sexta-feira, 17 de junho de 2016

O “MILAGRE” QUE PASSOU DUAS VEZES PELA MADEIRA – E PROMETE PASSAR DE NOVO

       Afeiçoei-me, nos meados de Junho, ao brilho deste vocábulo, tão estranho e tão quotidiano ao convívio dos mortais – o “milagre”. Hoje tentarei alcançar o terceiro degrau desta escada que iniciei desde a semana passada.
Seduzidos pelo título, alguns crentes pensarão logo no andor da Senhora de Fátima que cá esteve em 2010 e reapareceu em 2015. Ou que voltará no centenário da aparição de 1917. Mas não. Basta um pouco de discernimento prático para não deixarmos eclipsar  a “cabecinha pensadora” que temos em cima dos ombros. Com efeito, se interpretarmos o conceito de “milagre” como um bem apetecido, uma dádiva consoladora, o andor da Peregrina em 2010 só nos trouxe, por trágica coincidência,  destruições e mortes barbaramente  arrastadas no 20 de Fevereiro e cujas feridas ainda continuam abertas na paisagem e nas pessoas.
É, pois, a um outro fenómeno que me refiro. Este, tão insignificante, tão silencioso na passagem, tão “deprimente”  no aspecto que quase nem demos por ele. Passou por cá, pisou o chão da ilha, desceu ruelas do passado. Paralítico, enfezado, disforme do comum dos humanos, a cabeça insegura, caída sobre o ombro direito, à procura de apoio. Um comovente exemplar dessa doença degenerativa incurável que dá pelo nome de “esclerose lateral amiotrófica”.
E, no entanto, ele é um portentoso “milagre” do voluntarismo, aliado dos heróis. Melhor desvendar já o enigma, o “milagre”. Trata-se de Stephen Hawking, o génio da matemática, da física, da mecânica quântica, da termodinâmica, fundador do Centro de Cosmologia Teórica da Universidade de Cambridge, onde ocupou a cátedra de Isaac Newton ( a quem o nosso Álvares de Nóbrega cognominou de “Ave Real”) famoso astrónomo do século XVII. Impossível descrever a “Enciclopédia do Saber” que é Stephen Hawking, desde as incursões cosmológicas, aos prémios internacionais, até à participação na cinematografia, destacando-se a monumental obra God Created the Integers, a confirmação dos buracos negros interplanetários e da teoria do BigBang, que revolucionou as teorias creacionistas do Universo, na esteira de Albert Einstein e das ondas gravitacionais que cada vez mais ganham actualidade.
Fico-me por aqui no breve desenho da sua genial personalidade. Ele passou por cá. Em Santana. No Funchal fez a descida nos carreiros do Monte. Ele “viu-nos” e nós nem demos por ele. Foi a segunda vez. Aconteceu em 9 de Junho pp., em notícia de DN. E prometeu visitar a ilha por uma terceira vez. Fosse um jogador de bola ou um cantor pimba e teria toda a comunicação social a seus pés…
Entretanto, perguntareis vós: “Mas onde é que está o “milagre”?
O “milagre” já comecei a descrevê-lo nos primeiros parágrafos. E completo agora: “Aos 21 anos foi-lhe diagnosticada a doença cruel, fez uma traqueostomia e desde então usa um sintetizador de voz para comunicar. Foi perdendo o movimento de braços e pernas, assim como o resto da musculatura, incluindo a força para manter a cabeça erguida” ... Porém, um privilégio ímpar coroou tamanha fatalidade: não foram atingidas as funções cerebrais. E foi daqui, desse minúsculo globo, o cérebro,  tão misterioso quanto todo o Universo, que Stephen Hawking iniciou a gigantesca escalada dos Himalaias do Saber, alcançando cumes que outros, organicamente perfeitos, nunca conseguiram. A incomensurável potência da Vontade, impressa no cérebro humano! Que “milagre” maior queremos nós?... Muitos milhares, milhões, biliões ter-se-iam deixado ficar inertes, entravados, desesperadamente amortalhados numa enxerga ao abandono. Ele, não! Soergueu-se das próprias cinzas. Ele é um laboratório vivo da ciência em benefício de futuros pacientes. Ele empunhou, destemido, o “milagre” nos ombros quebradiços!
Falta um pouco mais. Stephen Hawking professa um ateísmo científico, fundamentado nas suas descobertas. E afirma: “O universo é governado pelas leis da ciência. As leis podem ter sido criadas por um Criador, mas um Criador não intervém para quebrar essas leis… Há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade, e a ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona”. Palavras pesadas para as nossas convicções e a ponderar seriamente...  Apesar disso, porém , (surpresa das surpresas!) em 9 de Janeiro de 1986, o Papa João Paulo II nomeou Stephen Hawking para  Membro da Academia Pontifícia das Ciências.
Eis o “Milagre” que o Criador colocou na mão do Homem!
Nós somos também esse “milagre” em gestação. Cada um de nós.  Basta querer e agir. Apetecer-me-ia terminar com o poema que fez parte do nosso (do meu)  ideário desde os tempos da juventude, o “If”  - “Se” - escrito em 1895  por Rudyard Kipling, Nobel da Literatura, de que recorto o seguinte excerto:
…………………..
“Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço, há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a Vontade a comandar “avante”…
……..Alegra-te, meu filho, Então serás um Homem”!
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17.Jun.16
Martins Júnior!

