sábado, 23 de abril de 2016

Este é o segundo retábulo de todos os “Abris”: “DURANTE” AS REVOLUÇÕES


           

Abril já mexe e fervilha no concelho extremo-leste da ilha. SENSO&CONSENSO junta-se a este palpitar da terra, que desce do alto da montanha até ao mar e, depois de ter apresentado  o “ANTES” –  as causas estruturais e as circunstâncias conjunturais oferece, hoje, o segundo retábulo do tríptico dos muitos “abris” que se viveram em Portugal, isto é, as metamorfoses que daí advieram para o país e que eu designo pelo advérbio “DURANTE”.
Para quem leu a crónica anterior,  retomo como ponto de partida a revolução de 1383-1385. Com as lutas  sangrentas  entre os partidários do rei português, D. Fernando, e os nobres serventuários da rainha pró-castelhana, D. Leonor Teles (lembremo-nos que o povo amotinado atirou o bispo D. Martinho desde o alto da torre até cair morto no Terreiro da Sé de Lisboa) seguiu-se depois uma paz benfazeja, prodigiosamente criativa, liderada pela “Ínclita Geração, Altos Infantes” (entre os quais o “Navegador Infante de Sagres”) que depois de aportar a Machico e passar a Madeira - "Que do muito arvoredo assim se chama" -  levaram Portugal até às Áfricas e às Índias,  trazendo de lá tesouros exóticos, riquezas sem conto, as quais fizeram do porto de Lisboa o maior entreposto comercial da Europa  na época Quinhentista. A segura governação política  da chamada “Segunda Dinastia” abriu “novos mundos ao mundo”, avolumou a economia do país, dinamizou a cultura  e fez desabrochar uma plêiade gloriosa de escritores e poetas, citando por todos o maior Génio Português, Luís Vaz de Camões. É caso para dizer que valeu a pena a luta do Mestre de Avis e de Nuno Álvares Pereira, mesmo que o Mar Salgado viesse a transformar-se no sorvedoiro das “lágrimas de Portugal”!
Da mesma forma, valeu a pena a revolta do “1º de Dezembro de 1640”, descontando aí o furor dos portugueses que atiraram pela janela do palácio real o traidor Miguel das Vasconcelos ao serviço do regime filipino, porque dessa luta porfiada restituiu-se a independência a Portugal e novo fulgor brilhou no horizonte lusíada com D. João IV, “O Restaurador”. A saga da descoberta do Brasil e o faustoso esplendor da época “joanina” do “Magnânimo D. João V” granjearam a Portugal prestígio universal através da majestosa embaixada enviada ao Papa, considerado na altura o árbitro da política internacional, destacando-se então os sucessos diplomáticos do “Príncipe da Língua Portuguesa”, como chamou  Fernando Pessoa ao eloquente e genial Padre António Vieira. As influência culturais do estrangeiro fizeram caminho em Portugal, magnificamente expressas na literatura e  em monumentais obras de arquitectura barroca, umas faraónicas, como o Convento de Mafra, outras  de inegável interesse público, como o Aqueduto das Águas Livres. Não fora o patriotismo e o arrojo dos homens de 1640, Portugal continuaria mais uma periférica colónia de Espanha. Bem hajam!
