domingo, 3 de julho de 2016

CÁ VAMOS CANTANDO, PAGANDO E RINDO : Breve radiografia das festas na Ilha


“Lá vamos cantando e rindo”…
         Era assim que nos tempos de Salazar se impunha  o  hino patriótico aos jovens, forçosamente agrupados  na  falange denominada  “Mocidade Portuguesa”. Os irreverentes estudantes de Coimbra nos cortejos de fim-de-curso, as  famosas latadas, ironizavam com a variante Lá vamos, pagando e rindo…
         Cantando e pagando cá vamos nós também, embarcados nos porões dos arraiais que pululam agora por toda a ilha. Finados os “Santos Populares”,  passamos aos Senhores e às Senhoras, oragos das mais 100 paróquias e capelas madeirenses. Tenho para mim que a invocação ou o título dos eventos é o que menos interessa para a comunicação social e, daí, para o  grosso da população. A avaliar pelas notícias e reclamos, tanto faz chamar-se  Festa de São João, António ou Pedro como apelidá-las de festas da cebola, do caramujo ou do mexilhão. O que é preciso é entrar na excursão, cantando, pagando e rindo.
         Foi o que me chaparam nos olhos as imagens e os comentários televisivos  de ontem acerca do São Pedro na Ribeira Brava. Os feirantes, as carradas de carne, os barris de poncha e, como cereja no bolo, a caixa: o lucro, o negócio - objectivo legítimo de quem arrisca, mas francamente redutor para quem faz reportagem. Então, a delícia e o “faro” do jornalista atiram o microfone para os laboriosos trabalhadores das barracas, com as ridículas e enfastiadas perguntas, do género “como é que vai o negócio, têm vendido muito, as pessoas aparecem mais que no ano passado?”… Até na religião: “Quantas girândolas de  foguetes, há  muitas velas de promessa, muitas cabeças e pernas de cera nas procissões?”… Tudo negócio! Do tamanho dele depende o brilho ou o escuro da reportagem. Factores culturais, vertentes artísticas, algo mais que os comes-bebes-e-pagas são os ausentes  e esquecidos dos comunicadores públicos.
         Ninguém pretenderá fazer das festas populares tertúlias académicas. Mas se, porventura, ocorrem determinados eventos em que o povo e a cultura assumem-se como protagonistas deveria dar-se-lhes o devido apreço.
         Refiro-me àquilo que vi nestes dias em Machico. Houve o cortejo de São Pedro, a que já aludi noutro texto, com  participações de qualidade, genuinamente endémicas. Associadas ao São Pedro seguiram-se outras actividades, integradas no Dia da Freguesia, sobressaindo o programa denominado Arte e Pesca na enseada leste da baía, desde provas náuticas, “24 horas a voleibolar”, padel,  construções na areia, passeios de veleiro e catamarã, atelier de artes plásticas, pintores ao vivo. Um teclado multiforme, de diversas tonalidades, extenso e sugestivo é como pode classificar-se o que se passou no palco. Música para todos os gostos: “Vozes do Concelho”,  Grupo Folclórico, Banda Municipal, grupo de fados e do “Prestige Dance”, António Câmara e a sua Guitarra, “Cantares da Ribeira” com o desfile coreográfico intergeracional da Ribeira Seca e outros artistas locais, a que se juntaram bandas convidadas (“Aoakaso”, “Punk D’Amour” “Fitness Team”, “Feed back”, “Dull N’Nouk White”, “Major Cafeina”) e os DJ’s no encerramento de cada um dos cinco dias que durou a 2ª edição da  Arte e Pesca, uma homenagem da Junta de Freguesia de Machico aos pescadores da localidade.na zona do Caus do Desembarcadouro, o seu meio ecológico.
         Todos quantos ali passaram, de diversos escalões etários e culturais, todos tiveram oportunidade de abastecer-se nas barracas em redor, mas ao mesmo tempo alimentaram a mente e a sensibilidade com uma ementa diferente. No regresso a casa, subia a vida em tom maior, por causa do ambiente pacífico, saudável e construtivo que encontraram na baia. Porque a Arte e Pesca  não serve para alienar e esvaziar o ser, mas para libertá-lo e dar-lhe força de interpretar e vencer as barreiras do quotidiano.
Há mais festa para além do cantar, pagar e rir!

