sexta-feira, 23 de novembro de 2018

ONDE NÃO ESTÁ EÇA NO PORTUGAL DE HOJE E NA MADEIRA DE AGORA?


                                                                      

         Baptizei hoje a minha mensagem com a charada, em título de capa, de uma conhecida revista portuguesa que há uns meses teve a ousadia de atirá-la  para o inquilino dos jardins de Belém. Assim pergunto eu: Onde não está Eça de Queirós? Razão directa: os últimos dias de Novembro estão cheios do autor d’Os Maias: em 25 (1845) é o seu nascimento e em 30 ( 1888) passam 130 anos sobre a publicação do seu melhor romance.
         O que trago para estes dias poderosamente “ímpares” não é o elogio do prodigioso polígrafo – com apenas 55 anos de idade, deixou-nos uma incomensurável produção literária – mas o sortilégio da sua presença viva no mundo actual, mais concretamente em Portugal e na Madeira. E o que mais impressiona nesta ‘descoberta´ é, de um lado, a versatilidade das diversas fases da história e, dentro dela, a imutabilidade dos comportamentos humanos. Se em Gil Vicente deparamo-nos com a galeria das várias tipologias comportamentais na viragem de século (XV-XVI), outrossim verificamos em Eça na transição do século XIX para o século XX.
         Tudo quanto relatam os historiadores dessa época nós o encontramos nas imorredouras páginas d’Os Maias. Lembro-me aqui de Almeida Garrett e do velho aio Telmo Pais, do Frei Luis de Sousa, quando confirmavam  que Camões, com um só olho, via mais que os restantes mortais. Pois, podemos também afirmar que o monóculo de Eça, muito mais que potentes telescópios, abarcava o passado, o presente e o futuro da condição humana, a sua psicologia, as reacções sociológicas e o ridículo das suas atitudes. Ontem como hoje e hoje como ontem.
         Não acham por aí o negreiro Monforte, explorador sereno e frio do comércio de escravos?... Basta percorrer os banqueiros (negreiros hodiernos) resguardados numa sombria clandestinidade! E o Palma Cavalão, de pena fácil, não os vemos em redacções de certos jornais, virados, despudoradamente subservientes ao poder e ao capital organizado? E o tal Dâmaso Salcede, sósia do anterior, preguiçoso, calculista, camaleão invertebrado que babuja e rebola conforme a onda do poder?!...Então ainda ninguém se cruzou com o intelectual João da Ega, o diletante escritor das sempre prometidas e nunca iniciadas Memórias de um Átomo. Eles aí andam e pavoneiam-se, impantes, enfatuados, com canudos sem curso, como doutores ministros sem pasta?!...
Não obstante a ocasional vigilância do escrutínio popular sobre as bancadas parlamentares e a subsequente acção governativa, ainda hoje persistem focos de insalubridade político-social, magistralmente  descritos no hipódromo, do capítulo X, onde  o verniz e a hipocrisia não conseguem tapar a corrupção e a vilania das sofisticadas classes burguesas. E quanto à doentia religiosidade da mulher de Afonso da Maia, em que é que ela difere das intermináveis procissões, novenas e incensos da maior parte dos nossos templos?!...
Quanto a Carlos da Maia e à  relação incestuosa com Maria Eduarda, escandalosamente reiterada, apesar do conhecimento dos factos, aí já se revela a aceitação do absurdo, a impotência de agir, o  laissez faire, laisser passer, na administração pública, nos tribunais, nos negócios, nos desportos e até na religião. Felizmente, observa-se com simpatia a presença de uma Oposição  que deve permanecer sempre vigilante e lúcida para não permitir os mesmos abusos, os mesmos incestos e compadrios de outros tempos.
Serve o presente texto de sugestão para quem sentir o bom senso e o bom gosto de ver desfilar a polícroma galeria humana que nos doou Eça de Queirós. Porque ler Os Maias, 130 anos depois, é ver o filme, a novela e, nalguns casos, a choldra da hora que nos coube viver, seja a nível internacional, nacional ou regional. Vale a pena refazer a trama e reescrever com figuras e factos de hoje a saga real em que somos actores e espectadores, sem talvez darmos por isso. Como bem observou José Rentes de Carvalho, “Eça põe-nos em frente de um espelho desagradavelmente fiel”. Mas – acrescento eu – com outro dinamismo e outra combatividade que não tiveram João da Ega  e Carlos da Maia, os românticos vencidos da vida.

 23.Nov.18
Martins Júnior                                                                                                                                                                                                                                                s