  

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O REVERSO DO “MILAGRE”


Antes que me embrenhe em temas e problemas que todos os dias nos caem diante dos olhos – e há-os tantos nestas últimas horas – vou cumprir o acordado desde o dia 9 .p., ou seja, mostrar o reverso da medalha no tocante àquilo a que costumamos designar por “milagre”. Nesse texto, procurei  analisar as inexploradas potencialidades do Homem, detectando nalguns casos fenómenos abissais, merecedores daquela designação. No cérebro e na mão dos humanos mortais está o segredo de “ver o invisível” e, com o próprio esforço, transformar em realidades concretas o que julgávamos antes sonhos impossíveis, milagrosos.
Mas há o tal reverso da medalha. A par das estrondosas  evidências que a ciência nos tem revelado, subsiste em certas mentalidades e com a mesma dimensão a apetência doentia pelo sensacional, quase até ao absurdo, enfim, a obsessão pelo “milagre”. Fabrica-se-o, por tudo e por nada, incentiva-se-o, sobretudo em épocas de crise ou em situações amotinadas de conflitos de interesses, alguns deles tão ridículos quanto inimagináveis.
Longe de mim usar esta página para ampliar as risadas que certas atitudes provocam ao público minimamente esclarecido. Pelo contrário, como já o declarei noutras ocasiões, respeito as fés de cada qual, seja o europeu, o asiático, o hindu, o muçulmano ou o empoladamente  agnóstico. Mas tal reverência gratuita não me impede de verificar e frontalmente exprimir que, na maior parte dos sedentos de milagres, o que neles está em causa é uma demissão da fé na força energética do Universo, obra do Criador. E, daí, a devota submissão ao culto do menor esforço.
E porque não pretendo convencer ninguém, apenas mostrar a realidade, citarei dois casos - frescos da hora – ridiculamente demonstrativos da irracionalidade deste “reverso da medalha” e da ofensa feita a pessoas e coisas que se requerem sagradas.
Da imprensa espanhola de hoje, recortei a gravura supra-transcrita. Imaginem a legenda. Pois eu digo-vos. “Um jovem votante na sala da sua casa em Almonte onde montou um altar à Virgem”.  No corpo do texto, o repórter descreve a fé ardente daquele eleitor em Nossa Senhora para dar vitória ao seu partido. Deprimente, ridículo, direis. Mas existe. E com honras de 1ª página num periódico diário de grande tiragem nacional. Escuso-me de acrescentar comentários que quem me lê, certamente,  já os fez contra tamanha blasfémia de palmatória! Será que entre nós haverá cenas tão desajeitadas quanto insultuosas à Fé?
Então agarrem-se à cadeira que lá vai esta, transcrita da 1ª página, com direito a foto (que tenho vergonha de reproduzir) num dos diários portugueses. ”Vim pagar uma promessa”. Uma senhora, com dois netinhos a seu lado, ostentava  um vistoso “círio de altura”. E  acrescentava a notícia: “Vim rezar pela nossa selecção”. O título não escondia nada e identificava: “Dona Dolores em Fátima”.
Para cúmulo, dois dias depois, nem o melhor do mundo marcou nem  a selecção ganhou aos caloiros da Islândia. Também sem comentários. Alguém ao meu lado sorria: “O melhor será a portuguesa Nossa Senhora de Fátima jogar contra a francesa Nossa Senhora de Lourdes”…
A tanto chega a deturpação da Fé, o esfarrapar do “milagre”!
         Para provar que, neste capítulo das crenças, há quem não tenha a coragem de dar um passo em frente, adiciono a surpresa que tomou conta de mim, na Senhora da Aparecida, Brasil, em 1972, quando no salão expositor de “promessas” vi uma enorme cruz de madeira, 5 metros de comprido,  e um cartão junto: “Eu,…. carreguei aos ombros esta cruz desde…, porque  a  prometi à Aparecida do Norte se o Brasil ganhasse  a copa do mundo”.  Nem queria acreditar no que via. E há séculos que andamos nisto…
Ridendo castigo mores – vem de longe o sábio aforismo. Oxalá que o evidente sarcasmo de certas atitudes, em Portugal, em Espanha, no Brasil, por esse mundo fora, nos areje o cérebro e o faça caminhar à conquista da Verdade Plena!