Chegados à Monarquia Constitucional de 1822, para cujo êxito foi necessária a luta fratricida entre dois irmãos, D. Pedro e D. Miguel, os portugueses chegaram aos alvores da República de 1910. Aí, as convulsões político-partidárias despedaçaram o país: governos houve que não chegaram a  durar mais que trinta dias”… É uma fase tumultuosa e explosiva a construção da I República, que só veio a conhecer acalmia nos finais da década de 20 do século passado. Foi então que Portugal voltou a recuperar a dignidade perdida perante a cena internacional. O factor mais enobrecido destas lutas consistiu na abolição dos privilégios das hereditárias famílias monárquicas, passando os representantes do Povo a determinar os líderes da Nação, não em razão da automática sucessão do “sangue azul”, mas pelo veredicto das classes eleitoras. Apesar de todas as vicissitudes, que não cabem, nem de longe, neste apontamento, valeu a pena derrubar um poder mítico, soberanamente altaneiro, em alguns casos alheio às condições em que viviam os seus súbditos. Abriu-se um caminho novo em que o Povo passou a constituir-se soberano da “coisa pública”, que é o que etimologicamente significa República ou Res Pública. A Monarquia Constitucional teve como inflorescência a Constituição Republicana. “Viva a República” – assim gritaram os revolucionários do alto da varanda da Câmara de Lisboa, em 5 de Outubro de 1910.
Por tudo o significam na História do Povo Português nunca deverão extinguir-se o “1º de Dezembro” e o “5 de Outubro”!
Uma conclusão e uma pergunta:
A conclusão é que todas estas datas mais não são que outras tantas faces do “25 de Abril”, cada uma na sua época. E são inevitáveis. Mais, são necessárias. Constituem fenómenos tão naturais como o botão que se abre em flor, como a flor que desentranha o fruto, como a crisálida que se rompe para deixar voar a borboleta e, por fim, como uma mãe que sofre as dores do parto para dar ao mundo a promessa de um filho anunciado!
A pergunta: Então, por qual razão foi preciso, de tempos a tempos, repetir a Revolução?... É o que veremos em crónica futura quando os meus amigos e amigas abrirem a porta à visita do SENSO&CONSENSO, onde explanarei o terceiro retábulo do tríptico que terá por título o “DEPOIS”.

