sábado, 21 de maio de 2016

CONSTRUINDO UM MUNDO MAIOR EM TERRA MENOR

                                                              

    
Dois acontecimentos similares por dentro, mas tão distantes por fora, trouxeram-me a mil-vezes repetida, mas estruturalmente sempre nova, sentença de Ortega y Gasset: “O Homem ´é aquilo que é, mais a sua circunstância”. Aqui, por “circunstância” entenda-se o lugar, o meio, o território.
     O primeiro acontecimento – e é nele que me demoro – refere-se à visita do Presidente da República Portuguesa a Paris, em finais de Abril, por ocasião da homenagem ao génio da pintura lusa, Amadeo de Souza-Cardoso, no “Grand Palais”. Acerca deste memorável evento, promovido pela Gulbenkian, no cinquentenário da Fundação, o conceituado jornal Le Monde fazia eco do pensamento do colunista Plilippe Dogen, o qual, recorrendo à interrogação estilística,  peremptoriamente afirmava:  “Amadeo de Souza-Cardoso, o genial revolucionário da arte, por que razão não teve a merecida consagração internacional, tal como o seu contemporâneo, Amedeo  Modigliani, que inundou o mundo com as suas obras”?!
       Foram gémeos no mesmo declinar  de século (nascidos, o italiano em 1884 e o português em 1887)  e gémeos foram ao despedir-se do mundo no alvorecer do século XX  (este em 1918, aquele em 1920). Ambos  rasgaram horizontes visionários no oceano das artes plástica, o que levou Philippe Dogen a formular a pergunta acima enunciada, dando-lhe a resposta imediata: “Por causa da I Grande Guerra, Amadeo de Souza-Cardoso foi obrigado a refugiar-se em Portugal… e por lá ficou até à morte”.
     Aí está a chave do enigma. O que é ser grande, famoso, eminente? A circunstância - o lugar, o meio ambiente,  o território onde lhe coube viver. Continuasse Souza-Cardoso na cidade-luz e, secundando a opinião do mesmo colunista, ele seria tão grande como os maiores, na projecção mundial do seu talento!
     A este propósito, retomo o desabafo do nosso “Álvaro de Campos”, no poema  “Tabacaria”:
       Em quantas mansardas e não-mansardas  do mundo
 Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando...
 E a história não marcará, quem sabe, nem um!
      A ilha comprime o génio na estreiteza dos seus limites territoriais, muitas vezes, rodeada de um mar de ignorância que gera a maledicência, a inveja e afoga nas falésias os que ousam vencer  o medo e a distância. É verdade que personagens de altitude ímpar conseguiram afirmar-se no mundo mais vasto, mas só depois de romperem as amarras que os prenderam ao “buraco” obscuro de onde partiram.
      Por isso, teço aqui a Grande Homenagem a todos aqueles e aquelas que, aliciados pela “vã cobiça a que chamamos Fama”,  souberam resistir e permaneceram fiéis à terra  à qual entregaram o seu talento, o seu suor, o melhor de si próprios, educando os jovens, fortalecendo os adultos, revigorando os desalentados da vida. Constituem uma plêiade gloriosa – reis sem trono! – essa mancheia de profissionais e voluntários  do ensino, da cultura, do desporto, da saúde, do bem-estar social. Esses, sim, os autênticos obreiros de um Mundo Maior numa terra menor!
      Ocorrem-me estes lampejos de reflexão  – e aqui vai o segundo acontecimento referido no início – após ter visto o emotivo programa de encerramento da “Semana da Saúde”, iniciativa da Junta de Freguesia de Machico. Que beleza multiforme, abraço afectivo entre gerações, enfim, um cântico à Vida, inesgotável, sempre renovado!...  Fico pensando, outra vez, em tantos outros ambientes por essa ilha além, onde idêntica explosão endémica de saúde e optimismo se reacende pela mão discreta, mas olímpica, dos verdadeiros corredores-construtores do Amanhã!  

