terça-feira, 21 de junho de 2016

“DENTRO OU FORA DE JOGO” : eis o grande desafio na Europa de hoje.


Não passa de mera curiosidade prática o saber se, por essa Europa fora, o futebol invade assim as estações  de TV, chegando ao ponto de ver-se este pequeno rectângulo que é Portugal reduzido às quatro linhas do rectângulo-estádio com onze homens, de verde e vermelho,  a marcar a manhã, a tarde e a noite de um país. Quando às portas da Europa se acercam nuvens sombrias que nos atingem logo de entrada, é de uma tremenda insensibilidade ter de “aturar” nada menos que quatro ou cinco “mesas residentes”, a botar enfadonhas faladuras sobre  o mesmo vaivém de um couro redondo, o único que pode orgulhar-se de dizer: “quanto mais me bates, mais gosto de ti”. Comentadores de todos os uniformes – treinadores e ex-jogadores, advogados e escribas,  políticos e pavões, diariamente são entre 20 e 25 - todos se esticam, mais o pescoço que as mãos, a lobrigar o milímetro do paralelo imaginário do “fora-de-jogo” ou o porquê de o ferro da baliza não se ter alargado mais uns centímetros. É caso para perguntar:  Será daí, do relvado e das chuteiras, que virá a solução para Portugal, para a Europa?  É aí que se esgota a bandeira do nosso patriotismo de 24 sobre 24 horas?
A Europa está  em pleno bloco operatório, à espera de ver-se amputada de um dos seus braços mais saudáveis e seguros. É o nevrálgico Brexit que conhecerá, depois de amanhã o desfecho histórico: “In or Out” – eis a questão, diria hoje Shakespeare. Na mesma “marquesa” da cirur4gia  está também Portugal, queira ou não queira.
Não vou desdobrar diagnósticos possíveis para este confronto.   Sabe-se que no lado do Out, puxando para a rua, estão os que resistem ao comando de tecnocratas não eleitos,  sediados em Bruxelas. Estão também os artífices da economia de base, entre os quais os pescadores, que não se conformam com as quotas impostas pela EU. Do lado do In estão os experts da macroeconomia, o FMI, o BCE, a Banca e seus satélites, o mercado, a moeda, a abolição de fronteiras, a paz entre as nações. Ambos têm razão. Repetindo Gilbert Cesbron, “É o drama deste mundo: todos têm razão”.  O patriotismo exacerbado, que não olha a meios, vai mais longe e  lança mão da arma branca que tem à mão, o populismo. E aponta a mola contra os imigrantes e o terrorismo, em síntese, a campanha do medo.
Trata-se, segundo António Navalon, de um autêntico “Tsunami Político”. Acusa Cameron de um mal-calculado “esticar da corda”, perigoso porque inoportuno,  por parte de David Cameron, como seja o de transformar conflitos regionais em “guerras campais” europeias e transatlânticas. Pensemos, entre outros,  no diferendo entre os dois presidentes de Londres, o ex, Boris Johnson, pelo Out,  e o seu rival recém-chegado ao cadeirão municipal,   o muçulmano Sadiq Khan, pelo In. Até há uma semana, o Out levantava bandeira nas sondagens, somando todas as vantagens, múltiplas, como sublinhava um analista: “O Reino Unido tem o melhor de dois mundos: integrou-se no Mercado Comum e livrou-se do pior, o euro”.
