terça-feira, 3 de abril de 2018

DIA ÍMPAR - O 4 DE ABRIL !





Manda a sucessão numérica dos dias – e assim marca o calendário – que hoje, dia 3, se lhe atribua a designação de ímpar.  Mas a vida é mais que o calendário. E é nessa onda que navego para anunciar que não é hoje o Grande Dia Ímpar da primavera nascente de Abril. É amanhã. Porque quem determina o vértice da história não é a rotativa do planeta.. São as pessoas.
Assim como não é o trono que faz o rei nem é o altar que cria os deuses (há muitos e poderosos reis sem trono e há deuses maiores sem ara) assim também os heróis construtores de “novos mundos” não têm tempo nem lugar marcados nos estádios pré-fabricados pelos humanos burocratas. Eles surgem onde menos se os espera. Quem os guia é o Espírito Universal que, ao passar  à sua porta, logo eles se lhe abrem de par em par.
Pois o dia 4 de Abril é o primeiro Dia Ímpar desta primavera. Porque nele confluem três acontecimentos gigantes: a morte de Martin Luther King, em Memphis, EUA, há precisamente 50 anos, 1968; a Revolta da Madeira, em 1931: e o recente adeus ao intrépido sindicalista e promotor da classe trabalhadora, entre as populações de Machico, Manuel Mendonça Viveiros. Tão distantes uns dos outros no tempo e no espaço, mas todos irmanados no mesmo Espírito Libertador!
Luther King, o sonhador da igualdade racial, enquanto fonte originária dos mesmos direitos e oportunidades entre negros e brancos! Não obstante as mais de 30 prisões a que foi sujeito, as tentativas  de bomba em sua própria casa e na rua, os insultos, as desilusões, Luther King nunca deixou de denunciar publicamente: “Como pode a América chamar-se de ‘democracia esclarecida’, quando se vêem os Negros sem acesso ao ensino e sem poder comprar seja o que for”?  Homem talentoso, orador eloquente, estratega e pedagogo das multidões, foi o próprio semanário Time que, em 18 de Fevereiro de 1957, exaltava o seu génio criativo, afirmando que “a batalha por um lugar igual para brancos e negros no mesmo autocarro, King soube transformá-la numa guerra contra todo o sistema de segregação racial”. Factor impressivo das suas mensagens públicas foram os textos evangélicos: onde outros iam buscar argumentos de subjugação e escravatura, ele encontrava sementes de “revolução pacifista”. O assassinato em Memphis no dia 4 de Abril de 1968 foi o troféu que logrou alcançar. Mas o sonho ficou como inspiração e garante de futura realidade.
O mesmo ideal democrático alimentou o general Adalberto Sousa Dias e seus camaradas de armas, deportados em grande parte na Madeira, às ordens de Oliveira Salazar. Foi em 4 de Abril de 1931. Tal como Luther King, o sonho dos revoltosos consistia em barrar o caminho da ditadura que dava então os primeiros e já galopantes passos em Portugal. Repor a democracia ameaçada em todo o país era o seu programa político e não, como décadas mais tarde, se aproveitaram os pseudo-autonomistas, herdeiros do fascismo nacional, deposto na revolução de Abril, que abusivamente chamavam os oficiais de 1931 como precursores de uma Autonomia musculada e falsa, controlada e manietada pelo novo ditador reinante pós-Revolução dos Cravos. Tal como Luther King, que soube canalizar a luta dos negros por um tratamento igualitário nos transportes públicos, assim os corajosos militares tentaram transformar em luta democrática a revolta popular contra o monopólio da farinha, publicado nessa data. A Revolução foi abafada, assassinada pelo regime salazarista. O degredo, as prisões, a desgraça social e financeira arrasaram os seus heróis e respectivas famílias.
Em 4 de Abril de 2018, sétimo dia da partida definitiva de Manuel Mendonça Viveiros, 89 anos plenos,  motorista de profissão e homem do Povo, nascido da ruralidade mais profunda da área de Machico, deixou no chão do campo e da cidade a marca indelével dos seus passos esclarecidos e decididos na história local. Afrontou a já citada falsa autonomia da Madeira, lutou pela verdadeira Autonomia do Povo, no poder autárquico, no processo económico-social e cultural das suas gentes, com particular acento no combate ao “leonino contrato de colonia” que oprimiu durante séculos o campesinato madeirense. Inapagável a oposição porfiada, mas pacífica, ao conluio Diocese-Governo quando foi sitiada e devassada por 70 polícias a igreja da Ribeira Seca, em 1985. De assinalar, enquanto sindicalista exemplar,  a defesa da classe dos motoristas da SAM, o que lhe acarretou dissabores e retaliações de vária espécie. Honra e louvor à sua obra!
Três coerentes obreiros de um “mundo novo” – três almas gémeas, embora separadas no tempo e no espaço, mas tocadas pelo mesmo Espírito! São estes que tornam verdadeiramente  Ímpar o Dia 4 de Abril! Por isso, dedicamos-lhes – a todos eles! - a mesma eloquente e emotiva  mensagem musical que acompanhou, à saída do templo, o cortejo, a um tempo fúnebre e triunfal, do inesquecível companheiro de estrada, Manuel Mendonça Viveiros:
                   Grândola, vila morena…
                   O Povo é quem mais ordena”
E a canção de Machico, cuja vivência serviu de inspiração:
                   Ó Terra Nova, raiz de um mundo novo
                   Gente de luta mas formosa e gentil
                   Tu serás sempre a voz do nosso Povo
                   Machico sempre – sempre Terra de Abril!
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03,Abr.18
Martins J+unior