21.Mai.16
Martins Júnior

quinta-feira, 19 de maio de 2016

SETE SAUDAVEIS DIAS PARA O ANO INTEIRO “Semana da Saúde” em Machico

                                                   

É uma saudação breve de dentro de casa para o vasto mundo da nossa comunidade:  a saudação de hoje que traz consigo  o étimo inicial  – a saúde – o bem maior de tudo quanto é vida.
Debruço-me à varanda de Machico, porque é um comprovado signo civilizacional olhar para dentro e prestigiar o que de belo e dinâmico cresce no terreiro da nossa casa. Falo da prestigiante iniciativa, nascida há dez anos sob a chancela da Junta de Freguesia de então e qualitativamente valorizada em cada nova edição. Não podia deixar de assinalar este  marco distintivo da “Capital do Leste” da Madeira, sob pena de insanável presbitia visual e traição à terra-mãe.
Sete dias plenos – de 16 a 22 de Maio -  cuja nota mais impressiva consiste na interpretação holística do conceito  de saúde, envolvendo o corpo e o espírito em todos os registos da sua vivência. Rastreio optométrico, medição de glicémia, colesterol e tensão arterial, segurança rodoviária e violência doméstica, “bodybuilding and fitness”, yoga, karaté, prática de actividade física, nutrição e avaliação de indicadores de saúde, mobilidade geral, “pilates clínico”, saúde da Mulher nos cuidados de saúde primários, acto solidário da dádiva de sangue, caminhada pela saúde, trail, canoagem: eis alguns dos tópicos mais relevantes da iniciativa.
A preocupação em unir diversos escalões etários fica patente no “Hospital da Bonecada” e na lição “Mochila Segura” para as crianças. A representação da terceira idade tem sido uma constante em todos os dias da semana, destacando-se a actuação da Tuna da Universidade Sénior  a abrir o evento.
Outro aspecto demonstrativo do sentido global dos agentes  da saúde  foi a convocatória, prontamente aceite, dos muitos organismos e instituições, farmácias, ginásios, médicos de diversas especialidades, a maior parte  dos quais em serviço nas unidades terapêuticas de Machico, enfim, todos confluem, com uma alegria contagiante, na mesmo afã de tornar Machico mais sensível e com mais apetência pela conquista da saúde integral da sua comunidade.
Esta sensibilidade comunitária que envolve toda a iniciativa teve a sua maior expressão na descentralização dos serviços e esclarecimentos às zonas periféricas da cidade, uma ideia original e oportuna, corporizada este ano, pela primeira vez, no salão de actividades das paróquias da Ribeira Seca, Piquinho, Ribeira Grande e Maroços, que receberam a visita de  médicos e  técnicos de saúde, em serviço de verdadeiro voluntariado. Prestimosa foi a colaboração dos Bombeiros Municipais e da PSP/Machico.

                                                
A música e a poesia serão os tonificantes do espírito no encerramento da Semana da Saúde, sábado, 21 de Maio, com a actuação do Grupo Coral de Machico, Coro Sénior, Bandolins da Ribeira Seca e Tuna da Casa do Povo.  
A estreita relação colaborativa entre JFM e CMM, visivelmente aplaudida  nas palavras do representante do Governo Regional, o Secretário da Saúde e Assuntos Sociais,  foi a chave do sucesso.  A minha homenagem final, enquanto utente e munícipe, vai para o presidente da Junta, Alberto Olim, e mui particularmente para a Dra. Isabel Cunha, a célula agregadora deste monumento vivo à cidade e à Saúde de Machico.
Que se multipliquem outras tantas  “Semanas Saudáveis”  por esta ilha fora.

