domingo, 27 de maio de 2018

A QUEM ENTREGUEI A MINHA LIBERDADE? – ou – QUEM DECIDE POR MIM


                                                                    

               Quão inoportuna é essa ideia! No meio de tanto sucesso domingueiro, vitórias desportivas, apoteoses partidárias - apanhar pela frente com Aquela frase batida: hoje é o primeiro dia do resto da tua vida, especiosa criação de Sérgio Godinho! Não parece de bom tom.
         Mas é a realidade inelutável, inexorável e, no fundo, a maior, a mais líquida e transparente radiografia de cada vivente. Para cúmulo da ironia, precisamente na próxima terça-feira, a Suprema Tribuna da Nação vai botar palavra e lei sobre o caso, isto é, sobre a Eutanásia. Sim ou Não? Ou Nim?
         Escuso-me de debater hoje os ingredientes desta receita-proposta (há quatro sobre a mesa), ou seja, deixo para outro dia o argumentário pró e contra, ficando-me apenas (este ‘apenas’ é tudo!) pela análise das leis. E chego à conclusão, de resto já antiga, de que a lei escrita é uma ficção, uma abstracção da realidade, porque não radica no existencial concrteo, pelo contrário, é um híper-produto fabricado por um aglomerado de gente, a que dão o pomposo nome de legisladores, vulgarmente conhecidos por deputados. Aqueles corpos e aquelas almas – um por um – vão empacotar dentro de si o pensamento, pró ou contra, de milhões de pessoas. Certamente passarão a noite em claro a meditar, outros nem isso talvez, porque o partido e o chefe pensam por eles, trocarão alguns dedos de conversa entre si e, na hora fatal, levantar-se-ão da poltrona, accionarão o botão de Bush (quando mandou abrir fogo no Iraque) e, num clic mágico ou trágico, darão à luz um produto a que o Presidente do Parlamento chamará lei – Está aprovado (ou reprovado( por unanimidade (ou maioria simples) – a que coercivamente estarão sujeitos todos os portugueses. Para o efeito, pergunta-se: consultaram os destinatários directos dessas leis? Estiveram à cabeceira dos doentes ? Ouviram os seus gemidos e pedidos? Ou, de outra forma, investigaram qual o superior interesse do doente terminal?
         E assim aparecerá, com todo o aparato do protocolo,  no Jornal da República uma pura abstracção, um trauma adquirido, um puro devaneio, quem sabe?... E chama-se a isto votar em consciência, escolher em liberdade. Mas aí, intercepto a marcha dos deputados-gladiadores em plena arena parlamentar e pergunto a cada um deles: “Mas afinal, passei-te alguma procuração para isto? Desde quando te entreguei a minha consciência ou a minha liberdade de escolha? Informaste-me, algum dia, de que constava isto no teu programa eleitoral?
         Estas questões abissais e estas perguntas pesadas como rochedos sinto-as com maior lucidez  no meu subconsciente, precisamente porque já vesti a pele e o peso de deputado. E se hoje estivesses nessa função e fosse obrigado a votar, em consciência e liberdade, em nome de outros, francamente sentir-me-ia impotente, susceptível até  de ser arguido em processo de “abuso de confiança”, por servir-me de uma procuração de poderes gerais para representar milhões de pessoas em processo que postulava poderes especiais, sem que ao menos tivesse informado os meus constituintes, os eleitores, sobre uma matéria desconhecida.
         Tudo quanto trago escrito acima  é extensivo a todas as hipóteses de opção, quer sejam a favor ou contra. Acompanho, neste item, a filosofia daquelas formações partidárias, que põem causa o processo legislativo que culminará na votação da próxima terça-feira, na Assembleia da República.
         Porque o tema é tão premente quanto apaixonante, voltaremos a dialogar no Senso&Consenso sobre a matéria de facto, isto é, a argumentação que eventualmente sustenta a problemática da Eutanásia.

         27.Mai.18
Martins Júnior