Mas um acto macabro alterou o desequilíbrio do voto de mais de 60 milhões de britânicos: o assassinato da deputada Jo Cox, defensora dos imigrantes,  por um demente fanático  do Out.  Relâmpago a toldar cérebros e dogmas:  a avassaladora força de factos marginais!  Até o já citado  Boris Johnson mudou de argumentação e passou a afirmar: “Agora eu próprio sou pela imigração, sou pelos imigrantes. Mas, mesmo assim,  apelo ao Brexit, pela saída do Reino Unido”.
Longas seriam as análises que podemos consultar na vasta e contraditória literatura sobre o assunto. Como vasta e contraditória é esta Europa em que cujo bojo – há quem lhe chame Titanic – entrámos. Mas a mais sensata declaração que li sobre tão dramática circunstância foi a do presidente do Parlamento Europeu, Martin Shulz: “Chegou a hora de repensar a Europa. Definitivamente”!
Sejam quais sejam as teses e as engenhosas elucubrações que se possam tecer, há um vírus intrínseco ao mafioso cérebro de Bruxelas e seus pares:  o capitalismo financeiro. E a capacidade mimética deste monstruoso polvo  vai ao requinte de apresentar-se como benemérito dos países pobres. Ajuda-os, cativa-os, deita-lhes a mão, com aparentes facilidades e empréstimos. Mas com uma condição: “Que nunca deixem de precisar de nós, magnatas da finança”… “Nunca permitiremos a tua emancipação, muito menos os instrumentos para viveres por ti próprio. Será sempre o pobre e o pedinte, a nossos pés” -  é o que dizem e fazem a Portugal, à Grécia, à Itália, à Espanha. Recorrendo a todos os truques e sofisticados estratagemas, como os  ratings e os aleatórios juros da dívida.
É para esta capciosa, satânica engenharia , que devem olhar os países que integram a CE, muito especialmente, o Sul europeu. Por isso, a palavra de ordem não será sair,  mas ficar para podermos alterar as regras deste jogo sujo, desta “economia que mata”.  Submeter-se como escravo mudo é o mesmo que viver numa morgue rotulada de hotel. Bem fazem os governos que batem o pé. Somos pobres, mas com o direito de sermos autónomos e tratados com dignidade!
Mesmo desconhecendo o resultado de depois de amanhã, valeu a pena esta sacudidela gigante do Reino Unido que pôs o mundo em sobressalto. Efeito colateral foi  a decisão histórica que passou a dar ao  Banco Central Europeu o poder e obrigação de comprar dívidas soberanas que asfixiam a economia dos países devedores.
Tenho para mim que nada será igual na Europa do pós-referendo britânico de 23 de Junho.   