19.Mai.16
Martins Júnior

terça-feira, 17 de maio de 2016

REMINISCENCIAS DE ONTEM E DE HOJE - Ao Amigo Sacerdote José Manuel de Freitas

                                                    
 Palavras gastas são as que se oferecem aos mortos.
Gastas e inúteis, sobretudo  se não  lhas  deram em vida. Os olhos já não as lêem e os ouvidos já não as  escutam. Tem razão e coração a balada coimbrã:

                               Quando eu morrer rosas brancas
                          Para mim ninguém as corte
                         Quem as não teve na vida
De que lhes servem na morte

Por isso, as palavras de hoje são bálsamo para quem as escreve,  mais do  que para quem delas não precisa.
Vejo-nos,  a ele e a mim,  colados ao chão, lado a lado, há cinquenta e cinco anos no supedâneo do altar-mór da  Sé Catedral, quinze de Agosto, dia longínquo da nossa Ordenação Sacerdotal.
 Hoje, no chão da igreja de São Martinho, vejo-o, “pó deitado”, ele que foi “pó erguido”, durante toda a sua vida. E vejo-me, também a mim, hoje “pó erguido”, amanhã “pó deitado”.
Lado a lado, no Seminário Diocesano,  ensinando jovens seminaristas… E ainda, lado a lado, na radiodifusão regional, ele aos microfones da Estação Rádio da Madeira, eu no Posto Emissor do Funchal, emitindo semanalmente a mensagem bíblica nos verdes anos do nosso sacerdócio.                              
         Abraçámo-nos mais tarde em Quelimane, Zambézia, ele no nobre roteiro de transportar mais luz ao oriente moçambicano e eu na forçada e indigna “missão” da guerra colonial.
         Depois, a vida separou-nos. Lá foi ele, novo “Paulo de Tarso”  dos tempos modernos, cavaleiro andante por esse mundo fora , levando saudades da terra e, com elas, Espírito vital  e rajadas de optimismo aos emigrados em terra alheia.
         Finalmente, voltámos a encontrar-nos, três décadas volvidas, aqui, onde eu ficara. Revê-lo foi reencontrar a ponte no meio do rio. Ele não precisa – porque nunca precisou – que lhe enalteça  a seiva profundamente espiritualista e saudável que punha na palavra dita, no gesto claro, no silêncio cativante da sua presença. Digam-no quantos com ele privaram na intimidade construtiva de cada dia, aqui e no estrangeiro. Jamais esquecerei os discursos e os escritos, cuidadosamente moldados num estilo original, entrelaçando  o neo-clássico  e o pré-romântico, em que a palavra cintilava em múltiplas radiações, ricas de simbolismo estético. Muito ganharíamos com a sua publicação.
         Pelo que se viu e pelo que conversámos, a diocese não lhe permitiu chegar mais longe e mais alto, como era o seu lugar, de onde pudéssemos ouvir a sua mensagem e beneficiar da sua larga experiência apostólica. “No Hospital, deram-me apenas a função de  um simples tarefeiro” – desabafou-me um dia, ele que nunca se queixava das mágoas, interiormente curtidas.
         Por isso, são gastas e inúteis, para ele, as palavras que lhe deitam  no caixão, bem como o abraço que, tendo-lho dado em vida, reforço-o, depois da morte.
Sou eu que preciso desse abraço, enquanto me ecoa na alma o veredicto  do grandíloquo Padre António Vieira: “Lembra-te que hoje és pó erguido, amanhã serás pó caído”.
O que nunca cairá é a estatura intelectual e mística do Irmão Zé Manel! Adeus e até quando!