15.Jun.16
Martins Júnior

  

segunda-feira, 13 de junho de 2016

OS DOIS “FERNANDOS” DO 13 DE JUNHO: QUAL DELES O MAIOR?!

 

Em 13 de Junho, olhar a cidade entre a colina do Castelo e a de Santa Catarina, ao Camões, alguém nos prende desde o miradouro da História e interpela-nos de viva voz: “Estamos Aqui”!
“Estamos”. Os dois Fernandos: um, nascido em 1188 (1191/1195?)  outro, em 1888. Este, Fernando Pessoa. Aquele, Fernando de Bulhões, por parte da mãe, (descendente de Godofredo de Bulhões) ou Fernando Martins, por parte do pai Martim.
Fico de pés cravados ao vão dessa ponte, maior que a de Vasco da Gama, a ponte de sete séculos que os separa e nos une no deslumbramento de quem pisa o solo que eles pisaram e onde deixaram pegadas de oiro e luz até hoje e até sempre.
13 de Junho! Morre Fernando, o Primeiro, que tomou o nome de António de Lisboa ou de Pádua. E nasce Fernando, o Segundo, “o enigma em pessoa”, na designação que lhe atribuiu o poeta e crítico brasileiro Frederico Barbosa.
Quem não ficaria emocionado, em mística levitação, ao passar, como hoje estou passando,  junto à Sé de Lisboa, na capela que lhe deu o título, lugar onde nasceu Santo António e, mais adiante, no Largo do Chiado, em cuja Igreja dos Mártires Joaquim de Seabra  Pessoa e D. Maria Magdalena Pinheiro baptizaram aquele que viria a ser “o mais universal dos poetas portugueses” e lhe puseram o nome original do santo taumaturgo – Fernando.     
Dois génios do pensamento, da palavra, das profundezas da condição humana! Mais que todos os monumentos, mausoléus, esculturas e altares, eles irrompem das pesadas lousas marmóreas e erguem-se, majestosos arcanjos tutelares da Pátria, abraçando no Atlântico todos os mares e continentes. Só em pensar que foram eles -  e continuam a ser – os inquebráveis satélites que hasteiam pelo mundo fora a bandeira de Portugal e vencem nebulosas seculares, só em pensar nisso, deixa-nos extasiados de prazer e poesia.
Qual deles o maior?- interrogo. E… qual deles o maior! – exclamo.
Hei-de dedicar algum dia o melhor esforço para descobrir em cada um deles traços de identidade mútua, porque neles se personifica o velho aforismo: muito mais é o que os une que aquilo que os separa.
Tal como o próprio Mensageiro Fernando cantou de D. Filipa de Lencastre – “que enigma havia no teu seio que só génios concebia”? – assim também, de Lisboa perguntarei: Que segredo houve no teu terro, que princípio activo, denominador comum, te fez produzir duas almas gémeas e gigantes, unidas pelo cordão umbilical de sete séculos de História?! 
Por hoje, além da coincidência de dois espíritos irrequietos, viajantes de continentes, apenas sintetizarei o percurso intelectual de Fernando de Bulhões e de Fernando Pessoa. Na obra do primeiro, António de Lisboa, cultor e investigador da natureza, desde os animais terrestres aos marinhos, vejo-o reproduzido no “Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro. Pelo conhecimento da antiguidade clássica, greco-romana, os seus filósofos e estetas, aproximo-o das Odes de Ricardo Reis. E pela visão emancipadora da nova sociedade medieval, em que António de Pádua combateu a prepotência especuladora dos mais ricos, saindo vigorosamente em defesa do campesinato, os proletários de então, descubro aí o mesmo verve  interventivo de Álvaro de Campos.
Irmanados pelo “13 de Junho” e aproximados na tumba (nenhum alcançou o meio-século de idade) a ambos agradeço esta celebração interior, em contraponto ao bulício superficial das Festas Populares, “com que o vulgo néscia se engana” ou, ao menos, deles se esquece.
O funeral do amigo Paquete de Oliveira protagonizou-me este reencontro com o outrora e o amanhã, pelas mãos dos dois Fernandos imortais.