21.Jun.16

Martins Júnior

domingo, 19 de junho de 2016

ENTRE DOIS SÓIS, VEJO PASSAR GANDHI, FRANCISCO E OS ABUTRES


Quanto me consolaria hoje abrir as persianas da vida e deixar entrar o sol aos borbotões nesta sala oval que é o nosso  planeta, através do SENSO&CONSENSO deste dia ímpar! E acabo de constatar que o 19 de Junho traz-me, no antes e depois, tudo quanto preciso para cantar o Sol. Antes - o 18 de Junho - marca um ano da publicação da Magna Carta do Papa Francisco sobre a questão ambiental, a encíclica Laudato Si, “Sejas Louvado”, Senhor!  Amanhã - 20 de Junho - chega-nos o solstício do Verão - e faz a  entrada triunfal, em toda a sua força e esplendor.
É ao primeiro aniversário dessa luz projectada do coração e da mão do Argentino que vou dedicar o encontro de hoje. Que olhar potente e iluminante o do nosso líder sócio-religioso! Com a preciosa colaboração dos cientistas,  ele desceu ás profundezas dos oceanos, calcorreou os caminhos sinuosos da terra que habitamos, subiu até às galáxias do pensamento humano e trouxe-nos o lume dos deuses, a interpretação do universo, enfim, a chave do futuro – esse futuro que inevitavelmente temos de passar para as mãos das gerações vindouras.
Remeto os meus amigos para a leitura desse texto histórico, para o toque a rebate que ele significa e para as exigências do Homem perante o solo, o subsolo, a indústria transformadora, a higiene alimentar, o ar que respiramos. À mensagem de Laudato Si junto os oásis de frescura que as incontáveis atitudes do Pontífice nos têm aberto e, em consequência, os vulcões libertadores que as suas palavras  têm projectado para expelir as excrescências com que os humanos inquilinos têm poluído a terra e cerceado vidas. Recorto algumas das últimas dessas lavas positivamente incendiárias, porque purificadoras, sobretudo quando Francisco se refere ao estilo parabólico da criação de Adão e Eva. Na mesma linha estão as declarações sobre esse mito aterrador (que povoou a nossa infância religiosa e continua a atordoar os espíritos incautos de hoje) conhecido por fogo eterno do inferno. Que dignidade, que honestidade intelectual e  que coragem, plenamente demonstrativas de alguém que veio, como Novo Messias, neutralizar o stress endémico que a Igreja  criminosamente injectou nos ossos e nas consciências dos cristãos.
Tão cedo, o mundo conhecerá outro igual!
E, como em tudo, onde há luz também há sombras, dou comigo a bater com a cabeça na parede a perguntar: Mas, afinal, onde estão os seus seguidores, aqueles que têm por dever de ofício caminhar nas pegadas do seu “protótipo e líder”?... Onde se acoitam os mais próximos?... É desolador e revoltante constatar que a grande maioria das estirpes eclesiásticas anda anestesiada, propositadamente a assobiar para o lado oposto e até militantemente hostil à campanha  heróica deste Papa. O jornal “El Mundo” traz hoje uma reportagem sobre (cito este, entre muitos) o “atrasadíssimo cardeal de Valência, Espanha, António Cañizares, a quem chama  um ‘Cardeal de Pedra’, tal a hostilidade e a insensibilidade  para os problemas do mundo de hoje”.
Falo de Cañizares, como poderia falar de outros chamados dignitários eclesiásticos à nossa porta, desses que o grande teólogo Bernard Haring coerentemente invectivava, classificando-os de “bispos e padres-polícias, moralistas e moralizantes, fiscais, curandeiros, os ritualistas, de “observância escrupulosa, até aos pontos e vírgulas, que causam a morte da alegria”.  Mais acutilante foi o Papa Francisco quando chamou aos cardeais, “os corvos do Vaticano”.
Ao contemplar esta surda conspiração contra este Homem, único, em vinte e um séculos da Igreja, retenho as palavras de Gandhi: “Adoro Cristo, mas odeio os cristãos”. Poderia acrescentar: Curvo-me, “adoro” este Papa, mas detesto cardeais, bispos e padres que estão a dificultar-lhe e a minar  este caminho de luz e libertação que ele traz ao mundo. Porque continuam a cegar-nos  os olhos, a fomentar a compra de Deus com velas, missas pelas almas do Purgatório, bentinhos e quejandos, como se a Divindade fosse vendável e estivesse à espera de execráveis subornos.
Só os cristãos de base poderão abrir clareiras na escuridão para fazer passar o Libertador. Como? Intervindo activamente nas suas comunidades e dioceses  ou, em contrapartida,  deixando desertos os templos, como já está  acontecendo. A responsabilidade é nossa!
Entre a  Laudate Si e o solstício de verão, deixo  esta homenagem e ajudo a passar por aqui, brilhante e criador, o Sol de Francisco Papa!

