quarta-feira, 25 de maio de 2016

MACHICO E VENEZA - Recordações e desilusões

                                                    

Hoje vou deixar  a Ásia em paz e vou rumar até Veneza. Ao dizer “Ásia”, digo  os  calores do deserto, ontem calmos e hoje turbulentos, digo esgares destemperados em fila indiana, vermelhos de espuma e amarelos de sono e súbito pesadelo, em que “a força do público e o público à força”, tipo Salazar, vestem centenas de  alunos  com o mesmo amarelo doentio nas camisolas de colégio, formando as novas cruzadas do século para reconquistar os lugares de privilégio a que sempre se acomodaram, à custa do dinheiro dos contribuintes.   
Porque hoje está em Veneza o príncipe da arquitectura portuguesa, Álvaro Siza Vieira. Ele aí está como protagonista do Pavilhão de Portugal na Bienal daquela cidade. Aí está com a transparência  da luz oblíqua da sua obra que, multiforme nos tempos e lugares, revela-se tão perfeita  e una na verdade do  talento e no  olhar fiel ao real quotidiano da habitação social.  Apresenta-se com  o “Bairro da Bouça” (Porto), o “Bairro Schilderswij” (Haia), o “Campo de Marte”(Giudeca) e o edifício Bonjour Tristesse, em Schelsisches Tor (Berlim). Aí brilha o Homem, o Artista, severo na disciplina conceptual e sensível às sugestões, venham de onde vierem - o criador de braços abertos à totalidade da dimensão geo-antropológica, traduzida na arqui-arte do património construído!
Falo assim, porque ele também esteve aqui. Em Machico. Agosto de 1993. Por isso, ao vê-lo no Pavilhão de Portugal da Bienal de Veneza, transporto-o para a nossa cidade, primeira capitania da Madeira. Estou a vê-lo, debruçado sobre o Plano de Pormenor da zona ribeirinha de Machico, ouvindo (como um humilde aprendiz) as opiniões da vereação da CMM e de residentes locais, para depois manifestar a sua perspectiva de conjunto sobre a panorâmica da nossa baía. Era a altura em que os “batelões de cimento e betão”  com assento à mesa da Quinta Vigia  acusavam a autarquia de  “estagnação” e “terceiro mundo” só pelo facto de não permitirmos cá o assalto dos patos bravos à paisagem ímpar que pertencia, de direito, à população. Após três dias de  cuidada reflexão, partiu  para  uma região nos arredores de Paris, afim de fazer regressar à traça original o mercado da localidade,  que mãos vilãs tinham “destruído” com ampliações megalómanas e de mau gosto. Daí seguiria para Itália, onde lhe era pedido um plano de correcção de rede viária,  mal desviada por interesses privados que a transformaram num monumental aborto betuminoso.         
De tudo quanto nos disse, ficou-me este aviso, em forma de conselho amigo, como era seu timbre: “Presidente, trate-me esta zona com pinças. Mesmo que desagrade a terceiros”.
Cumpri. Hoje, porém, o que  confrange e até desespera é constatar que mãos daninhas, a soldo dos tais “batelões de cimento e betão”  fizeram rigorosamente o contrário: estação de águas residuais na entrada da baía; Forte-Promontório na falésia, abandonado, irreconhecível; estrangulamento do cais da cidade; o fórum-mastodonte feito muro agressor e encobridor do grande vale… Apetece mandar mensagem para Veneza: “Mestre Siza, não voltes a Machico, ao menos para poupar-te a esta enorme desilusão”.
         Trago assim esta aproximação de Machico a Veneza pela mão de Álvaro Siza, porque sabe bem recordar. E sobretudo porque reconforta  ver que ainda há vozes frescas que se levantam contra os ventos da “cidade velha” oriundos da Quinta,  priorizados pela cobiça de reeditar moendas de alcatrão populista na paisagem regional.