 Lisboa, 13.Jun.16
  Martins Júnior  

sábado, 11 de junho de 2016

A VIAGEM SEM TERMO DE PAQUETE DE OLIVEIRA


Hoje,  não me sento agora à noite, como esperava,  na amurada do Senso&Consenso.
Vejo passar a Nau  e sigo viagem com o José Manuel à proa.
Gente  como ele nunca deita âncora, anda sempre em viagem.
Quantos portos, enseadas e nortadas, ventos cruzados,  depressões e naufrágios  à profundidade  dos fundos marinhos. Mas, à superfície,  apenas o rasto azul do leme seguro em águas mansas.  
Atravessava  cabos de Tormentas como quem  olha  promontórios de Esperança!
Melhor que na cédula do registo lhe quadra agora a marca de origem: Paquete em ferro forjado transportando vitoriosas  Oliveiras da Vida e da Paz.
Se o telefone tocar, outra vez, em 20 de Outubro, sou eu que navego à popa e canto parabéns às oitenta voltas. que a Nau deu ao mundo.
A Nau que, para nós, anda sempre em viagem…

11.Jun.16

Martins Júnior, mareante.  

quinta-feira, 9 de junho de 2016

“VEJAM AGORA OS SÁBIOS NA ESCRITURA, QUE SEGREDOS SÃO ESTES DE NATURA” – Breve passagem pela estação dos “milagres”

                          