17.Mai.16
Martins Júnior


domingo, 15 de maio de 2016

LEITURA DE UMA TRADIÇÃO SECULAR

                                                   


É hoje o Dia do Pentecostes, vulgarmente conhecido como a Festa do Espírito Santo. Por toda a ilha da Madeira e, mui particularmente, no Porto Santo onde existe uma capela-paróquia dedicada ao mesmo Orago ( cuja festa vivi, como pároco, há mais de 50 anos) proliferam devoções e tradições enraizadas no povo desde o início do povoamento deste arquipélago. Concorde-se ou não com o ritual das visitas privadas aos domicílios e respectivos costumes, a  sua verdade histórica diz-nos que nem sempre foram aceites pela Igreja devido à carga de ridícula  superstição com que se cultuavam as insígnias do Espírito Santo e aos excessos a que deram aso. Leia-se, por todos, a História da Igreja em Portugal, de Fortunato de Almeida.     
         As quadras que se seguem, de inspiração popular, cantadas e coreografadas na Ribeira Seca, há cerca de quarenta e cinco anos, fazem parte do CD “A Igreja é do Povo – o Povo é de Deus” (editado em 2014) e reflectem em síntese os passos dessas tradições seculares bem como a evolução da mentalidade desta gente sobre a compreensão com que interpreta o  Espírito de Deus.  



Porque hoje é dia de festa
Nós iremos recordar
A história do nosso povo
Que hoje veio apresentar

A história do Espírito Santo
Fica bem aqui lembrar
Bandeirinhas e saloias
Tudo aqui vamos contar

        I

Estava o Rei D. Dinis
Em Portugal a Reinar
A Rainha lhe pediu
P’ra uma igreja levantar

Logo o Rei fez-lhe a vontade
Alenquer foi o lugar
Procissões e romarias
Começou a organizar

        II

Zarco em Câmara de Lobos
Fez capela e fez altar
Ponta do Sol, Esmeraldo
Fez igreja de encantar

Depois a Igreja gostou
E fez sua ferramenta
Arranjou capas vermelhas
Bandeiras e agua benta

  
         III

Assim começou a festa
Com violas e machetes
À conta do Espírito Santo
Veio o homem dos foguetes

Mas não podia faltar
O saquinho do dinheiro
Grandes arrematações
Vinho e brigas pelo meio

Até as pobres criancinhas
Sem saber qual era o fim
Vieram como saloias
Elas cantavam assim:


          IV


“Acudi gente da casa
Abri a vossa portinha
Aqui tendes o Divino
Na figura da pombinha”

“Abençoada é a esmola
Se a dais com alegria
Espirito Santo Divino
Seja em vossa companhia”

       
           V

O Espírito Divino
Quando fez sua descida
Não fez nenhum carnaval
Só veio p’ra dar a vida


Agora o nosso povo
Já descobriu a verdade
Este ano o Espírito Santo
Trouxe a vida e a unidade


sexta-feira, 13 de maio de 2016

A VENDA DE LEMBRANÇAS E PRESENTES ATINGE 30 MILHÕES… UM QUARTO, POR UMA NOITE, 300 EUROS… HOTEIS ESGOTADOS EM 2017…

                                                       


