domingo, 25 de março de 2018

PALMAS E BÊNÇÃOS AO PODER POPULAR !



         Deixem-me começar com um desabafo, fruto de uma constatação factual, colhida neste domingo: são falsas e contraditórias todas as comemorações dos grandes acontecimentos da história! Por outras palavras, as imitações destroem a realidade. Mesmo aquelas que se reclamam de patrióticas, encomiásticas, exaltantes a mais não poder – todas vêm deformadas, caricaturadas, ridículas. Porque os interesses dos seus promotores são outros, que não os originais. Porque deturpam, amputam e apoucam a sua pureza inicial, tudo cortado, acrescentado, talhado à medida dos ‘generosos’ promotores.
         Está neste caso o dia de hoje – Domingo de Palmas. Quando vejo nas reportagens televisivas os rituais, tão faustosos quão anémicos, que se realizam mundo fora, não resisto à indignação e, de imediato, ao sarcasmo que  me sacodem interiormente. Só por ver a manipulação pseudo-mística, quase esotérica, em que envolvem, escondendo-o, um acontecimento concreto, vívido e espontâneo.
         O que se passou então em Jerusalém? A maior manifestação do poder do Povo – um Povo que ali acorreu das aldeias e províncias vizinhas, na sua maioria camponeses e pastores nómadas, um Povo frágil de meios, cujas armas reduziam-se apenas a ramos de palmeiras e oliveiras, cerrando fileiras ao lado do seu Líder contra os barões dos hierarcas do Templo que já tinham pronto até ao pormenor o plano de assassiná-lO. O Povo apercebeu-se que os magnatas religiosos tinham consigo o beneplácito secreto do poder político. Portanto, aquela manifestação concreta e autêntica desafiava simultaneamente os donos da Religião oficial e os emissários políticos do Império.
         Mas a multidão avançou e fez tremer a cidade. Como que prenunciando o canto emblemático que mobilizaria os portugueses no século XX, ali o grande rio que inundou a capital judaica ressumava o histórico pregão: “Hoje, o Povo é quem mais ordena”. Que cenário esse, pujante de verdade, realismo e encantamento! Vinham de suas casas, com o traje do cote, cortavam ramos verdes, estendiam as capas pelo chão à passagem do Mestre. Sem ninguém a presidir e sem espectadores de bancada, mas todos participantes. Medos, para quê? Calculismos, rua! Liberdade em acção! Um por todos e todos por Um! E o grito espontâneo, palavras de ordem ditas, cantadas a plenos pulmões! “Bendito o que vem… Este é aquele que nos salva e liberta”!
         Ao presenciar o exibicionismo de certos cortejos, as alfaias tecidas a ouro, os capuzes episcopais nas ditas cabeças, quais peças de museu arcaico, depois os pingos de água benta nos ramos – como se a bênção dos homens fosse mais  poderosa que a bênção primeira do Deus Criador – outra constatação não nos acode senão a de que todos estes rituais estão desajustados, adulterados, manipulados para ostentação dos tais magnatas da velha e caduca Jerusalém.
         Quem apoia a personalidade e o poder do Povo? Quem o levanta? Quem escuta a sua voz, a sua angústia e, nalguns casos, a sua justa revolta?... E quem apela à sua mobilização? Quem levanta o grito libertador?... Hoje, felizmente uma voz  retumbou em todo o planeta. Foi a palavra de ordem do Papa Francisco, neste Dia da Juventude: “Jovens, Gritai”!
         Hoje é o dia em que o próprio Jesus de Nazaré apoiou, integrou e abençoou o verdadeiro Poder Popular. Se não fosse o Povo que rompeu, corajosos, para o centro da cidade, Ele teria sido assassinado naquela hora.
A partir do Domingo de Ramos, merecem aplausos e estão sublimadas,  divinizadas todas as manifestações da história humana em prol das Causas Justas, como as mais recentes nos EUA contra as armas. Como contra a violência doméstica. Contra a fome. Pelo salário justo, pela saúde, pela vida. Porque essas são as Causas do Nazareno, sempre vivo!
Palmas maiores ao “Domingo de Palmas”!
25.Mar.18
Martins Júnior