segunda-feira, 11 de junho de 2018

E JÁ COMEÇA O BATUQUE TUGA-ILHÉU…




         Ainda batem nas pedras da rua e nos tímpanos dos portugueses de aquém e além-mar os tambores, as trompas e trompetes das marchas apoteóticas do Dia da Pátria. Os discursos, os poemas, que é que contam perante o colossal instrumental que os ares atroa? Não há tempo nem eco do seu rasto. O importante é o estrondo, a embriaguez do sopro galopante.
         Olhei o mapa, li o calendário e em jeito de premonição imediata concluí que foi dada a batuta iniciática para o grande batuque itinerante que atravessará os mais de 500 dias que vão desde agora até aos finais de 2019. Vai haver farra e fanfarra. Feiras e feirantes a granel, todos armados de megafones, megaeventos, hiperdecibéis, megadebates de cordel.  Em todos os palcos, ribombará a palavra de ordem: “Façam barulho”!!!
Pela aragem da carruagem, está visto que pouco restará para pensar. Vem aí o rolar da rolha do foot-rei na Rússia, as cabeças dos portugas  aos milhões a rolar no relvado, a alma toda verde-rubra  metida dentro do “caneco” mundial. Vêm a seguir as festas, os santos populares, os concertos, os superrock-superbock’s e outra vez os campeonatos, mais os natais, as missas-do-parto, os foguetes do pobre-são-silvestre e ainda logo à porta a primavera e, em cima dela, os comboios descendentes entrando pelas casas e casebres, sempre a abrir e a zunir “Vota, Vota”, quanto mais ruidoso melhor!
Quem nos dá um momento ou um recanto para pensar e decidir?
Parece que daqui em diante, o que havia a dizer e a propor com seriedade e critério terminou o seu tempo. O que vai lavar e durar são as colunas gigantes, as rotativas diárias gemendo ou urrando conforme a renda que lhes derem, câmeras e ecrãs, idem, idem, aspas, aspas. Quão difícil será manter-se imune à frenética  praga dos vírus que aí vêm!
Para caracterizar a voragem sem freio que se adivinha, puxo para a cena a fala de D. Miguel, governador do reino, eloquentemente desenhada por Sttau Monteiro, na peça Felizmente há Luar:
“E agora, meus senhores, vamos ao trabalho. Há que provocar o ardor patriótico. Há que pôr os frades, por esse país fora, a bradar dos púlpitos… Há que procurar em cada regimento um oficial que se preste a dizer aos soldados que a Pátria se encontra ameaçada pelos inimigos de dentro. Há que fazer tocar os tambores pelas ruas… Os estados emotivos dependem da música que se tem no ouvido… É necessário que as bandas não parem de tocar. Quero os sinos da aldeia a tocar a rebate, os tambores em fanfarra, os frades aos gritos nos púlpitos, uma bandeira na mão de cada aldeão.  Quero o país inteiro a cantar em coro. Portugueses, a hora não é para contemplações”!
Para ironia dos tempos e vergonha nossa, será este o batuque no continente e nas ilhas (por isso lhe chamo batuque tuga-ilhéu) ao qual tentarão amarrar as orelhas e as mãos dos eleitores. Perante o confuso estridor das torres de Babel que já assestaram frechas para os próximos tempos, constituirá um feito notável e duradouro ganhar a sensatez e a coragem de José Régio para, ao menos, reflectir e dizer: “Sei que não vou por aí”!
11.Jun.18
Martins Júnior