sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

PEDAÇOS DE UMA ATRIBULADA VIAGEM AO CHILE

                                                   

Esta é mais uma das três igrejas incendiadas durante a visita do Papa Francisco ao Chile. Aproveito o registo fotográfico para continuar a  reflexão do último escrito e a que dei o título “Quando o protestar significa apoiar”. Junto, pois, este macabro episódio ao veemente protesto dos cristãos daquele país contra o silêncio conivente das hierarquias eclesiásticas face aos crimes de pedofilia na Igreja, perpetrados por bispos e padres. Aí afirmei que o protesto da multidão, tendo embora como  pano de fundo a passagem do Papa, não tinha por alvo a sua pessoa, mas a instituição que dirige, tendo em conta que ele, mais que ninguém, tem condenado até à exaustação tais crimes. Na veemência desse protesto o Papa viu um incentivo à sua luta contra os “corvos negros” que povoam o Vaticano.
O mesmo se passa com as igrejas incendiadas naquela região, outrora catequizada por missionários oriundos de Espanha – a Espanha dos “Reis Católicos, Fernando e Isabel”. Os bárbaros atentados contra três templos católicos ultrapassam a mera provocação circunstancial a Jorge Bergoglio, cuja personalidade moral e humanista é altamente reconhecida por todos os credos. O cerne da questão pretende atingir, denunciar e condenar uma Igreja que, aliada aos processos de colonização dos indígenas de África, Ásia e América, criou antros de exploração desses povos, sugando-lhes riquezas do solo e subsolo e cravando-lhes na pele o ferrete da mais desumana escravatura. E, ainda por cima,  toda essa caterva de criminosos sobas bafejada com a bênção aguada da Santa Madre Igreja Romana!
Trago hoje esta reflexão como toque de alerta para todos os que têm responsabilidade (e temo-la todos nós, parcialmente) sobre o tecido social ou cultural a que pertencemos. “Tudo se paga” – dizia a protagonista, a “Velha Senhora”, da peça de Francis Durrematt. As guerras anti-coloniais, os ódios raciais, as trágicas pègadas de tempos imemoriais aí estão para demonstrá-lo! Não é impunemente que se agride um povo ou se lhe causa algum dano. Cedo ou tarde – filhos, netos, bisnetos – pagarão a factura do dano. Ainda que os ‘pagantes’ sejam inocentes. Como este Papa que carrega, sem culpa,  o ónus de uma instituição que vem de longe. Daí, a sua dor e a sua indignação, as quais se traduzem para nós num forte estímulo  de honra e auto-vigilância no posto que ocupamos, seja ele um templo, uma cátedra ou um simples agregado familiar.
A História não esquece e a Natureza não perdoa!

19.Jan.18
Martins Júnior