25.Mai.16
Martins Júnior

  

segunda-feira, 23 de maio de 2016

VITÓRIAS DO TRABALHO SOBRE A PREPOTÊNCIA


                                                      
“Porque nada de humano me é estranho”, muito menos sê-lo-á o que à minha volta se passa. E é  só por isso que hoje fico na bancada a olhar as últimas fintas do campeonato  2015/2016.  De entre as 297 mensagens do SENSO&CONSENSO, esta é a segunda vez que deixo entrar o futebol na minha praia. E tanto chega para o meu registo de interesses nesta matéria: amo o desporto naquilo que canaliza de  saúde e bem-estar global, mas detesto essa máquina sádica de moer cabeças e consciências que é, afinal. no que se tornou o futebol profissional. Mais que moer, triturar! O que aí vai de trapaça, imundície, “malas de jogo… jogo duplo… guarda-redes a vender frangos por 1.500 euros”, enfim, de despejo de água-suja e de offshores lavados em lixívia do Panamá e arredores! O que mais repugna é ver tomar conta dos nossos ecrãs produtos manipulados e cenas degradadas sobre uma actividade humana que se deseja – e para isso foi feita – como uma alavanca saudável para corpo e espírito.
É a morbidez atávica dos instintos: onde há dinheiro, aí está tudo: o mal disfarçado de bem, o desempenho à mistura de corrupção, a política embebida nas caneleiras dos estádios. E a encharca de comentadores e analista, gente grada e de  importância engravatada, que ora se emociona ora se exalta até ao tutano, a discutir a mão na bola ou a bola na mão, o milímetro do tornozelo do adversário em cima da linha, o apito do árbitro e as aleivosias à mãe do homem-de-preto. Chega! Ainda bem que, por algum tempo, os nossos televisores terão algo de diferente a servir-nos nas noites de domingo, manhãs e tarde de segunda-feira.
         Mas o impulso maior que me leva a abrir esta página ao futebol é o resultado das duas principais competições nacionais: a vitória do Vitório (o Rui) e a Taça de Portugal para o Paulo Fonseca. Definindo melhor: o triunfo dos atletas  contra a arrogância dos donos-do clube. Talvez mais precisamente:  a palma de ouro para os trabalhadores contra as ambições inconfessáveis dos exploradores. Nada mais bem feito!  Eu que não mexo um dedo de paixão clubista  (os que lá estão têm menos amor à camisola que os sócios e adeptos)  soube-me essa surpreendente  gesta, excitante, inimaginável e invejada pelos orgulhosos “Trump’s” cá do burgo, os que destilavam desprezo por “quem não era treinador nenhum”, os que mandaram para a prateleira o tal que agora lhes arrebatou o Troféu, com todo o mérito.  Aliás, sempre admirei a postura inquebrável,  realista e serena  de Rui Vitória e a cativante humildade de Paulo Fonseca, protótipos de lideranças firmes, vencedores no rectângulo e fora dele, sem nunca ripostar às provocações “sub-10” dos “rebenta-minas” que, desde o início,  julgavam-se já com o pássaro na mão.
Que passe de mestres e que estrondosa finta! Memorável lição para os dirigentes deste irregular rectângulo insular, em que germina a erva de certos dirigentes desportivos, arfando de protagonismo, senão mesmo candidatos falhados na cena política regional!
Não será preciso esclarecer  – mas faço-o expressamente – que o que escrevi nada tem a ver com as simpatias clubísticas de quem quer que seja. Os simpatizantes, acho eu, não partilham dos vícios dos dirigentes. Mas,
desta vez, parafraseando um antigo programa desportivo – “No estádio e no Estúdio” – também se pode afirmar que os estádios portugueses transformaram-se num estúdio e numa cátedra para o desportivismo e para a vida.

23.Mai.16
Martins Júnior
        

    

sábado, 21 de maio de 2016

CONSTRUINDO UM MUNDO MAIOR EM TERRA MENOR

                                                              

