quarta-feira, 23 de maio de 2018

“NÃO DESAPARECEMOS COMPLETAMENTE”


                                                     
                         
Na portagem da ponte movediça dos três dias colados - segunda, terça e quarta – poderia içar-se, glorioso e esbelto, o arco do triunfo destas três personalidades com o título alargado que dissesse assim: “O TRÍPTICO DOS IMORREDOIROS”.  António Arnaud, 82 anos. Philip Roth, 85 anos. Júlio Pomar, 92 anos.
E, no topo mais alto, Eduardo Lourenço, 95 anos, feitos hoje mesmo!
Digo no topo mais alto, porque, precisamente Eduardo Lourenço, o mais idoso, vem iluminar e transfigurar o tríptico daqueles três heróis que “da lei da morte se libertaram”. Os que foram a sepultar não estão menos vivos que o autor do LABITINTO DA SAUDADE.
Acabo de ver o documentário televisivo com este mesmo título, que Miguel Gonçalves Mendes realizou e definiu neste  expressivo comentário: “Eduardo Lourenço filmado a passear na sua própria cabeça”. Nele me inspiro para tecer silenciosa homenagem ao criador do Serviço Nacional de Saúde, ao laureado escritor americano e ao velho-sempre-jovem mago das cores.
Silenciosa homenagem! Porque não me comovem nem me entusiasmam os elogios fúnebres, “orações de sapiência” e teatrais exéquias. Aliás, parafraseando Fernando Pessoa – Todas as Cartas de Amor são ridículas – acho extemporâneos e, por isso mesmo, ridículos, todos os rituais espectaculares, discursos encomiásticos, entoados em cima da tumba mortuária. Prostro-me, infinitamente agradecido, diante das suas cinzas, mas  mantenho que a maior homenagem deveria ter sido outra: apoiar claramente, em vida,  a sua luta, partilhar os seus sofrimentos e embates sob o regime das ditaduras, enfim, alistar-me no seu pelotão de justiça igualitária em prol da comunidade. É dessa homenagem que eles precisaram, enquanto construtores de m Mundo Melhor!
Que ficará aqui – se algo vai  ficar – quando partirmos definitivamente de férias?...
A pergunta que o barman-arquitecto Siza Vieira, no documentário citado, formula a Eduardo Lourenço ilustra bem a dimensão da verdadeira homenagem a ser prestada. E é o próprio Siza que antecipa a resposta: Para mim, a única coisa em que penso às vezes é que há uma continuidade de vida e quando algum de nós morre há filhos, netos, músicos, arte, escrita, literatura…Não desaparecemos completamente. O mundo continua, A História tem esse papel de sugerir ou fazer real uma continuidade.
Responder à vossa chamada e pegar no facho olímpico que transportastes em vida – eis a nossa homenagem. Daqui a mil anos Vós ainda estareis aqui… pela força e pelo estímulo que Vós, TRÍPTICO IMORREDOIRO,  transmitistes aos que cá estiverem!

23.Mai.18
Martins Júnior