23.Abr,16
Martins Júnior



quinta-feira, 21 de abril de 2016

Breve Tríptico experimental de todos os “Abris” ANTES – DURANTE – DEPOIS


Dos três dias ímpares que anunciam “Abril em Portugal” – esse o único Dia Ímpar para a nossa geração – extrairei a tese, a antítese e a síntese, inerentes ao processo histórico-científico de todos os Abris, de todas as revoluções que fizeram guinar a agulha magnética dos destinos de cada país: do nosso e de todos os outros. Dedicarei, pois, os dias 21, 23 e 25 a esta análise, tentando demonstrar a inevitabilidade das revoluções perante as mesmas causas no terreno e, de permeio, podermos enfrentar com serenidade e firmeza as tempestades cíclicas da História. Sei que é longa a caminhada, pelo que procurarei torná-la mais curta e acessível.
As transformações de um país, em todos os tempos, seguem o ritmo dos grandes rios: nascem nas águas jacentes da terra e desaguam no mar azul de um futuro maior, Sucintamente, abrirei as páginas da nossa História, onde podemos monitorizar o  Antes – chamemos o “caldo” circunstancial - que estremeceu as estruturas de Portugal, em 1383-1385, mais tarde em 1640 até alcançarmos 1910. A esta luz que vem de longe veremos mais de perto a lógica do “25 de Abril de 1974”.
É um dado insofismável que o movimento pendular das civilizações oscila entre três apoios fundamentais: a economia, a política e a cultura, São (volto a repetir) o “caldo” perfeito que sustenta ou abala uma sociedade e o seu povo. Quanto mais aguda for a sua simbiose, mais incisiva será a infecção do organismo social, originando a ablação do vírus perturbador.
Na Revolução de 1383-1385, a vacilante condução política do reinado de  D. Fernando – “Um fraco rei faz fraca a gente forte”, bem o disse Camões – debilitou irremediavelmente todos os sectores económicos da nação, manietada pelos interesses da nobreza castelhana, personificada no Conde de Andeiro. Para ilustrar as míseras condições de pobreza entre a “arraia miúda”, diz o cronista coevo, Fernão Lopes, e testemunha ocular dos acontecimentos: “Na cidade não havia trigo para vender e se o havia, era mui pouco e tão caro que as pobres gentes nem podiam chegar a ele … começaram de comer do pão de baga de azeitona e dos queijos de malvas e raízes de ervas … Desfalecia o leite àquelas que tinham crianças a seus peitos por míngua de mantimentos e, vendo ‘lazerar’ seus filhos a que acorrer não podiam, choravam amiúde a morte sobre eles antes que os a morte privasse da vida”…
Acresce a influência das instituições culturais, então consignadas à Igreja. Era o tempo da privilegiada aliança Igreja-Estado. E o Bispo, que tomou partido pelos de Castela, foi publicamente assassinado pelo povo de Lisboa.
A mesma conjuntura repete-se, quase em decalque da anterior, aquando da  Restauração da Independência após a crise de 1580, culminando com a libertação do domínio dos “Filipes” em 1 de Dezembro de 1640. Portugal era então uma colónia de Madrid, de onde o Rei dispunha a seu bel-talante, com total indiferença pelo povo português. O testamento de D. João IV atesta-o, à evidência, quando este justifica a aceitação do trono “não por qualquer respeito à minha pessoa, senão por livrar os reinos que me pertencem das misérias que lhe via padecer em estranha sujeição”… Ao mesmo elenco de entidades de domínio público, na área da educação religiosa, pertence o Arcebispo de Braga – sopravam já os ventos da Inquisição – o qual, por ter-se aliado aos partidários da coroa filipina, foi preso nas masmorras da Torre de Belém, onde veio a falecer.
São sempre os três vectores decisivos para a movimentação de um povo: o político, o económico e o cultural.
Sem querer alongar-me, convido os meus amigos a compulsar o pesado processo da evolução da Monarquia para a República. Era a “idade de ouro” da nova era industrial, com todos os efeitos colaterais que lhe estão associados. As falências no sistema bancário levaram o governo português a contrair dívida externa, cujo pagamento foi, mais tarde,  compulsivamente exigido pelos países credores. Os problemas com a Coroa Britânica e as possessões africanas (recorde-se o “Ultimato Inglês”), o contraste do luxo da Corte com a miséria da população rural, a que se juntavam os conflitos dos operários fabris, tudo  isso originou o tal “caldo revolucionário” que explodiu no assassinato do Rei D. Carlos, seguindo-se-lhe a implantação do regime  republicano.
Assinale-se, na sua fonte, a poderosa influência da vertente cultural no percurso libertador contra o “ancien régme”, sobretudo com o famoso “Grupo dos Cinco” (Antero, Eça, Junqueiro, Ramalho e Oliveira Martins) precursores da Ideia Nova, de teor vincadamente anticlerical, recriminando à Igreja Institucional o atraso das populações. (Vide Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, Conferências do Casino, de Antero de Quintal).
 Sendo longo, acabo por ser escasso. Fica apenas este feixe de considerações sobre as raízes comuns a todas as revoluções para tentarmos ler a radiografia dos saltos e sobressaltos da História. As mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Inelutavelmente. A Libertação na alvorada do “25 de Abril” também. Fique ainda esta proposta: Se não queremos revoluções traumáticas, façamos em todos os dias uma conquista de Abril