    
Dois acontecimentos similares por dentro, mas tão distantes por fora, trouxeram-me a mil-vezes repetida, mas estruturalmente sempre nova, sentença de Ortega y Gasset: “O Homem ´é aquilo que é, mais a sua circunstância”. Aqui, por “circunstância” entenda-se o lugar, o meio, o território.
     O primeiro acontecimento – e é nele que me demoro – refere-se à visita do Presidente da República Portuguesa a Paris, em finais de Abril, por ocasião da homenagem ao génio da pintura lusa, Amadeo de Souza-Cardoso, no “Grand Palais”. Acerca deste memorável evento, promovido pela Gulbenkian, no cinquentenário da Fundação, o conceituado jornal Le Monde fazia eco do pensamento do colunista Plilippe Dogen, o qual, recorrendo à interrogação estilística,  peremptoriamente afirmava:  “Amadeo de Souza-Cardoso, o genial revolucionário da arte, por que razão não teve a merecida consagração internacional, tal como o seu contemporâneo, Amedeo  Modigliani, que inundou o mundo com as suas obras”?!
       Foram gémeos no mesmo declinar  de século (nascidos, o italiano em 1884 e o português em 1887)  e gémeos foram ao despedir-se do mundo no alvorecer do século XX  (este em 1918, aquele em 1920). Ambos  rasgaram horizontes visionários no oceano das artes plástica, o que levou Philippe Dogen a formular a pergunta acima enunciada, dando-lhe a resposta imediata: “Por causa da I Grande Guerra, Amadeo de Souza-Cardoso foi obrigado a refugiar-se em Portugal… e por lá ficou até à morte”.
     Aí está a chave do enigma. O que é ser grande, famoso, eminente? A circunstância - o lugar, o meio ambiente,  o território onde lhe coube viver. Continuasse Souza-Cardoso na cidade-luz e, secundando a opinião do mesmo colunista, ele seria tão grande como os maiores, na projecção mundial do seu talento!
     A este propósito, retomo o desabafo do nosso “Álvaro de Campos”, no poema  “Tabacaria”:
       Em quantas mansardas e não-mansardas  do mundo
 Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando...
 E a história não marcará, quem sabe, nem um!
      A ilha comprime o génio na estreiteza dos seus limites territoriais, muitas vezes, rodeada de um mar de ignorância que gera a maledicência, a inveja e afoga nas falésias os que ousam vencer  o medo e a distância. É verdade que personagens de altitude ímpar conseguiram afirmar-se no mundo mais vasto, mas só depois de romperem as amarras que os prenderam ao “buraco” obscuro de onde partiram.
      Por isso, teço aqui a Grande Homenagem a todos aqueles e aquelas que, aliciados pela “vã cobiça a que chamamos Fama”,  souberam resistir e permaneceram fiéis à terra  à qual entregaram o seu talento, o seu suor, o melhor de si próprios, educando os jovens, fortalecendo os adultos, revigorando os desalentados da vida. Constituem uma plêiade gloriosa – reis sem trono! – essa mancheia de profissionais e voluntários  do ensino, da cultura, do desporto, da saúde, do bem-estar social. Esses, sim, os autênticos obreiros de um Mundo Maior numa terra menor!
      Ocorrem-me estes lampejos de reflexão  – e aqui vai o segundo acontecimento referido no início – após ter visto o emotivo programa de encerramento da “Semana da Saúde”, iniciativa da Junta de Freguesia de Machico. Que beleza multiforme, abraço afectivo entre gerações, enfim, um cântico à Vida, inesgotável, sempre renovado!...  Fico pensando, outra vez, em tantos outros ambientes por essa ilha além, onde idêntica explosão endémica de saúde e optimismo se reacende pela mão discreta, mas olímpica, dos verdadeiros corredores-construtores do Amanhã!  

21.Mai.16
Martins Júnior

quinta-feira, 19 de maio de 2016

SETE SAUDAVEIS DIAS PARA O ANO INTEIRO “Semana da Saúde” em Machico

                                                   

É uma saudação breve de dentro de casa para o vasto mundo da nossa comunidade:  a saudação de hoje que traz consigo  o étimo inicial  – a saúde – o bem maior de tudo quanto é vida.
Debruço-me à varanda de Machico, porque é um comprovado signo civilizacional olhar para dentro e prestigiar o que de belo e dinâmico cresce no terreiro da nossa casa. Falo da prestigiante iniciativa, nascida há dez anos sob a chancela da Junta de Freguesia de então e qualitativamente valorizada em cada nova edição. Não podia deixar de assinalar este  marco distintivo da “Capital do Leste” da Madeira, sob pena de insanável presbitia visual e traição à terra-mãe.
Sete dias plenos – de 16 a 22 de Maio -  cuja nota mais impressiva consiste na interpretação holística do conceito  de saúde, envolvendo o corpo e o espírito em todos os registos da sua vivência. Rastreio optométrico, medição de glicémia, colesterol e tensão arterial, segurança rodoviária e violência doméstica, “bodybuilding and fitness”, yoga, karaté, prática de actividade física, nutrição e avaliação de indicadores de saúde, mobilidade geral, “pilates clínico”, saúde da Mulher nos cuidados de saúde primários, acto solidário da dádiva de sangue, caminhada pela saúde, trail, canoagem: eis alguns dos tópicos mais relevantes da iniciativa.
A preocupação em unir diversos escalões etários fica patente no “Hospital da Bonecada” e na lição “Mochila Segura” para as crianças. A representação da terceira idade tem sido uma constante em todos os dias da semana, destacando-se a actuação da Tuna da Universidade Sénior  a abrir o evento.
Outro aspecto demonstrativo do sentido global dos agentes  da saúde  foi a convocatória, prontamente aceite, dos muitos organismos e instituições, farmácias, ginásios, médicos de diversas especialidades, a maior parte  dos quais em serviço nas unidades terapêuticas de Machico, enfim, todos confluem, com uma alegria contagiante, na mesmo afã de tornar Machico mais sensível e com mais apetência pela conquista da saúde integral da sua comunidade.
Esta sensibilidade comunitária que envolve toda a iniciativa teve a sua maior expressão na descentralização dos serviços e esclarecimentos às zonas periféricas da cidade, uma ideia original e oportuna, corporizada este ano, pela primeira vez, no salão de actividades das paróquias da Ribeira Seca, Piquinho, Ribeira Grande e Maroços, que receberam a visita de  médicos e  técnicos de saúde, em serviço de verdadeiro voluntariado. Prestimosa foi a colaboração dos Bombeiros Municipais e da PSP/Machico.

