terça-feira, 27 de março de 2018

QUANTO PESA A RELIGIÃO NO MUNDO ?


                                                            

         Cá vamos nós no doce embalo da Semana Maior do ano, aconchegados ao colo da  Mãe-Igreja, seja a romana, a luterana, a americana dos “Últimos Dias” e todas aquelas que se mostram no híper das crenças que crescem por esse mundo fora. É suposto que, por via delas, se respire em toda a parte o cheiro a lilases de paz e a rosas de amor.
         Mas não é assim tão linear e automática a atmosfera do planeta, mesmo na sacra semana de cada ano. Porque sob o húmus pacífico das religiões, acotovelam-se  ciúmes e ciladas, armas e bagagens. Por mais absurdo que isso nos pareça. Jerusalém, por exemplo - esta semana  cúpula e altar do mundo -  já conheceu  contendas e massacres sangrentos, paradoxalmente coincidentes com as históricas e mais sagradas efemérides.
        Que oráculo profético ou mítica pitonisa poderão decifrar este enigma?
        Na recta final do Festival Literário do Funchal, há pouco realizado, posicionaram-se as três religiões mais poderosas da era actual: a católica, a judaica e a muçulmana, representadas respectivamente  por Frei Bento Domingues, Esther Mucznik e David Munir, sendo moderador o jornalista João Céu e Silva.  Por mais ecuménicas que fossem as suas juras de diálogo, afrontava-me a vista e estampava-me os tímpanos este tríptico inultrapassável: a guerra sem tréguas dos judeus contra os povos confinantes, acompanhadas de pragas como esta: Ó Deus Iahveh,  abençoa  aqueles que pegarem nas crianças dos nossos inimigos e as despedaçarem contra  os rochedos. (Salmo 135). No segundo quadro, via eu a hipocrisia e o furor das Cruzadas da ‘Terra Santa’, para já não falar da rapariga de Orleães condenada à fogueira pelos bispos franceses. E, por fim, estremeciam-me os gritos  Alá é Grande”, regados com sangue de inocentes. Todas “guerras santas”! Verdade que, no palco do Teatro Baltazar Dias, os três líderes religiosos teceram os maiores elogios à nova aurora que envolve as religiões, tendo por supremo arco-da-aliança a figura do Papa Francisco. Foi Bento Domingues quem proficientemente explanou esta causa. 
         Lembrei-me, então, da eloquente máxima do maior teólogo vivo Hans Kung, equiparada à proclamação insistentemente desenvolvida por outro teólogo de primeira água, o Prof. Anselmo Borges: Não haverá paz entre as nações, enquanto não houver paz entre as religiões.(respectivamente, Religiões do mundo e Religião e Diálogo Inter-religioso).
         Religiões e Nações: estranha relação esta de causa e efeito, de antecedente e consequente. Onde coincidem as duas? Em que cartório notarial se consorciam? Ou em que cama ou sofá se entregam e procriam?... Importante encontrar resposta, porque a Nação, enquanto poder político, não sobrevive sem a Religião, poder paralelo. Sempre foi assim, em todos os reinos do mundo. E Luís Vaz de Camões definiu-o, sem apelo nem agravo, ao priorizar a religião na aventura ou no assalto dos Descobrimentos: Dilatar a Fé e o Império.(Canto I,2).
Sem mais prolegómenos, entendo que na economia dos impérios a Religião só pesa se tiver poder. Aos chefes das nações só interessa o poder fáctico, ainda que embalsamado de incenso, que uma Igreja detém no todo nacional. E se, ao poder efectivo, unir o capital, então aí está entronizado o regime híbrido, “nó de víboras”, em que, como a luva na mão, o soberano político enlaça-se ao soberano religioso, por mais obscena que seja essa união de facto, desde que sirva sempre o mais forte contra o mais fraco. Abramos a história de ontem e de hoje e em cada capítulo lá encontraremos “a marca industrial”  da firma Igreja-Estado. Brada aos céus e rasga a consciência colectiva ver como certos mercenários da Religião tão impunemente a prostituem! Já, no século V, o grande Santo Agostinho, bispo de Hipona, censurava a Igreja de então, chamando-lhe Casta meretrix – “casta prostituta”.
Daí, a ridícula competição entre igrejas e religiões. Confesso o quanto me confrange e diverte, ao mesmo tempo, esse cardápio rádio-televisivo em que aparece a sombra do locutor: “Agora é a voz desta religião, depois a voz daquela e ainda, a seguir, a prédica  daqueloutra “. Só me soa aos ouvidos o tempo de antena dos partidos em vésperas de eleições. Enfim, “o povo gosta”… O problema não está na diversidade de ideias, mas na venda do produto ganhador de falsas hegemonias.
Na Semana Maior ( e aqui perfilo-me em sentido) impõe-se-me uma questão de vida ou de morte: “Quem quer seguir as pisadas do Mestre?... Fique já sabendo que o consórcio empresarial Igreja-Estado lhe reserva não um trono, mas um patíbulo”. Entretanto, encontrará o indizível Cântico da Paz: Os verdadeiros adoradores do Meu Pai são aqueles que o adoram em Espírito e Verdade. (Jo.4,23).

27.Mar.18
Martins Júnior