21.Abr.16

Martins Júnior

terça-feira, 19 de abril de 2016

UM PAPA POPULISTA?...


Fiquei deveras surpreendido com o elevado número de leituras que mereceu o meu último convívio convosco, não obstante o título que, à primeira vista, tornava-o antipático e, no mínimo, indigesto. Apreciei as várias partilhas do texto, os comentários, sobretudo o do Dr. Gaudêncio Figueira que destacou um parágrafo que, porventura, tenha passado liminarmente desapercebido, o qual sublinhava o pesado encargo financeiro e logístico que impenderia sobre Francisco Papa se acaso tivesse o temão governativo de um eventual país de acolhimento. É verdade, mas também não é menos verdade que, perante a tradição imperialista do Pontificado Romano, recai sobre os ombros do actual Pontífice uma hecatombe de insinuações, impropérios e ameaças, vindas dos quadrantes político-religiosos auto-proclamados defensores acérrimos da pureza evangélica do “Depósito da Fé” -  sofisticado disfarce de um passado faustoso do empório vaticano. Veja-se o recente duelo verbal de dois cardeais da Cúria Romana: o cardeal W.Kasper, ao lado de Francisco e, em arrepiante contraste, o cardeal Gehrard Muller, ainda por cima, coroado como supremo titular do Sagrado Tribunal  da Doutrina da Fé Católica.
         Mas, de entre os contundentes aleives que os detractores do Papa lhe lançam em rosto, o mais capcioso  é o de acusá-lo do mais rasteiro populismo. Só lhes falta apropriar-se  abusivamente de Karl Marx e dizer que o Papa Francisco “é o ópio do povo”. Interroguemo-nos olhos nos olhos: Será Francisco um Papa populista? … É a questão que, muito judiciosamente, põe Jorge Bustos , na secção “La Ultima Coluna” de “EL MUNDO”, contradizendo  “a ideologia liberal  que o acusa de peronismo jesuítico”.
         Reflictamos.
         O populismo tem por objectivo dissimulado a conquista do poder e, daí, a implantação do autoritarismo. Um outro escritor, Jean-Marie Colomban define que a “estratégia  populista  alimenta a necessidade de um salvador, a urgência de um ‘super-herói’ que, uma vez no poder, usa e abusa de todos os meios belicistas para implantar um regime de ditadura”. Casos não nos faltam, todos somados no protótipo mais execrável do sargento Hitler que, começando pelas bases populares, manejou habilmente a ideia patriótica  do nacionalismo alemão, até desembocar  no monstruoso regime nazi. Comparar  o bispo argentino Georgio Bergoglio ao ditador populista dos fornos crematórios é o mesmo que chamar luz às trevas -- e às trevas chamar luz. Quem será capaz de encontrar no humilde trato, sensível e humano, do pré-octogenário  Francisco as tentaculares ambições do domínio temporal de muitos Papas que o antecederam?... Que ganhou ele com o combate ao sacrílego Banco do Vaticano e toda a chusma de cardeais e banqueiros que aí lavavam dinheiro sujo?...  Que reino pretenderá ele erguer ao tocar com as próprias mãos as chagas que a “economia que mata” abriu no corpo exangue de milhões de seres humanos?...
         Está nos seus antípodas qualquer tentação de autoritarismo ou vanglória mundana. Nem sequer o move a teatralidade congénita  de João Paulo II, ídolo das multidões e delas pendente até ao último suspiro. Tenho para mim que Francisco Papa mais ama  a intimidade directa, coração-a-coração, do que a  hipnose colectiva das manifestações a perder de vista. Ele, sim, o Irmão-Homem dos Afectos, o apaixonado seduzido pelas periferias, claramente  avesso aos protocolos presidenciais dos poderes do mundo. E se, pontualmente, os aceita, é porque ainda não chegou a sua hora de renunciar ao Estado do Vaticano. Um dia chegará!
         Termino com a mesma conclusão do articulista citado: “Os que acusam o Papa Francisco de populismo ignoram que Jesus Cristo protagonizou tantas cenas que poderiam classificar-se  de populistas, como curar doentes, multiplicar pães e peixes…E os que lhe exigem maior rigor teológico esquecem a prioridade que o Fundador da sua Fé dedicou aos deserdados da terra”.

19.Abri.16
Martins Júnior
        



domingo, 17 de abril de 2016

"NÃO ME FALEM MAIS DO PAPA" – Estranho paradoxo!