                                                
A música e a poesia serão os tonificantes do espírito no encerramento da Semana da Saúde, sábado, 21 de Maio, com a actuação do Grupo Coral de Machico, Coro Sénior, Bandolins da Ribeira Seca e Tuna da Casa do Povo.  
A estreita relação colaborativa entre JFM e CMM, visivelmente aplaudida  nas palavras do representante do Governo Regional, o Secretário da Saúde e Assuntos Sociais,  foi a chave do sucesso.  A minha homenagem final, enquanto utente e munícipe, vai para o presidente da Junta, Alberto Olim, e mui particularmente para a Dra. Isabel Cunha, a célula agregadora deste monumento vivo à cidade e à Saúde de Machico.
Que se multipliquem outras tantas  “Semanas Saudáveis”  por esta ilha fora.

19.Mai.16
Martins Júnior

terça-feira, 17 de maio de 2016

REMINISCENCIAS DE ONTEM E DE HOJE - Ao Amigo Sacerdote José Manuel de Freitas

                                                    
 Palavras gastas são as que se oferecem aos mortos.
Gastas e inúteis, sobretudo  se não  lhas  deram em vida. Os olhos já não as lêem e os ouvidos já não as  escutam. Tem razão e coração a balada coimbrã:

                               Quando eu morrer rosas brancas
                          Para mim ninguém as corte
                         Quem as não teve na vida
De que lhes servem na morte

Por isso, as palavras de hoje são bálsamo para quem as escreve,  mais do  que para quem delas não precisa.
Vejo-nos,  a ele e a mim,  colados ao chão, lado a lado, há cinquenta e cinco anos no supedâneo do altar-mór da  Sé Catedral, quinze de Agosto, dia longínquo da nossa Ordenação Sacerdotal.
 Hoje, no chão da igreja de São Martinho, vejo-o, “pó deitado”, ele que foi “pó erguido”, durante toda a sua vida. E vejo-me, também a mim, hoje “pó erguido”, amanhã “pó deitado”.
Lado a lado, no Seminário Diocesano,  ensinando jovens seminaristas… E ainda, lado a lado, na radiodifusão regional, ele aos microfones da Estação Rádio da Madeira, eu no Posto Emissor do Funchal, emitindo semanalmente a mensagem bíblica nos verdes anos do nosso sacerdócio.                              
         Abraçámo-nos mais tarde em Quelimane, Zambézia, ele no nobre roteiro de transportar mais luz ao oriente moçambicano e eu na forçada e indigna “missão” da guerra colonial.
         Depois, a vida separou-nos. Lá foi ele, novo “Paulo de Tarso”  dos tempos modernos, cavaleiro andante por esse mundo fora , levando saudades da terra e, com elas, Espírito vital  e rajadas de optimismo aos emigrados em terra alheia.
         Finalmente, voltámos a encontrar-nos, três décadas volvidas, aqui, onde eu ficara. Revê-lo foi reencontrar a ponte no meio do rio. Ele não precisa – porque nunca precisou – que lhe enalteça  a seiva profundamente espiritualista e saudável que punha na palavra dita, no gesto claro, no silêncio cativante da sua presença. Digam-no quantos com ele privaram na intimidade construtiva de cada dia, aqui e no estrangeiro. Jamais esquecerei os discursos e os escritos, cuidadosamente moldados num estilo original, entrelaçando  o neo-clássico  e o pré-romântico, em que a palavra cintilava em múltiplas radiações, ricas de simbolismo estético. Muito ganharíamos com a sua publicação.
         Pelo que se viu e pelo que conversámos, a diocese não lhe permitiu chegar mais longe e mais alto, como era o seu lugar, de onde pudéssemos ouvir a sua mensagem e beneficiar da sua larga experiência apostólica. “No Hospital, deram-me apenas a função de  um simples tarefeiro” – desabafou-me um dia, ele que nunca se queixava das mágoas, interiormente curtidas.
         Por isso, são gastas e inúteis, para ele, as palavras que lhe deitam  no caixão, bem como o abraço que, tendo-lho dado em vida, reforço-o, depois da morte.
Sou eu que preciso desse abraço, enquanto me ecoa na alma o veredicto  do grandíloquo Padre António Vieira: “Lembra-te que hoje és pó erguido, amanhã serás pó caído”.
O que nunca cairá é a estatura intelectual e mística do Irmão Zé Manel! Adeus e até quando!

