quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

COMO SERIA O REGIME DE UM ESTADO VATICANO?

                                                         

Não teria nada de anormal nem mesmo digno de especial  menção, se não fosse um jornal de craveira internacional – Die Welt – a encher a primeira página  e a toda a largura com uma ilustração da visita de Erdogan, o ditador turco,  ao Papa Francisco. Não vou tecer apreciações pontuais sobre a recepção – mais uma – que o Sumo Pontífice dispensa a qualquer soberano que o visita. Neste caso, talvez e apenas relevaria o cinismo profissional de homens, como Erdogan e Trump, que fizeram votos “sinceros” de trabalhar (foi o que um e outro disseram ao Papa)  juntamente com ele para a paz no mundo. No entanto, Francisco não se coibiu de censurar a Erdogan o recente ataque feito aos curdos do norte da Síria. Este, por sua vez, como raposa matreira, agradeceu a posição  tomada pelo Papa contra Trump, a propósito de Jerusalém, capital.
Quantos sapos vivos, dinossauros e trogloditas tem o Papa de engolir?!
É o seu estatuto que o obriga. Noblesse oblige!  É a nobreza, a do mundo e não a do Nazareno, que o força a sentar à mesa do gabinete muitos que ele desejaria pô-los na rua. Não só das ruas de Roma, mas dos poderosos palácios que ocupam. Não fosse ele Chefe de Estado e veríamos quantos “colegas soberanos” viriam visitá-lo. Oh diplomacia, a quanto obrigas!
Hoje, porém, ao olhar a  primazia dada pela reportagem do Die Welt, reacendeu-se-me uma antiga e teimosa questão, ciosamente guardada no meu subconsciente latente activo: Que regime seria o do Vaticano, caso assumisse integralmente o estatuto com que se apresenta aos reis e monarcas do planeta? Como seria a Constituição do Estado do Vaticano?... Monarquia, absoluta ou constitucional?... República?... Presidencialista, semi-presidencialista, parlamentar?... E o regime: socialista, social-democrata, plebiscitário, totalitário e fascista, capitalista, revolucionário, comunista?... Não seria blasfemo se fosse esta última a ideologia político-programática, idêntica à do seu líder. “Os cristãos tinham tudo em comum e ninguém chamava seu ao que possuía”.   E em termos de Saúde, Segurança Social, Trabalho, Justiça, que normativos concretos determinariam o seu Estado, o do Vaticano.
Porque é de um Estado que se trata. Por muito que se diga que as viagens do Papa não são de um Chefe de Estado, mas de um Peregrino, não haja dúvidas que as visitas dos governantes a Roma não são de Peregrinos, mas exclusivamente de Chefes de Estado a um Chefe de Estado, algumas vezes até de carácter retributivo, como foi o caso de Erdogan. Visitas inter pares.
.Fico-me hoje e mais uma vez pelas perguntas, embora se possam lobrigar algumas respostas, entre as quais: Enquanto regime político, o Vaticano aproxima-se do modelo islâmico – um regime teocrático, sem o Ayotollah  Khomeini, mas (em termos formais) com um seu sósia.  Como tal, elitista, tendencialmente totalitário, onde os seus constituintes, os cristãos, não têm direito a voto universal e directo. A Igreja-Vaticano é um Estado, tem Secretários de Estado, embaixadores, bandeira e hino. A Igreja fica-se entre águas, como sereia marinha, metade Estado-metade Santidade. Mas a Igreja intervém. Na vida social, cultural e até política. É aqui que cabe a questão: Qual a política do Vaticano para a sociedade, para a comunidade europeia, para esta aldeia global que habitamos?
O Papa Francisco abre o caminho desassombradamente para a denúncia e solução dos grandes dramas internacionais. Quanto desejaria eu saber como seria um governo – um Estado – de Igreja para o mundo. Sei que não passa de uma miragem, de má recepção para muitos, mas se o Vaticano quer continuar estatutariamente como Estado, então leve até ao fim as consequências do sua investidura. Ou, ao menos, informe o mundo como governaria os cidadãos dos seus respectivos territórios. É que a Igreja já foi pobre e solidária, já foi imperialista, já foi totalitária, fascista e assassina (de perseguida passou a perseguidora) já foi popular, já foi dogmática. A Igreja-Estado já se vestiu de todos figurinos e de todos os poderes. Defina-se. Ou então renuncie ao indigno privilégio de Estado híbrido.

07.Fev.18

Martins Júnior