terça-feira, 29 de maio de 2018

110-115: ENTRE A EMIR E A MORGUE


                                                       

Mais parecia o Jamor em final da Taça : ora marco eu, ora marcas tu, até ver quem levantava o “caneco”. E foi pela tangente: 115-110. Como se a vida e a morte dependessem de uma quina de paus…, nalguns casos, paus mandados!
Em vez da arquitectura virtual ensaiada nos “salões dourados” do Parlamento, vou descer ao chão da vida, sentar-me à beira da cama dos doentes terminais e escutar os vagidos lancinantes de quem quer partir consciente e lúcido, com a serena convicção de deixar em paz e conforto aqueles que amou. Já o fiz no penúltimo texto, evocando o sorriso de Monique, 84 anos, antes de embarcar para a Suiça e, dali, para a viagem sem retorno.
Hoje, acompanho Hélène, uma jovem mãe, de 29 anos, atacada pela doença de Charcot que a vai paralisando de dia para dia, com o prognóstico médico de que o desfecho seria a morte por insuficiência respiratória incurável. Não vou morrer afogada, jamais – jura perante si mesma.  E porque em França lhe é vedada essa opção em nome da ética, decide rumar até à Bélgica, depois de enfrentar os moralistas opositores: Quem sofre sou eu, é  o meu corpo. E ainda vêm dizer-me: ‘Sofre até ao fim, é mais ético’.  Mas eu respondo-lhes: Não, não vejo aí onde está a ética.
         A reportagem do jornalista Moustapha Kessous reflecte o conteúdo do corajoso documentário francês, no canal 5, a que os autores Aude Rouaux e Marie Garreau deram  o eloquente título: Fim de vida, o último exílio. Desconheço se os deputados que votaram “contra” a eutanásia tiveram a sensação do que significa viver amarrado aos ferros em brasa de um exílio forçado. Parece que não, pelo menos a avaliar pelo arraial de palmas e ‘foguetório’ pré-fabricado para a ‘festa’… Ter-se-ão visto ao espelho, em jeito de memória futura, que um dia, uns e outros, estarão eles exilados não só do Parlamento mas da própria vida numa enxerga de hospital?!
         É aqui que me apraz reviver Gilbert Cesbron, no seu romance histórico – Les Saints vont en enfer, “Os Santos (os padres-operários) vão para o inferno (das minas) – em que um pobre mineiro, roído dos pulmões e da miséria da mulher e filhos, prostra-se em oração no fundo subterrâneo e exclama exausto: Irmão Cristo, não aguento mais. Quero ir contigo. E, como o Nazareno no alto do Calvário, por sua conta  “entregou definitivamente  o espírito”.
         Escrevi acima e titulei esta reflexão como um percurso “Entre a Emir e a Morgue” para significar que este tema não é para ser gritado nem brandido com espadas-argumentos numa arena de gladiadores, mas, bem ao contrário, deve ser vivido, sentido e decidido no supremo interesse do “exilado”.
Sê-lo-á sempre, enquanto houver um vivente mortal sobre a terra.

29.Mai.18
Martins Júnior