quinta-feira, 29 de novembro de 2018

TODA A NOITE AGUARDANDO A MANHÃ


Mais que homenagem - recordando e acompanhando Francisco Álvares de Nóbrega, “O Nosso Camões” (1773-1806)


Não te levanto trono nem ara
Não te coroo a fronte do louro dos poetas
Hoje
Sentado no penedo desta noite rara
Espero aquela “hora atenuada”
Em que viste “a primeira luz do sol sereno
Em pobre sim mas paternal morada”

Seguir-te-ei os passos pela estrada
Da Banda d’Além ao Cais do Desembarcadouro
Que ainda guarda a tua infância
No chão pedrado que transformaste em ouro

Contigo rumo ao monte funchalense
Parnaso da Ilha varanda capital
De onde largaste a brisa e o vendaval
De rimas glosas sátiras éclogas canções
Com que douraste o céu cinzento
Do Funchal

Ver-te no alto das torres do poético festim
Foi como ver o sol de Abril futuro
Nascer dentro de mim
Mas depressa se fez noite de breu
Quando outro Torres de satânico solidéu
Te sufocou te agrilhoou e sepultou
No antro vil do sacro Aljube
Onde o velho Satã devora a juventude

Na mesma cela do crime e do ultraje
Curto contigo a mágoa o desespero
De ver em ferros o justo o inocente

Connosco está Barbosa du Bocage
Vate Sadino o combatente
Elmano teu e nosso Talismã
Da Liberdade que chega
No primeira colina da manhã

Foi o mais ledo e o mais amargo
De todos os avatares
Vimos fugir o Torres o déspota mitrado
E vimos logo surgir Luis Rodrigues Vilares
O Arcanjo Libertador
Que nos quebrou as grades do pérfido Aljube

Mas tarde chegou a manhã da Liberdade
Contigo subi a ladeira da rua estreita
De São João Nepomuceno
Deitei-te na enxerga como se ajeita
Um sem-abrigo justo sereno

Por tuas mãos
Já mortiças mutiladas
Do tormento e não da idade
Fechaste as cortinas da vida
E abriste as janelas
Da perdida Liberdade

Partiste lá longe
E eu fiquei
À beira-rio de Machico
Por isso toda a noite
Aqui fico
Olhando aquela janela
Para entregar-te a manhã
Serena e livre
Que tanto sonhaste
E nunca alcançaste

29.Nov.18
Martins Júnior