Não sei que motivação maior levou a que mais de dois mil  leitores seguissem, ontem e hoje, o meu último SENSO&CONSENSO. Imagino que pelo tema nuclear – o “Mercado Quinhentista” – e, secundariamente, pelo subtítulo “Milagre” da Escola pública.
Diga-se, desde logo, que a fenomenologia do “milagre” está na moda, sobretudo a nível religioso, com a proximidade do centenário de Fátima, procissões e velórios nocturnos por cidades e aldeias. E também a nível psicológico, em que as actuais circunstância económicas, sociais, fragilizantes ( como classificou o autor da “Sociedade neurótica do nosso Tempo”) deixam parte do nosso colectivo mergulhado na impotência, quando não na depressão. É aí que suspiramos pelo “milagre”.
Pois é sobre o “Milagre” que hoje me debruço. Não o fenómeno aleatório, mítico, obsessivo que por aí se vende nas feiras da superstição. Falo do outro, o milagre da ciência, da investigação, da ousadia sublimada à conquista do lume dos deuses, como o Prometeu Agrilhoado de Ésquilo na mitologia grega ou da árvore da sabedoria do Paraíso Terreal. É desse milagre, dessas conquistas avassaladoras que o intelecto humano descobriu e continua, inebriado,  na espiral infinita do conhecimento.
Entro já e convido-vos a franquear os umbrais desse reino, desse Admirável Mundo Novo.
O primeiro, mais quente, tão quente que nos arde a mente e o coração: “Em Portugal, nasce uma criança perfeita, de dois quilos e trezentos e cinquenta gramas… nasce do ventre da sua mãe, morta há mais de três meses” .
Quem não estremece  de espanto?... Quem não grita de assombro e júbilo diante da Morte que desabrochou na Vida?... Quem não  procura o santo ou a santa milagreira para deitar no seu altar a promessa, a vela, a oferta?... Não está longe a ara do Grande Taumaturgo, está pertinho de nós: é  a cama de um hospital, apaixonadamente abraçada por uma equipa de médicos em redor de uma mulher em morte cerebral declarada! E agora digam que o Homem não tem o poder de ressuscitar, neste caso, de transformar em vida o pálido fruto da morte. Ou então, chamo aqui a voz de há quinhentos anos, Luiz Vaz de Camões: “Vejam agora  os sábios na Escritura, que segredos são estes da Natura?” (Canto V, 22)  E a equipa médica já esclareceu: “Não foi um milagre, mas um avanço da ciência e da capacidade de multidisciplinaridade e eficácia de uma equipa. Não são só os médicos, mas os enfermeiros, os nutricionistas, os farmacêuticos e todos os profissionais que contribuíram para este êxito”,
Estamos rodeados de milagres vivos à nossa beira. O que falta é quem abra os olhos e a mente para achá-los, identificá-los e pô-los ao serviço do Homem. Podia enumerar uma enciclopédia de casos, colhidos no quotidiano. Por isso que  a aposta no saber, a apetência suscitada desde os bancos da escola, enfim, a cultura  no seu sentido holístico devem  primar no topo dos programas escolares e na educação do Povo, em vez de o anestesiar com subterfúgios bentos, que mais não são que o culto  da lei do menor esforço.
Trago dois depoimentos insofismáveis. Um deles, do famoso neurocirurgião  britânico Henry Marsh, protagonista do documentário da BBC Your Life inthe Their Hands, o qual não sendo religioso e não crendo em milagres, reconhece e acusa a sociedade de hoje, com este veredicto: “Sabemos mais da lua do que do nosso cérebro”.  Na mesma linha, ontem, Dia dos Oceanos, uma equipa de especialistas em oceanografia, estimulava  a comunidade científica  a debruçar-se sobre a magnitude, ainda  desconhecida, da riqueza oceânica, nestes termos: “Lamentavelmente, conhecemos mais da crosta da lua que dos fundos dos nossos mares”.
Bem poderia voltar até nós  Alexis Carrel,  Prémio Nobel da Medicina, em 1912,   e reescrever o imortal testemunho do seu livro L’Homme, Cet Inconnu -“O Homem, esse Desconhecido” – para iluminar a imensa floresta do conhecimento, em cujo subsolo se encontra o segredo dos grandes milagres que o Criador colocou ao serviço da Humanidade – são  os “tais segredos da Natura” que os Sábios da Escritura  preguiçosamente não vêem nem sabem, porque não procuram decifrar. Bem a propósito foi a frase do Francisco Papa que reconheceu as muitas pessoas para quem “a natureza é uma igreja”.
Esta mensagem fica incompleta sem o seu reverso. Deixá-lo-ei  para outra altura.

09.Jun.16

Martins Júnior

terça-feira, 7 de junho de 2016

MERCADO QUINHENTISTA EM MACHICO: “Milagre” da Escola Pública



“Alvíssaras! Arraial, Arraial  Por El-Rei de Portugal”.
É o eco que irrompe das velas enfunadas dessoutra  “Nau Catrineta” que aportou a Machico e reboou por todo o extenso vale. Em três dias, seiscentos anos perpassaram no Ancoradouro das Terras de Tristão Vaz.
Para quem viveu, há 38 anos, a evocação miniatural mas ambiciosa, da chegada dos marinheiros do Senhor Infante às penedias da enseada de São Roque  não pode deixar de emocionar-se com a portentosa gesta que a Escola de Machico levou a cabo, neste XI “Mercado Quinhentista”. Recordo com saudade esse, também memorável porque inédito, “Espectáculo de Luz e Som”  em que os cronistas da época – Zurara, Gaspar Frutuoso, João de Barros, Damião de Góis – apareceram ditando o relato das suas crónicas sobre o Achamento da Ilha. A representação cénica de excertos do “Infante de Sagres”, de Jaime Cortesão, no Largo de São Roque,  coroou a noite branca na baía de Machico. A obra então publicada – “Aquele Espesso Negrume”  -  reproduz um apontamento fotográfico do evento. Ainda soa aos meus ouvidos a “voz” de Zargo ao gritar a palavra de ordem “Oh São Lourenço, chega”! Era a nau que temia aproximar-se da ponta que “mais tarde tomou o seu nome”.
Os organizadores do “Mercado Quinhentista” desculpar-me-ão  este retorno a um passado recente, mas saibam, por isso, quanto louvo e enalteço a iniciativa actual, pelo que contém de beleza, de verdade histórica, de pedagogia ao vivo, enfim, da mais ampla integração geracional. É, sem sombra de dúvida, o maior ex-libris de uma cidade que abarca cultura, nobreza e povo, senhores e oficiais dos mesteres, a terra e o mar, numa palavra a aventura da ciência, aliada à força braçal do homem.
Ao contemplar o magnífico desfile, primoroso e abrangente, transpu-lo para os dias de hoje e, com mais acuidade, incutiu no meu consciente uma clara convicção adaptada ao dilema que domina todo o país. E concluí: Só uma Escola Pública seria capaz de levar a bom termo tamanha iniciativa. Precisamente porque é Pública, ela torna-se igualitária, aberta, interclassista e universalista, aglutinadora de gerações e dos vários contextos civilizacionais da população circundante. Duvido se uma escola privada, de índole elitista e naturalmente selecctiva, teria vocação para abarcar o vasto mundo integrativo, não só do concelho de Machico, mas de outros cenários mais distantes, entre os quais Portugal Continental e o Arquipélago dos Açores, convidados presentes na gloriosa efeméride.
                                                    