         03.Jul.16

         Martins Júnior

sexta-feira, 1 de julho de 2016

DINOSSAURO DE OUTRAS ERAS, EU TE SAÚDO, NOBRE MACHICO!


Entre 1 e 2 de Julho repicam os sinos na vetusta torre da História. Enquanto o Funchal optou recentemente  por comemorar o 1º de Julho, como o Dia do Achamento da Madeira, a população de Machico, desde há várias décadas, tem sido fiel aos cronistas da época que relatam o mesmo evento, assinalando que ocorreu em “2 de Julho, Dia da Visitação a Santa Isabel”. Por isso, aqui deixo a minha saudação.

Não sei se é canto
Se é pranto
A cinta que amarra
A ilha toda  à barra
De um  horizonte sem cais

Mas sei
De um dinossauro de outro planeta
Veio de longe
E em basalto se fez
Terno e rude, vidente e cego
Antes que fosse português
Este mar onde navego

Aqui chegou
Cabeça dormente a levante
Seio túmido a montante
Prenhe de mundos futuros

Fosse Machim o amante
Quem te achou
Fossem as caravelas do Infante
Vejo-te sempre  terra e mar
Pico alto e abismo fundo
Fio de água agridoce
Mistura informe de ribeira e sal marinho
Abraçados no lençol cambraia
De todas as marés

Até o sangue  azul  que veste os calhaus da praia
Subiu córregos e atalhos
Tingiu de pastel real
As nascentes virgens da montanha

Estância de reis e escravos
Cepos  e brasões
Terro de cardos e cravos
Pátria do poeta gémeo de Camões

Porque és herdeiro
Do Capitão Primeiro
Da Ilha
E porque é de bronze
A quilha
Da nau “São Lourenço” que comandas
Quantas vezes te algemaram pés e mãos
Outras tantas as quebraste
Em  ciladas naufrágios e demandas
Que de todas triunfaste

Baía que é  um abraço Montanha que é um sorriso
Eu te canto Terra Nova que amo
Nervura polícroma  que piso:
Oh  agra geração de antanho
Oh lobos do mar bravo cavado
Oh mãos sedosas do bordado
Oh jovem estirpe de talento tamanho

Eu sei
Velho dinossauro de outras eras
Que é por mim por nós que tu esperas

Desde o Larano  ao  Desembarcadouro
Da Praia de São Roque ao alto dos Maroços
Eu sei e sinto e vejo
Erguer os braços - os teus os meus os nossos
Brilhantes como a Estrela do Centauro
E restaurar o sonho antigo
Do teu seio túrgido amigo
Nosso e novo Machico – Oh  Velho Dinossauro

1-2.Jul.16
Martins Júnior

quarta-feira, 29 de junho de 2016

VIVA A ROMARIA POPULAR


           É o Santo António, São Pedro e São João
           É a sua festa, é o seu belo dia
           A gente canta, canta de coração
          Viva Machico, viva a nossa romaria

Ontem e hoje “Je suis Saint Pierre”. É o que me ocorre dizer, enquanto me embalam o peito as canções com que se abriu a noite de hoje em Machico. Certamente que em todas as cidades e lugarejos o mesmo  possam dizer  todos quantos viram e, sobretudo, os que prepararam e desfilaram nos cortejos. Há-os, sumptuosos, vistosos, quase carnavalescos, com batidas musicais  de outras paragens. Há-os, também, os que primam pelo requinte, na mira de um prémio dado pelo júri da feira. Todos satisfazem, mexem, “pegam na vida”.
Mas a homenagem garrida, hoje dedicada aos homens do mar, na baía de Machico, teve outro sabor. Porque foi genuína, fresca e leve, divertida. À sua passagem não havia o habitual crítico espectador das marchas, mas em cada olhar em volta sentia-se-lhe o ritmo contagiante da soltura  alegre que irradiava dos participantes. Eram pais e filhos, eram avós e netos, eram irmãos e colegas de estrada os que circulavam nos arcos coloridos que traziam nos braços. O cortejo brilhou, não pelas lantejoulas fugazes, mas pelo sorriso, as vozes, a sintaxe directa e cúmplice entre quem ocupava as bermas ou o palco da rua: a letra, a música, a coreografia saltitante de inspiração popular!

