terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A RESSACA – ou – A DEPRESSÃO ‘POST-PARTUM’

      

         Finou-se o Natal e o calendário deu à luz o Ano Novo.Com o primeiro, lá se foram os folguedos das missas do parto, do galo, a consoada do peru e os mascarados e os cantares misturados de carne ‘de vinha d’alhos’. Com o segundo estrebucharam as balonas exclusivas da baía e derreteram-se, fantasiosas, em cataratas de sonhos e hemorragias de luz.
         Falam os manuais da especialidade de casos em que as parturientes, passado algum tempo após darem à luz, caem num labirinto de abandono e masoquismo autista, a que chamam ‘depressão post-partum’. Noutros registos, os que se seguem a situações de excessos, a esse estado de prostração o linguajar comum dá-lhe outra conotação: a ‘ressaca’.  Não se sabe – nem registam as Escrituras - se a jovem donzela de Nazaré, também parturiente aos 16/17 anos, terá pago tal tributo à maternidade. Mas o que já parece verosímil e até evidente nas peles descaídas dos transeuntes é a ressaca do Natal e Ano Novo. Basta olhar para o semblante abúlico daqueles que na euforia da ‘noite mais longa’ espumavam cristalinos votos de Feliz Ano Novo, agora já nada têm para dizer, falta-lhes assunto e, quando se cruzam na rua, esboçam apenas um cheiro a bolas de naftalina guardadas no baú.
         Paradoxo brutal! Há oito dias, todo o mundo cabia numa taça de champagne e todas as estrelas brilhavam nas doze passas da nossa mão aberta. Mas depois… Depois foi o ‘cair na real’, o prosaico trabalho (ou a falta dele) de cada manhã, as carências diárias, as maleitas, os centros de saúde, os hospitais, os ‘sem-abrigo’ pelas ruas, os migrantes angustiados. E, ainda, as lides domésticas, os filhos, a corrida às aulas, as convergentes divergências dentro das quatro paredes da casa. Tudo junto: o novo, afinal, é velho e a fumaça de há dois minutos transformou-se na manta de retalhos “déjá vue’ do ano anterior.
         É assim a ressaca dos que foram levados pelo narcótico rasteiro das comemorações, onde o álcool é rei e a anestesia  rainha. Mas para aqueles que mergulharam na essência do Natal, o apelo redivivo dos caminhos por desbravar, a epopeia sempre inacabada de um mundo em construção – para esses não há amianto depressivo no corpo e a ressaca é uma onda gigante que lhes transporta a alma  para novos voos.
         É aqui que queremos ficar. Porque não estamos deprimidos nem ressacados com a prosa dos dias de Janeiro/18. Pelo contrário, vamos fazer da prosa um poema quotidiano, cujo mote será o mesmo que fizemos há um ano, em Janeiro de 2017: “Não perguntes o que é que o Ano Novo poderá fazer por ti. Pergunta o que é que tu podes fazer pelo Ano Novo”. Para que ele seja sempre novo.
Porque Ano Novo é sempre e quando  nós – tu e eu – quisermos!

         09.Jan.18

         Martins Júnior