É verdade que não trago nada de original neste nosso dia ímpar. Mas sacrifico a originalidade à eloquência do gesto, este sim, tremendamente ímpar e provocador de Francisco Papa. A terra está cheia, hoje, da grande nova ocorrida na Grécia. A  minúscula ilha perdida no largo oceano  tomou conta do mundo inteiro, só porque um Homem – o Homem Novo! – ousou abraçá-la como quem abraça um filho moribundo.
A gravura, a mesma hoje mil vezes repetida, revela que a arte e a ciência também nascem na ponta dos dedos: o artista que a concebeu  sintetizou soberanamente o mais belo poema e a mais altissonante partitura que sobre o caso poderia alguém compor. Tão emotiva quanto a imagem é a sua legenda: “A Próxima Ceia”! A próxima e não a última. Talvez a primeira, entre muitas que estão por acontecer, não apenas àqueles doze  refugiados (o número é o mesmo que o dos Doze a quem Jesus lavou os pés na última ceia) mas a milhares e milhões de vítimas foragidas que Francisco simbolicamente trouxe para sua casa, Roma. Imagino que maior que o conforto de os ter trazido foi a mágoa, talvez o desespero, de não poder trazê-los a todas na sua nave, esta sim, verdadeiramente peregrina.
Que portentosa “arma” manejou o Mensageiro da Paz! Já o tinha feito noutra ilha, a de Lampedusa, e agora, no mais aceso da refrega dos líderes europeus em erguer muralhas e fechar fronteiras, precisamente aí é que aparece o Arcanjo Libertador brandindo a sua voz de fio de água corrente contra os “faraós” ocidentais, sem um pingo de alma, que fecham os olhos à miséria humana e arregalam-nos para os offshores onde vão esconder as barras de ouro amassadas com o sangue, o suor e as lágrimas dos inocentes.
É neste gesto, oportunamente concebido, que vejo em Francisco Papa um genuíno Provocador da “indiferença globalizada” (é sua a expressão), dando a cara à luta, corajosamente, mesmo sabendo que se expõe à fatalidade de o liquidarem. Comparável ao seu protótipo, Jesus Cristo! Logo hoje – outra inteligente coincidência – o Domingo do Bom Pastor, aquele  que enfrenta o lobo devorador   e  “dá a vida pelas suas ovelhas. Porque é pastor e não é mercenário. Este, o mercenário, vê o lobo aproximar-se e foge”, entregando as  ovelhas à voragem dos lobos.
O maior fez-se o mais pequeno. “Só me dá para chorar”, desabafou. É certo que se o Papa de Roma estivesse à cabeça de qualquer país de acolhimento teria de ponderar, até à exaustação, os orçamentos e os meios logísticos para tentar resolver uma tão trágica calamidade. Mas, ao mesmo tempo,  tenho para mim que este Homem fez hoje pela causa dos refugiados de guerra muito mais que os solenes tratados oficiais de Bruxelas, de Paris, de Berlim.
E aqui está o estranho paradoxo com que titulei este momento de reflexão: Não me falem mais do Papa Francisco. Porquê?... Porque não se pode ficar insensível perante a sua palavra. Apetece sair, ir ao seu encontro, gritar, enfrentar os lobos sedentos do sangue do rebanho. Ele mexe connosco. Ele acusa-nos. Ele põe-nos irresistivelmente em marcha.
Mas, na mesma hora, chega-nos aos olhos (é o que sinto) a inércia comodista da hierarquia católica, a começar pelos bispos, os seus silêncios cúmplices com os poderosos do mundo, a sua mitra senhorial que não se “suja” com os problemas alheios, os tais entes sacrais que têm “horror ao cheiro das ovelhas” , como já o disse o Papa Francisco. Se é irresistível a voz mobilizadora do Papa, na mesma medida  é insuportável a “cobardia” de bispos e certos eclesiásticos. Aliás, permitam-me este desabafo, com o qual estareis de acordo ou não: incomodou-me ver aqueles Monsenhores de  sotainas cintadas de vermelho e cordão de ouro ao pescoço diante dos miseráveis sofredores da ilha… Não quadravam bem aquelas fardas de gala em contraste com a simplicidade do Papa e o dramatismo do cenário envolvente. É uma opinião, fruto da minha sensibilidade.
O paradoxo inicial – precisamente por sê-lo – toma outra dimensão: É preciso que se oiça aquela voz. A História do homem sobre a terra precisa urgentemente destes montes altos, que aparecem de longe a longe, para não perdemos a bússola do caminheiro. Essa voz é, nos nossos tempos, o GPS da Humanidade. Que nunca esmoreça. Que os seus braços, como os de Moisés no Monte Sinai, nunca desfaleçam. Ao menos, para lenitivo daqueles que, de todos os meios e profissões, acalentaram o sonho de tornar esta terra mais habitável para os seus inquilinos, os presentes e os futuros.
Fazendo eco do bíblico jovem Samuel, no “Livro dos Reis”, apetece repetir: “Fala, Senhor, estamos em escuta”!

17. Abr.16
Martins Júnior
       

  

sexta-feira, 15 de abril de 2016

INVESTIMENTO SEGURO NO BANCO DO FUTURO!