Hoje Portugal veste-se de treze. Logo hoje, sexta-feira. dia treze – a data “fatídica” que aterrorizava Frei Dinis, das Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. O dia em que o tão poderoso quanto supersticioso “Rei” Roberto Carlos nunca sobe a um palco para cantar. Per fas et nefas (”seja como for”) o certo é que, em chegando a Maio, crente que reze e turista que se preze envergam o nº13 de uniforme. Agitadas as campânulas dos corações, todos de longe ou de perto acorrem ao Santuário que tomou por toponímia o nome da filha de Maomé, “Fatuma”, de seu muçulmano baptizo.
Pisando o chão da Cova da Iria ninguém ouse pisar a crença de cada qual. Mora no mais secreto e indizível Tabor a sua fé, fonte de todos os gestos e expressões. É nesta postura, de sentinela em sentido, que me perfilo, todas as vezes que por lá passo.
Nem sempre é esse, porém, o retrato que nos devolvem os comunicadores, os propagandistas, os que vestem 13, só para fora. Dou por (mau) exemplo, os títulos jornalísticos que transcrevi  em epígrafe:   “Fátima, o maior centro europeu de turismo religioso… 30 milhões são negociados em presentes, imagens, terços, medalhinhas. Até a garrafinha de água, 14cm, vende-se por 5,50€…  Para o próximo ano, o do centenário, já estão esgotados os hotéis num perímetro de 50 KM. Cada quarto, por uma noite, custa 300 euros.
   Entre os muitos jogos infantis,  vem também o velho “jogo da glória”  que mistura dados de póker e pastorinhos a andar, a andar, até chegar a um desenho pintado de coração vermelho no meio de um  cartão e a que dão o pomposo cognome de “Coração de Jesus”.
Isto já me está a causar urticária no cérebro, só de  tragar as gordas parangonas dos jornais. Para cúmulo, caem-me os olhos e cai-me a fé quando vejo numa revista hebdomadária um anúncio, tipo descoberta das ondas gravitacionais, que reza assim, ou mais do que assim: Marcelo Rebelo de Sousa, Soares dos Santos,   Mota Engil e oum empresário obcecado  deram as mãos para produzir proximamente um filme de animação  ( um filme de milhões) sobre o Papa, os pastorinhos e Nossa Senhora, com vozes de artistas em fundo.
Nesta enorme redoma de um sol rolante, de várias cores ( como a que fez manchete em determinado jornal do incrível) já não se sabe onde pára Nossa Senhora, a da Azinheira. Onde a mensagem de Maria de Nazaré? Onde a estreita vereda que nos leva até junto de Seu Filho?
Permitam-me expressar o repúdio visceral que me assoma  quando vejo acontecimentos distintos, sublimes iniciativas culturais, a arte, a música e a poesia, os livros,  ficarem reduzidos a maços de cifras de  vendas e cheques bancários. Revolta-me até a distorção do próprio desporto, o futebol por ex., transformar o talento atlético, o rectângulo, a baliza, o relvado, os árbitros, a cabeça e os pés,  embrulhados e mensurados pelo cobertor de notas dos empresários agiotas!
Mas insuportável, nauseabundo mesmo, é que isto se passe no Altar do Mundo ou em qualquer altar de aldeia, onde deve imperar a transparência do sagrado, o intimismo inacessível de  alma  que conduz  à  mais pura espiritualidade. Não suporto. Abomino. Fujo a sete léguas deste sacrílego incesto, vergonhosamente praticado diante do Altar para  espectáculo mundano. Não vou, nunca irei por aí!
 Se não incomodar seja quem for, atrevo-me a confessar que  não me revejo em certas devoções exibicionistas, algumas delas marcadas de um doentio masoquismo e, depois,  marteladas pela imagem dos áudio. visuais que nos  chegam a casa. Sinto ressoar aos meus ouvidos o doce rebate do Nazareno: Quando jejuares e fizeres penitência, não desfigures a face como os fariseus hipócritas para serem vistos. Pelo contrário, lava o teu rosto, perfuma a tua cabeça… e o teu Pai, que vê no oculto, dar-te-á a recompensa . (Mt.6,17). E ainda: O bem que fez a tua  mão direita, que o não saiba a tua mão esquerda. (Mt.6,3)
Quero ficar hoje despido da camisola 13. Prefiro revestir-me da  transparente beleza daquela mensagem que meditei com os crentes  no primeiro acto da manhã.  O nosso J:Cristo respondia assim  a quem lhe trouxera um  recado da “Tua Mãe e dos Teus irmãos que querem falar contigo”:  Quem é minha Mãe e quem são os meus Irmãos? --- São os que fazem a vontade do Meu Pai. (Lc.8,21).   
O resto é paisagem.