De inspiração popular foram as partituras, com especial menção a da Banda Municipal de Machico,  do Centro Cívico-Cultural e Social da Ribeira Seca e das “Flores de Maio” do Porto da Cruz, diferenciando-se  esta última  por trazer música e instrumental ao vivo, sem qualquer recurso a tecnologia sonora. Lindo e enternecedor ver e ouvir vozes claras enchendo as ruas  até ao cais da cidade. A participação do Jardim de Infância, da “Universidade” Sénior e até  Casa do Povo de Santa Cruz, todas  entrelaçavam  emoções e corações. O percurso pedestre dos três Santos Populares, com o Santo António ao vivo, de Menino Jesus ao colo, o São João e o seu cordeirinho a passo certo, as barbas de um São Pedro de carne e osso, com a enorme chave do paraíso - foram outros tantos motivos de expectativa e franca confraternização, Muito acertada a opção dos promotores  por não terem atribuído qualquer discriminatória atribuição de prémios, Participar foi o prémio maior.
São Pedro é o padroeiro
É o arrais da beira-mar
Aos pescadores da nossa freguesia
Um grande viva aqui viemos dar

Uma chave de ouro com que a Junta de Freguesia de Machico  fecha o mês de Junho e abre, até domingo, as iniciativas lúdico-culturais  “Arte e Pesca” e “Do calhau se fez Arte”, integradas no Dia Oficial da Freguesia, 2 de Julho, a data da Descoberta ou Achamento da Ilha!
Pela simplicidade sem peias, as minhas congratulações.


29.Jun.16

Martins Júnior

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Desde 27 de junho 1976 a 27 de junho 2016: PARTO A-FERROS DE UMA AUTONOMIA NA IDADE DA TERNURA


Como quem conta os nós de uma soca adulta  da nossa cana de açúcar, um a um, até chegar à raiz, assim podemos percorrer os quarenta anos da autonomia madeirense, começando pelo húmus que a  fez nascer. Chamemos-lhe  “idade da ternura”, aquela que estamos hoje a comemorar, sendo certo que o organismo democrático  nunca poderá  crescer  na almofada fofa do contentamento narcisista. Pelo contrário. Porque está cercado  de  vírus pantanosos, pré-organizados nos camuflados antros de interesses corporativistas, o crescimento democrático exige sempre vigilância, frescura, água renovada, seiva corrente.
Faz hoje quarenta anos das primeiras eleições para a Assembleia Regional da Madeira e, consequentemente, do seu governo próprio. Foi uma cabazada de votos para a formação partidária que até agora nos governa. Dos 41 deputados, 29 foram para o PSD, 8 para o PS, 2 para a UDP e 2 para o CDS.
Este é  o testemunho de quem viveu dentro do furacão de onde saiu um corpo desequilibrado, atacado de  macrocefalia logo à nascença,  a que pomposamente baptizaram de Autonomia. A geração de hoje nem faz ideia do despudor e da barbárie de que foram capazes os auto-proclamados donos da “Madeira Nova”.
Dois foram os paióis onde se fabricaram as armas de arremesso fulminante: a barbárie do bombismo  flamista e o despudor de uma Igreja ajoelhada ao trono do antigo regime. Ao mais isento observador ocorrerá, de certo, esta pergunta: Como é possível uma aliança tão contraditória entre o altar e a matança de inocentes? Resposta imediata: só num regime muçulmano do jhiadismo, a “Guerra Santa” de Maomé e seus sequazes, em defesa de um sanguinário Alá!
Ainda está por descrever esse rasto de sangue, destruição e morte que o movimento clandestino “Flama” deixou no berço daquilo que chamam Autonomia. Isto, apenas, bastará de paradigma: 1) pela calada da noite, criminosos assassinos colocavam nas mãos de jovens, ainda adolescentes, os explosivos traiçoeiros que espalharam o terror, rebentaram  viaturas e construções, em nada proporcionalmente diferentes dos atentados bombistas do Daesh. Aconteceu, até, o suicídio de um rapaz, de certeza inexperiente, que viu rebentar-lhe mortalmente nas mãos a bomba destinada aos defensores da verdadeira democracia conquistada no “25 de Abril”.  2)  Um outro, a cujo julgamento assisti na comarca de Santa Cruz, viria a enforcar-se (ou ser enforcado) na prisão para que não fosse desvendada a  máquina infernal da “Flama”. 3) O bombismo terminou logo após a subida de João Jardim ao poder regional – testemunho de um operacional da “Flama”. 4) A bandeira oficial da Madeira foi decalcada, copiada daquela que a “Flama” usava, como sua,  nas inscrições murais
espalhadas por toda a ilha como pré-aviso de ataques bombistas. Acrescento que, nesse período escaldante, Machico viu-se livre desses atentados em virtude da constante vigilância popular, dia e noite.