As maiores congratulações para professores e alunos, grupos e associações locais. E se algum desejo me for permitido exibir, seja este apenas: Que nunca o “Mercado Quinhentista” saia da vossa mão. Quero dizer, que seja sempre o filão sócio-cultural  nascido da sua fonte originária – a Escola. Quem quiser que venha. Mas venha por bem, para associar-se e ajudar, nunca para oficializar, regionalizar ou  municipalizar. Sob pena de perder a sua força anímica, a seiva telúrica que lhe deu o ser.       
Bem hajam!   

07.Jun.16

Martins Júnior

domingo, 5 de junho de 2016

HOJE HÁ SOL NA PAISAGEM


Hoje entronizo o sol no meu acampamento. Quero-o, livre e dominador, cada hora das vinte e quatro do alto da torre-de-menagem. Eu sei que sombras letais povoam, como aves agoirentas, os pulmões do planeta. Eu vejo os monstros do Apocalipse atravessar os meridianos que nos comprimem, vejo-os esmagar vítimas inocentes, aqui, acolá, mais além.
Mas hoje tenho de abrir as portas e janelas da minha tenda e deixar entrar toda a luz que dança à minha porta.
Porque hoje é o dia de respirar o verde, o Dia do Ambiente, entender a melopeia serena do ribeiro que corre, mergulhar na água agridoce que inunda a terra e os corpos. Imagino-me mais um entre os pássaros volitantes, mais um entre os peixes multicolores, meus braços feitos barbatanas iguais a esse reino oceânico, na sua nudez azul  que me chega de graça ao portal do meu terreiro. E, tal como  o “Guardador de Rebanhos”, estiro-me ao longo da relva e sinto-me irmão de todos os seres que contemplam o mesmo sol.
Porque hoje, o 5 de Junho estende  a cândida alcatifa que as mãos e as vozes das Crianças prepararam desde o seu Dia, 1 de Junho, em defesa das Crianças  inocentes Vítimas da Agressão que todo o mundo assinalou ontem, 4 de Junho. O protesto de ontem quero vê-lo, hoje,  mudado em palmas e cânticos.
Porque hoje, nesta capitania primeira, viveu-se em pleno o nascer do sol  para a história desta ilha, no Mercado Quinhentista. Mais uma vez, a escola, mais uma vez as crianças e os seus mestres, ensinando sempre a respirar as brisas de outrora.
Porque hoje guardo as novas vidas de jovens, homens e mulheres, que nasceram dos  que há quase cinquenta anos venceram as minas e as injustiças para que foram arremessados. Guardo comigo as emoções do convívio de ontem, sábado, em terras continentais. O sol das plainas orientais voltou a deitar filhos e netos em solo pátrio.
Porque hoje,  Crianças de alma pura tiveram o seu Dia Novo da Comunhão Infantil, a Primeira,  juntamente com os colegas que se lhes associaram,  realizando a Comunhão da Adolescência, no ambiente franco e aberto do templo da sua Ribeira - Seca, de nome, mas alagada de sol e alegria.
Deixem entrar a luz e só ela na minha tenda, onde acampo e luto todos os dias para que a noite se faça manhã.
Hoje ficarei vigilante, de pé, esperando a aurora boreal que me sustenta e me conduz!

05.Jun.16
Martins Júnior