17.Mai.16
Martins Júnior


domingo, 15 de maio de 2016

LEITURA DE UMA TRADIÇÃO SECULAR

                                                   


É hoje o Dia do Pentecostes, vulgarmente conhecido como a Festa do Espírito Santo. Por toda a ilha da Madeira e, mui particularmente, no Porto Santo onde existe uma capela-paróquia dedicada ao mesmo Orago ( cuja festa vivi, como pároco, há mais de 50 anos) proliferam devoções e tradições enraizadas no povo desde o início do povoamento deste arquipélago. Concorde-se ou não com o ritual das visitas privadas aos domicílios e respectivos costumes, a  sua verdade histórica diz-nos que nem sempre foram aceites pela Igreja devido à carga de ridícula  superstição com que se cultuavam as insígnias do Espírito Santo e aos excessos a que deram aso. Leia-se, por todos, a História da Igreja em Portugal, de Fortunato de Almeida.     
         As quadras que se seguem, de inspiração popular, cantadas e coreografadas na Ribeira Seca, há cerca de quarenta e cinco anos, fazem parte do CD “A Igreja é do Povo – o Povo é de Deus” (editado em 2014) e reflectem em síntese os passos dessas tradições seculares bem como a evolução da mentalidade desta gente sobre a compreensão com que interpreta o  Espírito de Deus.  



Porque hoje é dia de festa
Nós iremos recordar
A história do nosso povo
Que hoje veio apresentar

A história do Espírito Santo
Fica bem aqui lembrar
Bandeirinhas e saloias
Tudo aqui vamos contar

        I

Estava o Rei D. Dinis
Em Portugal a Reinar
A Rainha lhe pediu
P’ra uma igreja levantar

Logo o Rei fez-lhe a vontade
Alenquer foi o lugar
Procissões e romarias
Começou a organizar

        II

Zarco em Câmara de Lobos
Fez capela e fez altar
Ponta do Sol, Esmeraldo
Fez igreja de encantar

Depois a Igreja gostou
E fez sua ferramenta
Arranjou capas vermelhas
Bandeiras e agua benta

  
         III

Assim começou a festa
Com violas e machetes
À conta do Espírito Santo
Veio o homem dos foguetes

Mas não podia faltar
O saquinho do dinheiro
Grandes arrematações
Vinho e brigas pelo meio

Até as pobres criancinhas
Sem saber qual era o fim
Vieram como saloias
Elas cantavam assim:


          IV


“Acudi gente da casa
Abri a vossa portinha
Aqui tendes o Divino
Na figura da pombinha”

“Abençoada é a esmola
Se a dais com alegria
Espirito Santo Divino
Seja em vossa companhia”

       
           V

O Espírito Divino
Quando fez sua descida
Não fez nenhum carnaval
Só veio p’ra dar a vida


Agora o nosso povo
Já descobriu a verdade
Este ano o Espírito Santo
Trouxe a vida e a unidade


sexta-feira, 13 de maio de 2016

A VENDA DE LEMBRANÇAS E PRESENTES ATINGE 30 MILHÕES… UM QUARTO, POR UMA NOITE, 300 EUROS… HOTEIS ESGOTADOS EM 2017…

                                                       