19.Jun.16
Martins Júnior
   


sexta-feira, 17 de junho de 2016

O “MILAGRE” QUE PASSOU DUAS VEZES PELA MADEIRA – E PROMETE PASSAR DE NOVO

       Afeiçoei-me, nos meados de Junho, ao brilho deste vocábulo, tão estranho e tão quotidiano ao convívio dos mortais – o “milagre”. Hoje tentarei alcançar o terceiro degrau desta escada que iniciei desde a semana passada.
Seduzidos pelo título, alguns crentes pensarão logo no andor da Senhora de Fátima que cá esteve em 2010 e reapareceu em 2015. Ou que voltará no centenário da aparição de 1917. Mas não. Basta um pouco de discernimento prático para não deixarmos eclipsar  a “cabecinha pensadora” que temos em cima dos ombros. Com efeito, se interpretarmos o conceito de “milagre” como um bem apetecido, uma dádiva consoladora, o andor da Peregrina em 2010 só nos trouxe, por trágica coincidência,  destruições e mortes barbaramente  arrastadas no 20 de Fevereiro e cujas feridas ainda continuam abertas na paisagem e nas pessoas.
É, pois, a um outro fenómeno que me refiro. Este, tão insignificante, tão silencioso na passagem, tão “deprimente”  no aspecto que quase nem demos por ele. Passou por cá, pisou o chão da ilha, desceu ruelas do passado. Paralítico, enfezado, disforme do comum dos humanos, a cabeça insegura, caída sobre o ombro direito, à procura de apoio. Um comovente exemplar dessa doença degenerativa incurável que dá pelo nome de “esclerose lateral amiotrófica”.
E, no entanto, ele é um portentoso “milagre” do voluntarismo, aliado dos heróis. Melhor desvendar já o enigma, o “milagre”. Trata-se de Stephen Hawking, o génio da matemática, da física, da mecânica quântica, da termodinâmica, fundador do Centro de Cosmologia Teórica da Universidade de Cambridge, onde ocupou a cátedra de Isaac Newton ( a quem o nosso Álvares de Nóbrega cognominou de “Ave Real”) famoso astrónomo do século XVII. Impossível descrever a “Enciclopédia do Saber” que é Stephen Hawking, desde as incursões cosmológicas, aos prémios internacionais, até à participação na cinematografia, destacando-se a monumental obra God Created the Integers, a confirmação dos buracos negros interplanetários e da teoria do BigBang, que revolucionou as teorias creacionistas do Universo, na esteira de Albert Einstein e das ondas gravitacionais que cada vez mais ganham actualidade.
Fico-me por aqui no breve desenho da sua genial personalidade. Ele passou por cá. Em Santana. No Funchal fez a descida nos carreiros do Monte. Ele “viu-nos” e nós nem demos por ele. Foi a segunda vez. Aconteceu em 9 de Junho pp., em notícia de DN. E prometeu visitar a ilha por uma terceira vez. Fosse um jogador de bola ou um cantor pimba e teria toda a comunicação social a seus pés…
Entretanto, perguntareis vós: “Mas onde é que está o “milagre”?
O “milagre” já comecei a descrevê-lo nos primeiros parágrafos. E completo agora: “Aos 21 anos foi-lhe diagnosticada a doença cruel, fez uma traqueostomia e desde então usa um sintetizador de voz para comunicar. Foi perdendo o movimento de braços e pernas, assim como o resto da musculatura, incluindo a força para manter a cabeça erguida” ... Porém, um privilégio ímpar coroou tamanha fatalidade: não foram atingidas as funções cerebrais. E foi daqui, desse minúsculo globo, o cérebro,  tão misterioso quanto todo o Universo, que Stephen Hawking iniciou a gigantesca escalada dos Himalaias do Saber, alcançando cumes que outros, organicamente perfeitos, nunca conseguiram. A incomensurável potência da Vontade, impressa no cérebro humano! Que “milagre” maior queremos nós?... Muitos milhares, milhões, biliões ter-se-iam deixado ficar inertes, entravados, desesperadamente amortalhados numa enxerga ao abandono. Ele, não! Soergueu-se das próprias cinzas. Ele é um laboratório vivo da ciência em benefício de futuros pacientes. Ele empunhou, destemido, o “milagre” nos ombros quebradiços!
Falta um pouco mais. Stephen Hawking professa um ateísmo científico, fundamentado nas suas descobertas. E afirma: “O universo é governado pelas leis da ciência. As leis podem ter sido criadas por um Criador, mas um Criador não intervém para quebrar essas leis… Há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade, e a ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona”. Palavras pesadas para as nossas convicções e a ponderar seriamente...  Apesar disso, porém , (surpresa das surpresas!) em 9 de Janeiro de 1986, o Papa João Paulo II nomeou Stephen Hawking para  Membro da Academia Pontifícia das Ciências.
Eis o “Milagre” que o Criador colocou na mão do Homem!
Nós somos também esse “milagre” em gestação. Cada um de nós.  Basta querer e agir. Apetecer-me-ia terminar com o poema que fez parte do nosso (do meu)  ideário desde os tempos da juventude, o “If”  - “Se” - escrito em 1895  por Rudyard Kipling, Nobel da Literatura, de que recorto o seguinte excerto:
…………………..
“Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço, há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a Vontade a comandar “avante”…
……..Alegra-te, meu filho, Então serás um Homem”!
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17.Jun.16
Martins Júnior!

  

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O REVERSO DO “MILAGRE”