Ao lado da “Flama” militava a Igreja, ocupada pelo bispo Francisco Santana,  promotor na Madeira do já derrubado regime fascista. “Eu trato  por tu os ministros do “Estado Novo” salazarista – confidenciou-me pessoalmente, ainda antes de ser bispo. 1) Chegado ao Funchal, demite da direcção do “Jornal da Madeira” o ilustre Pe Dr. Abel Augusto da Silva e entrega-o a um rapaz factualmente conotado  com o regime salazarista, a União Nacional, dirigida na Madeira pelo tio deste, Dr. Agostinho Cardoso. O dito rapaz usou o Jornal da diocese como trampolim  para chegar a presidente do governo regional, cargo que ocupou durante mais de 38 anos.  2)  Em vésperas de eleições de 76, o bispo desmultiplicou-se, sem tréguas, numa campanha religiosa manifestamente tendenciosa: publicou uma Nota Pastoral, lida em todas as igrejas,  alertando os cristãos contra o socialismo, que manhosamente qualificava  de “marxista”; promoveu o grande espectáculo da missa do “Corpo de Deus” no estádio dos Barreiros e, no domingo anterior às eleições, faz uma extensa homilia de teor marcadamente separatista, misturando a “barca de Pedro” e Portugal a afundar-se, não hesitando ele, lisboeta, a  regionalizar-se madeirense: ”Queridos ouvintes, que me escutais em Portugal e no estrangeiro, podeis ver como nós, Madeirenses,  sabemos conviver, sempre que nos deixam ser genuinamente Madeirenses”. (O negrito dos caracteres é  tal e qual o mesmo do Jornal da Madeira).   3) A anteceder as eleições de 76, o citado bispo levou o jovem, novo director do Jornal, a todas as paróquias, apresentando-o como o melhor para governar a Madeira. O Padre Tavares Figueira, conhecedor profundo deste período, retratou a situação, com humor mas com inteiro rigor científico, numa entrevista de circulação nacional: “O PPD nasceu numa sacristia e o  pai foi o bispo Francisco Santana”.
Muito mais poderia acrescentar sobre uma matéria que os jornalistas locais esconderam  e continuam a esconder em sub-reptícias reportagens que não passam de “larachas da Autonomia”.
Sirvam estas palavras,, que comprovo sem qualquer receio, para interpretar a entrada da chamada Autonomia na “idade da ternura”, desde o 27 de Junho de 1976 até  27 de Junho de 2016. Saibam os homens e mulheres de hoje com que mãos se fez o parto desta Autonomia: o altar transformado em quartel de guerra e, escondida sob as toalhas,  a pólvora clandestina que iludiu e matou.
Terei oportunidade, a seu tempo, de trazer a público o que ainda não foi descoberto.
Duas notas finais:
Foi eleito nas listas do Partido Socialista aquele que, pouco depois, guinou para o PSD como presidente da Assembleia Regional, Dr. Miguel Mendonça.
Recordo Paulo Martins,  hoje,  dia do seu aniversário natalício, eleito como eu nas listas da UDP e em cuja companhia escrevemos páginas concretas em prol da verdadeira autonomia dos madeirenses.
     