Nobilíssima missão a de quem ensina a descobrir os caminhos da Cultura! E de quem faz da Cultura um guião para a vida através da Educação!
Foi nestes dois pilares que se apoiou  o Sindicato dos Professores da Madeira  para construir, neste fim de tarde, a ponte  por onde circularam conhecimentos e experiências dos docentes do concelho de Machico. Durante mais de duas horas, a problemática da “Cultura na Educação”    ocupou os  respectivos profissionais, tendo sido reveladas abertamente as coordenadas da ciência e da arte de ensinar, a amplitude de acções e concepções, as dificuldades supervenientes, a necessidade de articulação entre a sociedade, a escola e os diversos agentes educativos, sendo de relevar o fenómeno cultural como “um crescimento inteligente, sustentável e inclusivo”.
Nesta vertente inclusiva, desfilaram sucessivamente os esforços dos docentes e a sua função integradora dos diversos saberes no organismo social a que pertence a população escolar, com especial destaque para as potencialidades do sector museológico, caso do “Solar do Ribeirinho” e do “Museu da Baleia”, bem como a persistente envolvência da comunidade escolar na realização do “Mercado Quinhentista”.  Dito e vivido pelos próprios dinamizadores dos eventos, a “Tertúlia” (assim classificou o SPM) ganhou um dinamismo reprodutivo, patente nas questões que depois foram debatidas pelos presentes. Que bom sentir o pulsar das instituições no gesto, na palavra e na emoção dos seus promotores!
São iniciativas deste teor que fertilizam o solo, por vezes árduo e ingrato, que pisamos todos os dias e nos fazem entender que os docentes não são apenas funcionários cumpridores de horários fixos.  Pelo contrário, amam a sua arte – matrix do desenvolvimento global – e dedicam-lhe preciosos tempos do seu merecido lazer, ou seja, à causa  do futuro em construção.



Bem hajam!
Parabéns a todos os Docentes, na pessoa dos dirigentes do respectivo Sindicato. Não é tarefa doce nem passeio mole militar na vanguarda do prestígio e da luta pela dignificação da Escola e do superior interesse dos discentes. Conforta-vos o invisível troféu de ganhar os desafios do amanhã em cuja torre  cantarão vitória os vossos “filhos adoptivos”!
Uma palavra especial aos titulares da autarquia, presidentes e autarcas da Câmara Municipal e Junta de Freguesia que vieram “sentar-se no banco da escola”  em que, nesta noite, se transformou a Sala das Actividades Culturais da JFM. Excelente exemplo do compromisso com a missão pedagógica para que foram eleitos. Da minha parte, apenas o registo   de ter colaborado na tertúlia.
Acto eminentemente cultural! Sem espectacularidade nem sobranceria, sem os microfones e sem as objectivas áudio-visuais. Tudo autêntico como a ânsia de saber, tudo transparente como a vontade de servir!


15.Abr.16
Martins Júnior
     


quarta-feira, 13 de abril de 2016

“BEIJA-FLOR”

No "Dia do Beijo" gratuito e necessário. E dentro da Festa da Flor



Quanto a amei
Amei-a fora da lei
Dos códigos cifrados que a cidade tece
Amei-a
Como na selva se ama
Deitei-a no chão-cama
Do meu terreiro
E o terro da cor do castanheiro
Ficou palácio real
Só porque nele eras rainha
Fiz-te lençóis de água cantante
E tornei-me fiel escudeiro
Contra invasoras hostes do levante

Cresceste com beijos coloridos
A todo o viandante
Que passasse
E ensinaste
Que sempre o amor puro dá-se
De pronto e de graça
Ao caminheiro sedento que passa

E tu eras assim
Pródiga e frágil
Vestida da nudez clara do meu jardim
À tua mesa
Vinham esvoaçando de êxtase
Asas de seda e framboesa
Beber o mel da tua boca
O sumo perfumado da corola
Porque terra mar e céu
Moravam todos
No teu secreto gineceu

Até que um dia te levaram

Vi-te no empedrado e nos salões
Prisoneira de olhos estranhos e mãos-cifrões
Vi-te estendida morta
Cobrindo a laje
Das vítimas caídas diante dos canhões
Vi-te pisada
Pelo sardanapalo calçado de verniz
De quem se diz
Trazer os pés sofridos do Crucificado

Triste sorte
A flor de sua sina
Bela intocada virgem-menina
Espera-a a prematura morte
No rude corte
De mão assassina

Ninguém mais saberá dela
Da ametista açucena, da orquídea estrela

Será talvez a sua palma
Esse martírio de alma
Errante no parto condenada
Congénita cigana  
Sempre aquela  refugiada
Às mãos de quem a prende e a engana

É a sua epopeia

Por isso amei-a
Com aquele amor-primeiro
E só queria vê-la beijá-la
No chão-cama
Do meu antigo terreiro