13.Mai.16

Martins Júnior

quarta-feira, 11 de maio de 2016

BATALHÃO DE CRIANÇAS FARDADAS DE AMARELO

             


Por hoje, vou ficar-me pela mera factualidade do quotidiano, prescindindo de palpites, conjecturas ou ideologias. Embora tudo isto seja indissociável da interpretação factual, deixarei os seus conteúdos para análise futura. Sobretudo, porque, no caso em apreço, do que mais se tem falado é de ideologias colaterais em vez de constatar os factos reais.
Refiro-me ao tumulto que se levantou no país inteiro depois que o Ministro da Educação propôs – ainda sem decisão legislativa – acerca do magno problema da bifurcação do ensino em Portugal: o público e o privado. Que caminho a seguir perante duas soluções para um mesmo problema: deverá  o Estado subsidiar escolas privadas na freguesia ou no sítio onde tem a seu cargo escolas públicas?
Vamos aos factos. Aqui em Machico-Freguesia, a partir das zonas exteriores ao perímetro urbano, mais precisamente, Piquinho, Caramanchão, Preces, Maroços,  Ribeira Grande, Ribeira Seca, Poço do Gil. Em toda esta área, funciona uma escola privada e duas públicas. A escola privada possui 146 alunos. Das públicas, uma tem  67 alunos e a outra 73. Feitas as contas, a escola privada ultrapassa o total das duas escolas públicas. No entanto, estas têm capacidade (falo da escola da Ribeira Seca, com oito salas) para receber o dobro dos discentes. Aliás, este estabelecimento foi construído após lutas resistentes da população contra a inércia do governo. É dotada de parques de recreio e desporto, cantina e demais anexos inerentes à função educativa. Mais gravosa é a condição do confortável estabelecimento escolar do Caramanchão-Preces que se encontra encerrado.
E logo sai a primeira pergunta: será legítimo que o Estado deixe ao abandono instalações e equipamentos modelares e vá subsidiar uma – só uma! – escola privada dentro da mesma circunscrição geográfica?... Poderá o Estado atirar ao entulho da  degradação  um imóvel construído com os impostos da população?... Deixa vazias as suas escolas para abarrotar de gente uma – só uma” – escola privada!
Daqui saem aos pulos sérias perguntas, reflexões, futuras  conclusões. Limito-me a transcrever o comentário de uma docente: “As nossas escolas públicas ficam sem alunos porque estes são desviados para aquela escola privada”.
Neste entendimento, deixo  à consideração de quem me lê uma serena, mas imperativa incógnita: “Não estará este caloiro governo regional  a destruir propositadamente a escola pública?... Que interesses estão em jogo nesta contraditória política da educação”?!
         Estamos, pois,  perante duas concepções de ensino: uma do governo da República, outra do governo da Madeira.
Enquanto se esperam respostas, transcrevo episódios que toda a gente viu na TV,  desenfreadas manif´’s  contra  a defesa da escola pública, proposta  pelo Ministério da Educação.   Logo à cabeça, uns exemplares de gente adulta, docentes em evidência, vestidos de amarelo, empunhando valentes cartazes. Gente que até há pouco tempo amaldiçoava  e fugia a tudo o que cheirasse ao suor dos trabalhadores em manifestações públicas!  Na retina ficou-me a imagem daquele homem graúdo, bigode farto à D. Carlos e olhar fulo à moda do Hitler, diante do batalhão de miúdos: “Contra os canhões, marchar, marchar”.
         O mais “enternecedor”, porém, foram os cordões (des)humanos de crianças à chuva e ao vento – e à força – ditando para  as câmaras frases (argumentos!) como este: “Quero estudar nesta escola (particular) porque foi aqui que a minha mãe andou”. Para completar esta “força forçada” dos aprendizes manifestantes, só faltava o toque da massificação mais absurda e inimaginável:  fardar as crianças todas de amarelo, um amarelo esgotado nos armazéns da feira. O anafado  ditador comunista da Coreia do Norte não teria feito melhor às suas tropas acéfalas em parada.
         Perante os factos, cada qual tirará as suas conclusões.
Terei a oportunidade (o direito e o dever) de fazê-lo mais adiante.