Hoje Portugal veste-se de treze. Logo hoje, sexta-feira. dia treze – a data “fatídica” que aterrorizava Frei Dinis, das Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. O dia em que o tão poderoso quanto supersticioso “Rei” Roberto Carlos nunca sobe a um palco para cantar. Per fas et nefas (”seja como for”) o certo é que, em chegando a Maio, crente que reze e turista que se preze envergam o nº13 de uniforme. Agitadas as campânulas dos corações, todos de longe ou de perto acorrem ao Santuário que tomou por toponímia o nome da filha de Maomé, “Fatuma”, de seu muçulmano baptizo.
Pisando o chão da Cova da Iria ninguém ouse pisar a crença de cada qual. Mora no mais secreto e indizível Tabor a sua fé, fonte de todos os gestos e expressões. É nesta postura, de sentinela em sentido, que me perfilo, todas as vezes que por lá passo.
Nem sempre é esse, porém, o retrato que nos devolvem os comunicadores, os propagandistas, os que vestem 13, só para fora. Dou por (mau) exemplo, os títulos jornalísticos que transcrevi  em epígrafe:   “Fátima, o maior centro europeu de turismo religioso… 30 milhões são negociados em presentes, imagens, terços, medalhinhas. Até a garrafinha de água, 14cm, vende-se por 5,50€…  Para o próximo ano, o do centenário, já estão esgotados os hotéis num perímetro de 50 KM. Cada quarto, por uma noite, custa 300 euros.
   Entre os muitos jogos infantis,  vem também o velho “jogo da glória”  que mistura dados de póker e pastorinhos a andar, a andar, até chegar a um desenho pintado de coração vermelho no meio de um  cartão e a que dão o pomposo cognome de “Coração de Jesus”.
Isto já me está a causar urticária no cérebro, só de  tragar as gordas parangonas dos jornais. Para cúmulo, caem-me os olhos e cai-me a fé quando vejo numa revista hebdomadária um anúncio, tipo descoberta das ondas gravitacionais, que reza assim, ou mais do que assim: Marcelo Rebelo de Sousa, Soares dos Santos,   Mota Engil e oum empresário obcecado  deram as mãos para produzir proximamente um filme de animação  ( um filme de milhões) sobre o Papa, os pastorinhos e Nossa Senhora, com vozes de artistas em fundo.
Nesta enorme redoma de um sol rolante, de várias cores ( como a que fez manchete em determinado jornal do incrível) já não se sabe onde pára Nossa Senhora, a da Azinheira. Onde a mensagem de Maria de Nazaré? Onde a estreita vereda que nos leva até junto de Seu Filho?
Permitam-me expressar o repúdio visceral que me assoma  quando vejo acontecimentos distintos, sublimes iniciativas culturais, a arte, a música e a poesia, os livros,  ficarem reduzidos a maços de cifras de  vendas e cheques bancários. Revolta-me até a distorção do próprio desporto, o futebol por ex., transformar o talento atlético, o rectângulo, a baliza, o relvado, os árbitros, a cabeça e os pés,  embrulhados e mensurados pelo cobertor de notas dos empresários agiotas!
Mas insuportável, nauseabundo mesmo, é que isto se passe no Altar do Mundo ou em qualquer altar de aldeia, onde deve imperar a transparência do sagrado, o intimismo inacessível de  alma  que conduz  à  mais pura espiritualidade. Não suporto. Abomino. Fujo a sete léguas deste sacrílego incesto, vergonhosamente praticado diante do Altar para  espectáculo mundano. Não vou, nunca irei por aí!
 Se não incomodar seja quem for, atrevo-me a confessar que  não me revejo em certas devoções exibicionistas, algumas delas marcadas de um doentio masoquismo e, depois,  marteladas pela imagem dos áudio. visuais que nos  chegam a casa. Sinto ressoar aos meus ouvidos o doce rebate do Nazareno: Quando jejuares e fizeres penitência, não desfigures a face como os fariseus hipócritas para serem vistos. Pelo contrário, lava o teu rosto, perfuma a tua cabeça… e o teu Pai, que vê no oculto, dar-te-á a recompensa . (Mt.6,17). E ainda: O bem que fez a tua  mão direita, que o não saiba a tua mão esquerda. (Mt.6,3)
Quero ficar hoje despido da camisola 13. Prefiro revestir-me da  transparente beleza daquela mensagem que meditei com os crentes  no primeiro acto da manhã.  O nosso J:Cristo respondia assim  a quem lhe trouxera um  recado da “Tua Mãe e dos Teus irmãos que querem falar contigo”:  Quem é minha Mãe e quem são os meus Irmãos? --- São os que fazem a vontade do Meu Pai. (Lc.8,21).   
O resto é paisagem.


13.Mai.16

Martins Júnior