13.Abr.16
Martins Júnior

segunda-feira, 11 de abril de 2016

HOJE VOU ENTRAR EM CONTRADIÇÃO COMIGO MESMO…




Poucas palavras para não desvirtuar o título. E também para fazer esse higiénico mergulho, difícil e necessário, dentro do cérebro até  tocar o nosso consciente  latente activo - se é que o podemos localizar – e aí conquistarmos o espaço          do pensamento livre.
Descodificando o preâmbulo, refiro-me à tumultuosa agitação das ondas comunicacionais que, à superfície, gravitam em nosso redor e nos estrangulam sem darmos por isso. Nunca foi tão activa, obsessiva e opressiva a informação que, de fora, bombardeia olhos, orelhas e neurónios. E com tal subtileza que nem chegamos a levar as mãos à cabeça para  abrigá-la de tamanho furacão. Pelo contrário. A pretexto de  actualização de dados, somos nós que lhe franqueamos as portas e as janelas. E se ela não vem à hora certa (que é toda a hora)  lá vamos a correr atrás da  algazarra, nos jornais, nas TV’s, nas rádios, nos face’s, até mesmo na bisbilhotice caseira dos comentadores de cordel. Recordando o hino da extinta (em 1974) Mocidade Portuguesa do regime fascista que formatou na escola da ditadura os jovens de então, nossos pais e avós, também cantamos de braços abertos: “Lá vamos cantando e rindo, levados – levados, sim”.
Permitam-me este desabafo, mas (à maneira de F.Pessoa “trago a cabeça doente  de sonhos”) apetece dizer: trago a cabeça doente, escaqueirada de informações. Não sei se convosco o mesmo se passa, mas caio em mim, mergulho no oceano fundo de mim próprio e pergunto: Ainda não te saturaste desse turbilhão em fúria que ronda à tua volta? Bebeste a informação, sim, mas provaste-a suficientemente nas papilas do pensamento crítico? Seleccionaste-a, saboreaste-a, interiorizaste-a naquilo que de verdadeiro e útil te pode enriquecer?
Na praça pública da informação somos, tantas vezes,  taxistas de serviço gratuito à espera do primeiro cliente que se nos atira porta adentro sem controlo nem critério. E sem ferir  susceptibilidades, chego ao extremo de nos compararmos a vazadouros públicos que aceitam  indiscriminadamente  todo o lixo que os donos da comunicação entendem despejar em cima do nosso consciente. Que  ridícula atracção esta  de apanha-bolas em que muita gente se torna no estádio do quotidiano.  São  os “spots” publicitários, são as subreptícias campanhas políticas, as   encenações pseudo-religiosas, os ataques bombistas, os milionários offshores, erotismos mórbidos, enfadonhos comentadores dos futebóis, já sem falar nos escândalos apetitosos aos paladares podridos – tudo nos chutam à cara e nós, bobos da feira, aceitamos e até  agradecemos. “Lá vamos… levados, levados sim”.
Sem dúvida, precisamos de estar vigilantes, nada de humano nos deve ser alheio, já nos educava Aristóteles. Mas, como de água para a nossa sede, precisamos de liberdade interior para avaliarmos da química das fontes. Conforme  o filósofo francês Michel de  Montaigne (1533), não basta uma cabeça abundantemente mobilada; preciso é ter une tête bien rangée, uma cabeça bem arrumada.  
         Perdoem-me este expirar nocturno de um estado de alma. Mas acho-o necessário ao equilíbrio neuro-vegetativo do ser humano e ao verdadeiro espírito da cultura. Assistimos hoje àquele paradoxo que o jornal El País titulava assim: “A solidão, epidemia da era da comunicação”, em comentário ao livro The Lonely City, da escritora britânica  Olivia Laing.   E justifica: ”Neste mundo hiperconectado, grande parte da população sente-se só e isolada. Estar presente a todas as horas nas redes sociais, recebendo uma maré cheia de informação permite disfarçar um sentimento real de desamparo que o mundo virtual paradoxalmente acentua”. 
         É um tónico que a nossa saúde física e mental não dispensa: mergulhar para dentro de nós mesmos. E aí descobrir tesouros desde  sempre  escondidos.
Tudo certo. Mas, afinal, feitas bem as contas, acabo por entrar em rotunda contradição. Pela lógica que descrevo,  eu não tenho sequer  o direito de sobrecarregar os meus amigos nos dias ímpares  com este  SENSO&CONSENSO...

         11.Abr.16

         Martins Júnior