sexta-feira, 25 de maio de 2018

COMO ACEITAR A NOSSA PARTIDA: SORRINDO OU CHORANDO?


                                                        

Que falta de gosto, dirá toda a gente! E que mau agoiro deixar para um fim de semana essa cena de vermos uma pessoa – de  vermo-nos a nós próprios! – numa cama, já de malas aviadas para a última e, por isso, para a Grande Viagem.
Posso afiançar-vos que não é por qualquer tendência mórbida nem pessimismo de circunstância que o faço, mas por exigência de oportunidade que envolve e compromete todos os portugueses: é que na próxima terça-feira a Assembleia da República votará a legalidade ou ilegalidade da eutanásia. Até lá, quem quiser acompanhar-me e debater tão magna questão poderá sentar-se à mesma mesa, em cada um dos próximos  três “dias impares”. Porque não entreguei nem nunca entregarei a um inquilino do Parlamento plenos poderes de representação nesta matéria.
Por feliz coincidência, caiu-me nas mãos uma reportagem do jornal Le Monde, testemunho arrepiante e comovente, que passarei a descrever, sem mais comentários, por hoje.
Trata-se de um documentário televisivo, cujo sugestivo título – “Fim de vida, o último exílio” – acrescenta: “Quando a morte torna-se uma opção”. Conta a história de uma octogenária, Monique, vítima de vários AVC´s. mas de “sorriso radioso” numa festa de despedida, rodeada de  familiares e amigos, brindando efusivamente à amizade e à vida. Era a sua despedida. No dia seguinte, partiria para Zurique, Suiça, onde se entregaria à morte assistida. Em França, a lei não lha permitia.
Monique, 84 anos, explica-se, fraca e abertamente, aos familiares e amigos:
 Sinto-me totalmente toda bloqueada. Tornei-me completamente parva, imbecil, inútil. Já não possa fazer mais nada…
No entanto, tem fé em Deus. E quando se confronta a si mesma sobre se haverá algo depois da morte, ela própria responde:
Eu penso que algo tem de haver. Forçosamente! Sem isso, não faria sentido nenhum esta passagem pela terra. Ou então Deus seria um tolo, um louco!
A reportagem acompanha-a “até ao último momento em que ela tomará um copo de água misturada com um poderoso barbitúrico”, enquanto uma voz suave, a da assistente médica, explica mais uma vez:
Já não há mais hipótese de regresso, Monique. Cairá num sono profundo e em poucos minutos perderá a consciência. Desejo-lhe, Monique, uma boa viagem.
Neste documentário, o jornalista de Le Monde esclarece que o objectivo é recomendar ao legislador francês que altere o seu ordenamento jurídico de modo a possibilitar aos doentes em grande sofrimento a hipótese de escolher a sua forma de morrer. Aliás, a Comissão Consultiva Nacional conta apresentar até Junho um relatório-debate que servirá de base à revisão das leis da Bioética, agendada para o próximo outono.
  Continuaremos, em próximos capítulos, esta viagem à geografia da Última Viagem. No entanto, é surpreendente verificar que na decisão de Monique não há desespero, revolta ou sombra de demência. Muito pelo contrário. Há serenidade, paz, até confiança em Deus. É contrastante e avassalador que Monique, 84 anos, veja na sua morte a Festa da Vida.
À consideração superior.
E à nossa também.

25.Mai18
Martins Júnior