11.Mai.16

Martins Júnior

segunda-feira, 9 de maio de 2016

EUROPA CELESTE E EUROPA TERRESTRE – IGREJA INCLUSIVA E IGREJA EXCLUSIVA: descubra as semelhanças

                                                


Duas datas históricas: 9 de Maio/1986 8-9 de Maio/2010. Qual delas nos toca mais de perto ? Tudo relativo. Depende da conjuntura em que cada pessoa e cada terra se envolvem numa ou noutra data.
Começo pelos 30 anos da entrada de Portugal na CE. O que pareceu um sonho dourado está a poluir-se de treva e hipocrisia. A aparente generosidade dos países ricos em  emprestar dinheiro tornou-se numa mafiosa armadilha em que caíram os países pobres. As pontes entre uns e outros não são feitas do cimento da união, mas tão-só da mais fria e calculista exploração. Satânica bondade: emprestam, mas com a condição de criar mais pobreza e mais dependência!  Neste conluio maquiavélico todos lavam as mãos na “bacia de Pilatos” e atingem os requintes do velho farisaísmo.
Foi o que sucedeu na última sexta-feira, 6 de Maio, em Roma quando “os principais dirigentes da EU se dirigiram em procissão ao Papa Francisco para lhe entregarem o alto galardão ‘Le Prix Charlemagne’ – um gesto de merecida  recompensa ao actual Unificador da Europa, mas que, no fundo, reflecte a situação trágica em que se enredaram os  representantes europeus, ou seja, a incapacidade de resolver as crises do Velho Continente: migrações, desemprego, exclusão”.
A citação é do editorial de Le Monde que, numa tirada  de humor corrosivo, observa: “Incapazes (por sua culpa) de construir a Europa terrestre, refugiam-se na Europa celeste”. E sublinha: ”O Papa, pelo contrário, recém-vindo da ilha grega de Lesbos, onde condenou a indiferença global face aos refugiados, não se remeteu à Europa celeste. Diante dos próprios denunciou vigorosamente: Que foi que te aconteceu, Oh Europa humanista, Paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade?...longe de gerar  valores, condenas os nossos povos à mais cruel pobreza, que é a exclusão!... Peço-vos que devolvam à Europa o renascimento de um novo Humanismo…
Que vigor, que estatura, que grandeza de liderança dos valores humanos, em luta pela “Europa terrestre”, sem a qual não haverá a “Europa celeste” , onde supostamente e, ainda mais, hipocritamente pretendem camuflar-se os líderes europeus!
Pesemos bem a máxima de Francisco Papa: A pobreza mais cruel é a exclusão! E tanto chega para alcançar-se a mensagem do Pastor Supremo para a “União Europeia”, com 30 anos de idade em Portugal.
      
                                                       
Volto à outra data: 8-9 de Maio/2010. Passaram-se 6 anos. Até hoje!  O enunciado é tão simples quanto estarrecedor: A Imagem da Virgem Peregrina, que visitou todas as paróquias da Madeira, chegou à Ribeira Seca, parou no início do adro… mas os responsáveis da Diocese não a deixaram entrar, frustrando as naturais (e prometidas) expectativas da multidão que durante várias horas aguardou pacientemente a simbólica visita. E mais não conto.
EXCLUSÃO!... Nem a Senhora escapou. Nem os seus filhos e admiradores. Que dirá Francisco Papa?...
O povo, na sua inspiração directa e sem rodeios, ao estilo do Papa, compôs várias quadras que vêm inseridas no “Cancioneiro Breve”, cantado no CD “A Igreja é do Povo e o Povo é de Deus”. Recorto apenas duas:

Usam a religião
Para nos fazer sofrer,
Mas será que o Papa sabe
O que está a acontecer?


Ninguém cala a nossa voz
Digo ao mundo e a vocês
Com imagem ou sem ela
Nós somos filhos de Deus


Europa terrestre e Europa celeste! Igreja que exclui e Igreja que inclui: dois mundos, cujas semelhanças e diferenças são uma evidência, à luz do pensamento  do Bispo de Roma.


09.Mai.16
Martins Júnior