Antes que me embrenhe em temas e problemas que todos os dias nos caem diante dos olhos – e há-os tantos nestas últimas horas – vou cumprir o acordado desde o dia 9 .p., ou seja, mostrar o reverso da medalha no tocante àquilo a que costumamos designar por “milagre”. Nesse texto, procurei  analisar as inexploradas potencialidades do Homem, detectando nalguns casos fenómenos abissais, merecedores daquela designação. No cérebro e na mão dos humanos mortais está o segredo de “ver o invisível” e, com o próprio esforço, transformar em realidades concretas o que julgávamos antes sonhos impossíveis, milagrosos.
Mas há o tal reverso da medalha. A par das estrondosas  evidências que a ciência nos tem revelado, subsiste em certas mentalidades e com a mesma dimensão a apetência doentia pelo sensacional, quase até ao absurdo, enfim, a obsessão pelo “milagre”. Fabrica-se-o, por tudo e por nada, incentiva-se-o, sobretudo em épocas de crise ou em situações amotinadas de conflitos de interesses, alguns deles tão ridículos quanto inimagináveis.
Longe de mim usar esta página para ampliar as risadas que certas atitudes provocam ao público minimamente esclarecido. Pelo contrário, como já o declarei noutras ocasiões, respeito as fés de cada qual, seja o europeu, o asiático, o hindu, o muçulmano ou o empoladamente  agnóstico. Mas tal reverência gratuita não me impede de verificar e frontalmente exprimir que, na maior parte dos sedentos de milagres, o que neles está em causa é uma demissão da fé na força energética do Universo, obra do Criador. E, daí, a devota submissão ao culto do menor esforço.
E porque não pretendo convencer ninguém, apenas mostrar a realidade, citarei dois casos - frescos da hora – ridiculamente demonstrativos da irracionalidade deste “reverso da medalha” e da ofensa feita a pessoas e coisas que se requerem sagradas.
Da imprensa espanhola de hoje, recortei a gravura supra-transcrita. Imaginem a legenda. Pois eu digo-vos. “Um jovem votante na sala da sua casa em Almonte onde montou um altar à Virgem”.  No corpo do texto, o repórter descreve a fé ardente daquele eleitor em Nossa Senhora para dar vitória ao seu partido. Deprimente, ridículo, direis. Mas existe. E com honras de 1ª página num periódico diário de grande tiragem nacional. Escuso-me de acrescentar comentários que quem me lê, certamente,  já os fez contra tamanha blasfémia de palmatória! Será que entre nós haverá cenas tão desajeitadas quanto insultuosas à Fé?
Então agarrem-se à cadeira que lá vai esta, transcrita da 1ª página, com direito a foto (que tenho vergonha de reproduzir) num dos diários portugueses. ”Vim pagar uma promessa”. Uma senhora, com dois netinhos a seu lado, ostentava  um vistoso “círio de altura”. E  acrescentava a notícia: “Vim rezar pela nossa selecção”. O título não escondia nada e identificava: “Dona Dolores em Fátima”.
Para cúmulo, dois dias depois, nem o melhor do mundo marcou nem  a selecção ganhou aos caloiros da Islândia. Também sem comentários. Alguém ao meu lado sorria: “O melhor será a portuguesa Nossa Senhora de Fátima jogar contra a francesa Nossa Senhora de Lourdes”…
A tanto chega a deturpação da Fé, o esfarrapar do “milagre”!
         Para provar que, neste capítulo das crenças, há quem não tenha a coragem de dar um passo em frente, adiciono a surpresa que tomou conta de mim, na Senhora da Aparecida, Brasil, em 1972, quando no salão expositor de “promessas” vi uma enorme cruz de madeira, 5 metros de comprido,  e um cartão junto: “Eu,…. carreguei aos ombros esta cruz desde…, porque  a  prometi à Aparecida do Norte se o Brasil ganhasse  a copa do mundo”.  Nem queria acreditar no que via. E há séculos que andamos nisto…
Ridendo castigo mores – vem de longe o sábio aforismo. Oxalá que o evidente sarcasmo de certas atitudes, em Portugal, em Espanha, no Brasil, por esse mundo fora, nos areje o cérebro e o faça caminhar à conquista da Verdade Plena!

15.Jun.16
Martins Júnior

  

segunda-feira, 13 de junho de 2016

OS DOIS “FERNANDOS” DO 13 DE JUNHO: QUAL DELES O MAIOR?!

 

