quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

JÁ NÃO HÁ GENTE DESSA!

                                      

Foi o contraste dos dias que me fez mudar de direcção no alinhamento destes momentos de diálogo implícito, ao cair da noite.
Assistimos todos e assistiu todo o mundo, estupefacto e tragicamente expectante, perante um mastodonte humanóide vomitando, de olhos vendados, barris de pólvora  sobre o tão retalhado e esmagado Oriente: “Vou mudar a Embaixada dos EUA, de Telavive para Jerusalém”.  O planeta estremeceu de espanto e horror na visão do inferno feito de labaredas de sangue e ossadas que julgávamos socialmente extintas. Impantes de orgulho sádico, só os judeus de Nova York, magnatas da finança americana.
Do outro lado do hemisfério, uma voz se ergueu. Foi a primeira a rasgar os ares da manhã de ontem para protestar, com a autoridade ético-política que lhe assiste, contra tamanha e selvática maldição. Veio de Roma e foi a voz de Francisco Papa que, intrepidamente, reafirmou a tríplice dimensão da “Cidade Santa” de Jerusalém, onde o Nazareno foi assassinado, de braços abertos, para significar a comum universalidade etno-político-religiosa dos humanos, representados nas três credos:  judeus,  cristãos e  muçulmanos. Assim falou Francisco, preocupado e angustiado, acentuando: ”Não me posso calar”. Que testemunho de coragem e autenticidade, tão diferente de outros titulares de uma Igreja, tantas vezes cobarde e colaboracionista!
Nem de propósito! Neste dia 7 de Dezembro, evoca-se a memória de um grande líder religioso, do século IV, d.C.. Ambrósio, de seu nome, era arcebispo da, já então famosa, cidade de  Milão. Era o tempo em que, após o decreto imperial de Constantino Magno, os cristãos ganharam liberdade de culto. Os Imperadores Romanos passaram de perseguidores a protectores da Igreja e tinham assento privilegiado nas basílicas recém-construídas. Ao tempo de Ambrósio, era soberano o Imperador Teodósio, assíduo frequentador da catedral de Milão.
 Algo aconteceu que veio alterar esta mútua cordialidade entre os dois. Teodósio mandou invadir e saquear uma pobre população de 7.000 habitantes de Tessalónica. Ambrósio ficou tão indignado que, no domingo seguinte, quando o Imperador Teodósio e sua comitiva se preparavam para entrar, como de costume, na catedral, o arcebispo correu à porta do templo e, ostensivamente barrou-lhe a passagem. Mais: obrigou-o a penitenciar-se perante a população e sentenciou-o a caminhar durante meses sobre as montanhas geladas dos Alpes, como condição prévia para poder reentrar na catedral de Milão. Eminente lição, que ficou impressa na história, em homenagem à Paz, contra os promotores das guerras! Imortalizou-a o pintor seiscentista Antoon van Dyck.
                                                  

Titulei este nosso encontro de uma forma, talvez demasiado impressiva, repetindo  um ditado popular: “JÁ NÃO HÁ GENTE DESSA”. É que, compulsando as páginas de outrora, deparamo-nos com uma Igreja colaboracionista, ‘edificantemente’ calada, perante atrocidades de governos opressores de populações indefesas. Não vou mais longe: recordo as guerras coloniais, em que a Igreja oferecia os seus serviços e até obrigava os padres a integrar-se nos batalhões do exército, promovendo-os a capelães militares. Mais perto, porém,  não esqueço uma Igreja diocesana madeirense que, conluiada com o governo, consentiu que  um efectivo de 70 polícias ocupasse um pobre templo (foi na Ribeira Seca, em 1985) durante 18 dias e 18 noites.
Hoje, porém, emendo o título. Faço-o, perante a atitude de Francisco Papa face à loucura irresponsável de Trump. E já não é a primeira vez. O facto de o ter recebido no Vaticano, em visita protocolar, não o  impediu de censurar o comportamento ditatorial do presidente americano, nestes termos: “Trump não é cristão”.
Ambrósio e Francisco: separados por 17 séculos de distância temporal, estão juntos no mesmo tronco evangélico – firmes e corajosos: “Felizes os que têm fome e sede de justiça… Felizes os obreiros da Paz”. (Mt.22,37-40)  
         Afinal, AINDA HÁ GENTE DESSA !!!

         07.Dez.17

Martins Júnior