar-nos contra as erupções alarmistas, porque nunca em tempo algum uma sociedade pode viver em constante clima de perturbação sísmica. Se em determinados – raros! – períodos tumultuosos da história é necessária a aparição de um líder anormalmente carismático, manda a experiência constatar que não deve ser esse o chão onde queremos construir a nossa casa. Aliás, os auto-cognominados homens ou mulheres de eleição laboratorialmente e bacteriologicamente virginal identificam-se logo pela sua peculiar táctica de ataque, com processos rápidos, pré-concebidos a-papel-químico, intempestivos e galopantes, como quem quer afincar em Marte a primeira bandeira!
         O eleitor atento distingue claramente a vocação governativa de um partido através dos processos visíveis da eleição do seu líder. Quando vislumbra, mesmo à distância, a instabilidade de uma liderança candidata cujo único objectivo é saltar para o pódio,  ainda que tenha de perturbar a paz evolutiva e o normal crescimento dos resultados obtidos na luta política externa, aí o eleitorado adivinha uma governação insegura e sem credibilidade. Ao contrário, porém, quando a candidatura assenta em provas dadas e êxitos políticos já alcançados, a população confia esperançosamente  nas linhas  programáticas de um futuro governo.
De “Salvadores da Pátria” – livrai-nos, Senhor. Uma boa proposta de oração, que equivale a estoutra: “Dos Tarzans espadaúdos, caídos do céu  – Credo, Abrenuntio”. Porque já os conhecemos pelo seu histórico horrendo, desde Hitler a Estaline, de Salazar a Franco, de Piongiang a Trump. Foram considerados os maiores, os salvadores. Salvador carismático foi também Cavaco Silva, no famoso Congresso de Aveiro. E viu-se o ‘lucro’ para o país.. Eu sei que esses espécimens não deitaram grão nos nossos poios,  mas mutatis mutandis já conhecemos alguns sósias nesta ilha, como no longínquo Zimbabué, que governaram ambos durante uma ‘eternidade’ de 38 anos, cada qual  no seu Reino.
Felizmente que essa raça está em vias de extinção. Mas, para isso, é urgente que os partidos marchem na vanguarda desta nobre campanha: escolham as respectivas lideranças por critérios ponderosos, inclusivos, expurgados de interesses de mercearia ou oficina de tachos efémeros  (como são os da política, todos a-prazo) mas sim  de olhos postos no amanhã das comunidades. Ganhar não é tudo. Consolidar, precisa-se.
E isso só se consegue com conhecimento e competência. Que são os dois pilares da  credibilidade, tanto a do líder como, sobretudo, do eleitorado. Deixo, pois, estas legítimas impressões a todos os partidos, da Região ou do Continente. Eles também lá andam com as dores do parto.  Digo “legítimas” impressões, porque saídas de quem viu e sentiu o “espectáculo  ao vivo”, ao longo de muitos anos.  E também porque interessa-me acompanhar e, se possível, influir positivamente nestes processos, dado que é dos líderes eleitos que sairão os potenciais governantes da minha  Ilha e do meu País. E isto interessa,  deve interessar a todos os que ganharam responsavelmente o seu estatuto de cidadania.
Boa sorte a todos. Porque também será essa a nossa sorte!
         27.Nov.17

         Martins Júnior