Em 13 de Junho, olhar a cidade entre a colina do Castelo e a de Santa Catarina, ao Camões, alguém nos prende desde o miradouro da História e interpela-nos de viva voz: “Estamos Aqui”!
“Estamos”. Os dois Fernandos: um, nascido em 1188 (1191/1195?)  outro, em 1888. Este, Fernando Pessoa. Aquele, Fernando de Bulhões, por parte da mãe, (descendente de Godofredo de Bulhões) ou Fernando Martins, por parte do pai Martim.
Fico de pés cravados ao vão dessa ponte, maior que a de Vasco da Gama, a ponte de sete séculos que os separa e nos une no deslumbramento de quem pisa o solo que eles pisaram e onde deixaram pegadas de oiro e luz até hoje e até sempre.
13 de Junho! Morre Fernando, o Primeiro, que tomou o nome de António de Lisboa ou de Pádua. E nasce Fernando, o Segundo, “o enigma em pessoa”, na designação que lhe atribuiu o poeta e crítico brasileiro Frederico Barbosa.
Quem não ficaria emocionado, em mística levitação, ao passar, como hoje estou passando,  junto à Sé de Lisboa, na capela que lhe deu o título, lugar onde nasceu Santo António e, mais adiante, no Largo do Chiado, em cuja Igreja dos Mártires Joaquim de Seabra  Pessoa e D. Maria Magdalena Pinheiro baptizaram aquele que viria a ser “o mais universal dos poetas portugueses” e lhe puseram o nome original do santo taumaturgo – Fernando.     
Dois génios do pensamento, da palavra, das profundezas da condição humana! Mais que todos os monumentos, mausoléus, esculturas e altares, eles irrompem das pesadas lousas marmóreas e erguem-se, majestosos arcanjos tutelares da Pátria, abraçando no Atlântico todos os mares e continentes. Só em pensar que foram eles -  e continuam a ser – os inquebráveis satélites que hasteiam pelo mundo fora a bandeira de Portugal e vencem nebulosas seculares, só em pensar nisso, deixa-nos extasiados de prazer e poesia.
Qual deles o maior?- interrogo. E… qual deles o maior! – exclamo.
Hei-de dedicar algum dia o melhor esforço para descobrir em cada um deles traços de identidade mútua, porque neles se personifica o velho aforismo: muito mais é o que os une que aquilo que os separa.
Tal como o próprio Mensageiro Fernando cantou de D. Filipa de Lencastre – “que enigma havia no teu seio que só génios concebia”? – assim também, de Lisboa perguntarei: Que segredo houve no teu terro, que princípio activo, denominador comum, te fez produzir duas almas gémeas e gigantes, unidas pelo cordão umbilical de sete séculos de História?! 
Por hoje, além da coincidência de dois espíritos irrequietos, viajantes de continentes, apenas sintetizarei o percurso intelectual de Fernando de Bulhões e de Fernando Pessoa. Na obra do primeiro, António de Lisboa, cultor e investigador da natureza, desde os animais terrestres aos marinhos, vejo-o reproduzido no “Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro. Pelo conhecimento da antiguidade clássica, greco-romana, os seus filósofos e estetas, aproximo-o das Odes de Ricardo Reis. E pela visão emancipadora da nova sociedade medieval, em que António de Pádua combateu a prepotência especuladora dos mais ricos, saindo vigorosamente em defesa do campesinato, os proletários de então, descubro aí o mesmo verve  interventivo de Álvaro de Campos.
Irmanados pelo “13 de Junho” e aproximados na tumba (nenhum alcançou o meio-século de idade) a ambos agradeço esta celebração interior, em contraponto ao bulício superficial das Festas Populares, “com que o vulgo néscia se engana” ou, ao menos, deles se esquece.
O funeral do amigo Paquete de Oliveira protagonizou-me este reencontro com o outrora e o amanhã, pelas mãos dos dois Fernandos imortais.

 Lisboa, 13.Jun.16
  Martins Júnior  

sábado, 11 de junho de 2016

A VIAGEM SEM TERMO DE PAQUETE DE OLIVEIRA


Hoje,  não me sento agora à noite, como esperava,  na amurada do Senso&Consenso.
Vejo passar a Nau  e sigo viagem com o José Manuel à proa.
Gente  como ele nunca deita âncora, anda sempre em viagem.
Quantos portos, enseadas e nortadas, ventos cruzados,  depressões e naufrágios  à profundidade  dos fundos marinhos. Mas, à superfície,  apenas o rasto azul do leme seguro em águas mansas.  
Atravessava  cabos de Tormentas como quem  olha  promontórios de Esperança!
Melhor que na cédula do registo lhe quadra agora a marca de origem: Paquete em ferro forjado transportando vitoriosas  Oliveiras da Vida e da Paz.
Se o telefone tocar, outra vez, em 20 de Outubro, sou eu que navego à popa e canto parabéns às oitenta voltas. que a Nau deu ao mundo.
A Nau que, para nós, anda sempre em viagem…

11.Jun.16

Martins Júnior, mareante.  

quinta-feira, 9 de junho de 2016

“VEJAM AGORA OS SÁBIOS NA ESCRITURA, QUE SEGREDOS SÃO ESTES DE NATURA” – Breve passagem pela estação dos “milagres”

                          

