sexta-feira, 23 de março de 2018

“REQUIEM” PELO ‘SUDÃO’ E APOTEOSE DA NATUREZA !


                                                  
Quem diria que num monstro disforme da selva iria eu encontrar a beleza de um poema e o mistério genesíaco da vida e morte do Universo! Porque era meu impulso primeiro escrever a mais emotiva e profunda apoteose da Natureza, quando me trouxeram a notícia: “Morreu no Quénia o último rinoceronte branco-do-norte macho, de nome ‘Sudão’ (país onde nasceu) e, com ele, morreu toda a sua subespécie”.  Tinha 45 anos e estava guardado sob escolta, ao abrigo dos caçadores furtivos. “Era o embaixador dos rinocerontes e um alerta vivo contra os predadores de outra subespécie de rinocerontes. Era gentil e nunca revelou sinal algum de agressividade”. A notícia mais informa: estão no planeta há 26 milhões de anos e em meados do séc.XIX eram cerca de um milhão em África. Quando ‘Sudão’ nasceu, em 1973, a população da sua subespécie cifrava-se nos 700 indivíduos. E anteontem caía a bomba letal: “Nunca mais no mundo haverá outro rinoceronte branco do norte”. Razão: porque ‘Sudão’ não deixou nenhum herdeiro-macho, apenas duas ‘filhas’ – Najin, de 28 anos e Fatu, de 17.
Requiem, a finados dobrados, por uma ‘tragédia’, a que poucos humanos dão cuidado!
Oh, o turbilhão de incógnitas e vulcões ancestrais que o gigante caído no chão me atravessa nestes dias! Desde o regresso aos primórdios da Criação e à Origem das Espécies” de Charles Darwin, até à evolução da vida e à sua extinção, todo o mistério da existência, como epifenómeno orgânico de todo o ser vivo – e, daí, de todo o composto psicossomático que nos define – tudo isso perpassa diante de mim, E então, a toada fúnebre do Requiem explode num Cântico de Alvoroço à Natureza.
O poder e a força da Natura!...    
O homem, a ciência, os robots, os foguetões e os satélites, a inteligência artificial -  onde páram e onde se escondem? Não poderão eles substituir-se ao velho ‘Sudão’ e  fabricar o esperma do rinoceronte branco e injectá-lo nas duas fêmeas que lhe foram oferecidas nas paisagens do Quénia? Oh, a fragilidade do Homo Sapiens e a omnipotência da Mãe Natureza! Apraz-me repetir o nosso épico: “ Vejam os sábios na Escritura que segredos são estes da Natura” (Canto V, 16-25). Penetrando no mais íntimo desta aventurosa viagem, faltaria perguntar se alguma força divina ou mensageiro supra-lunar seriam capazes de fazer o milagre da ressurreição da subespécie ‘Sudão’?...
Nem os humanos nem os sobrehumanos, nem os terrestres nem os celestes têm  procuração bastante da Natureza para reerguer um só exemplar dos milhões e biliões de rinocerontes que foram donos do planeta!
Vou mais adiante e sigo as pisadas de Stephen Hawcking (o genial astrofísico que recentemente nos deixou) e perco-me na nebulosa onde ‘dormia’ o portentoso bosão, sémen primeiro de toda a evolução do universo. E acredito agora no monumental Jardim Zoológico Terrestre, povoado de míticas espécies, desde os dragões aos dinossauros, que a voragem dos tempos e a mão assassina do homem estrangularam para sempre!
Faço uma pausa e não prossigo mais,  talvez por falta de coragem de confrontar-me com outras e mais agitadas incógnitas a que o tema conduz. Deixem-me glosar o mote desta noite, com este desafio: E se, um dia, ao homem branco, europeu, asiático, africano, americano, acontecesse o que sucedeu ao rinoceronte sudanês?... Com os atentados à ecologia, a saturação da terra explorada, as armas químicas, as guerras nucleares, até quando estará por aqui o “rei da criação”? Até quando o homem deixar-se-á sobreviver?...
Oh monstro pré-histórico, pacífico adamastor da selva, mesmo tombado no chão, ainda nos mandas, impotente e gentil, recados de mestre e mensagens eternas! Saibamos acolhê-las.

23.Mar.18
Martins Júnior