Não sei que motivação maior levou a que mais de dois mil  leitores seguissem, ontem e hoje, o meu último SENSO&CONSENSO. Imagino que pelo tema nuclear – o “Mercado Quinhentista” – e, secundariamente, pelo subtítulo “Milagre” da Escola pública.
Diga-se, desde logo, que a fenomenologia do “milagre” está na moda, sobretudo a nível religioso, com a proximidade do centenário de Fátima, procissões e velórios nocturnos por cidades e aldeias. E também a nível psicológico, em que as actuais circunstância económicas, sociais, fragilizantes ( como classificou o autor da “Sociedade neurótica do nosso Tempo”) deixam parte do nosso colectivo mergulhado na impotência, quando não na depressão. É aí que suspiramos pelo “milagre”.
Pois é sobre o “Milagre” que hoje me debruço. Não o fenómeno aleatório, mítico, obsessivo que por aí se vende nas feiras da superstição. Falo do outro, o milagre da ciência, da investigação, da ousadia sublimada à conquista do lume dos deuses, como o Prometeu Agrilhoado de Ésquilo na mitologia grega ou da árvore da sabedoria do Paraíso Terreal. É desse milagre, dessas conquistas avassaladoras que o intelecto humano descobriu e continua, inebriado,  na espiral infinita do conhecimento.
Entro já e convido-vos a franquear os umbrais desse reino, desse Admirável Mundo Novo.
O primeiro, mais quente, tão quente que nos arde a mente e o coração: “Em Portugal, nasce uma criança perfeita, de dois quilos e trezentos e cinquenta gramas… nasce do ventre da sua mãe, morta há mais de três meses” .
Quem não estremece  de espanto?... Quem não grita de assombro e júbilo diante da Morte que desabrochou na Vida?... Quem não  procura o santo ou a santa milagreira para deitar no seu altar a promessa, a vela, a oferta?... Não está longe a ara do Grande Taumaturgo, está pertinho de nós: é  a cama de um hospital, apaixonadamente abraçada por uma equipa de médicos em redor de uma mulher em morte cerebral declarada! E agora digam que o Homem não tem o poder de ressuscitar, neste caso, de transformar em vida o pálido fruto da morte. Ou então, chamo aqui a voz de há quinhentos anos, Luiz Vaz de Camões: “Vejam agora  os sábios na Escritura, que segredos são estes da Natura?” (Canto V, 22)  E a equipa médica já esclareceu: “Não foi um milagre, mas um avanço da ciência e da capacidade de multidisciplinaridade e eficácia de uma equipa. Não são só os médicos, mas os enfermeiros, os nutricionistas, os farmacêuticos e todos os profissionais que contribuíram para este êxito”,
Estamos rodeados de milagres vivos à nossa beira. O que falta é quem abra os olhos e a mente para achá-los, identificá-los e pô-los ao serviço do Homem. Podia enumerar uma enciclopédia de casos, colhidos no quotidiano. Por isso que  a aposta no saber, a apetência suscitada desde os bancos da escola, enfim, a cultura  no seu sentido holístico devem  primar no topo dos programas escolares e na educação do Povo, em vez de o anestesiar com subterfúgios bentos, que mais não são que o culto  da lei do menor esforço.
Trago dois depoimentos insofismáveis. Um deles, do famoso neurocirurgião  britânico Henry Marsh, protagonista do documentário da BBC Your Life inthe Their Hands, o qual não sendo religioso e não crendo em milagres, reconhece e acusa a sociedade de hoje, com este veredicto: “Sabemos mais da lua do que do nosso cérebro”.  Na mesma linha, ontem, Dia dos Oceanos, uma equipa de especialistas em oceanografia, estimulava  a comunidade científica  a debruçar-se sobre a magnitude, ainda  desconhecida, da riqueza oceânica, nestes termos: “Lamentavelmente, conhecemos mais da crosta da lua que dos fundos dos nossos mares”.
Bem poderia voltar até nós  Alexis Carrel,  Prémio Nobel da Medicina, em 1912,   e reescrever o imortal testemunho do seu livro L’Homme, Cet Inconnu -“O Homem, esse Desconhecido” – para iluminar a imensa floresta do conhecimento, em cujo subsolo se encontra o segredo dos grandes milagres que o Criador colocou ao serviço da Humanidade – são  os “tais segredos da Natura” que os Sábios da Escritura  preguiçosamente não vêem nem sabem, porque não procuram decifrar. Bem a propósito foi a frase do Francisco Papa que reconheceu as muitas pessoas para quem “a natureza é uma igreja”.
Esta mensagem fica incompleta sem o seu reverso. Deixá-lo-ei  para outra altura.

09.Jun.16

Martins Júnior