         27,Jun.16

         Martins Júnior

sábado, 25 de junho de 2016

“PORQUE HOJE É SÁBADO, AMANHÃ DOMINGO”




      Hoje é dia de ser diferente.
     De ser diferente este SENSO&CONSENSO.
   Apetece-me deitar a correr o rio largo que inunda os muitos dias de cada noite e as muitas noites de cada dia. Precisando melhor, é hoje que me dá para soltar o “Dia da Criação” de Vinicius de Morais.
   PORQUE HOJE É SÁBADO, AMANHÃ  DOMINGO!…
  Quem, de entre nós, não teve alguma vez o desejo de fruir até à seiva,  ser livre, abrir o paraquedas e voar sem amarras pela nuvem que nos leva ao ritmo do seu olhar despido?!
  Hoje prescindo do habitual jeito   de pôr a mesa, abrir a ementa, servir a fruta. Hoje entendo quão diversos e plenos são os manjares da escrita, do sonho, da sucção inata de cada indivíduo que viaja dentro de si e em redor do seu mundo. E neste caso o melhor que há a fazer é deixar cada cérebro planar a seu bel-prazer sobre aquilo que mais o deleita.
  Prefiro, pois, desprender a atenção, seja de quem for,  desta ou daquela abordagem em particular. Convido apenas a sentarmo-nos no chão da casa diante de vários ecrãs simultâneos, deixando ao critério de cada um a opção que mais lhe convier. É que, de tantos e ponderosos “casos”  ocorridos à nossa beira, resulta o desejo de pegar em todos eles, com a lucidez e a profundidade que merecem.
     Por exemplo, hoje Sábado, amanhã Domingo:   
        a) Um simples quadradinho, metido numa urna longínqua, abalou toda a Europa, a Bolsa, os vários continentes, porque, pelo Brexit, o Reino Unido voltou a ser uma ilha.
           b)   Dobrado abalo agita toda a Espanha, com o decisivo acto eleitoral de amanhã, 26-Junho, de repercussões imprevisíveis para a governabilidade do país vizinho.
           c)  A bandeira portuguesa salva-se, in extremis, na praia daquele mar meio-morto que foi a refrega contra os croatas, em  Lens.
         d) O rescaldo do “São João”  alaga de sardinha e sangria as ruas,  becos e esplanadas, desde as grandes cidades até às bucólicas aldeias.  
         e) A estrela polar de um novo mundo e de outra era civilizacional está hoje na Arménia “ortodoxa”, para mais uma vez denunciar o genocídio humano perpetrado pelos soldados do Império Otomano há cem anos. Francisco, bispo de Roma (como ele próprio se autodefine) mais uma vez mergulha as mãos  na trágica necrópole de vítimas inocentes que os poderosos teimam ocultar.    
     Sê livre neste fim de semana.
    Das tuas pupilas gustativas sairá o apetite singular que alimentará todo o teu ser e fá-lo-á caminhar com segurança na construção da tua personalidade. Aqui também se adapta a velha máxima:  Diz-me o que comes e dir-te-ei quem és!
    Bom apetite.
   Porque hoje é Sábado, amanhã Domingo!

25.Jun.16

Martins Júnior

quinta-feira, 23 de junho de 2016

UM GESTO MAIOR QUE A URNA DE VOTO


Está ao rubro toda esta Europa, desde o  sul que habitamos, com as eleições quentes de “nuestros hermanos”, domingo próximo, passando depois pela França, feita o enorme caldeirão do campeonato europeu, até ao norte, o Reino Unido,  onde o embate Brexit- Remain  põe em ebulição a fleugmática tradição do povo britânico.
Após a sucinta análise do meu último escrito, hoje vou colocar no pódio civilizacional  da coragem e da coerência um gesto que ontem inundou todo o velho continente, como um estranho rio que sobe da foz para a nascente. Veio de Roma e desaguou nas margens do Tamisa!
Sei que quando for lida esta página já estarão cá fora os foguetes de um ou outro arsenal, o Brexit ou o Remain. E por não saber ainda os resultados desse referendo, ainda mais força ganha o gesto que a gravura regista. É que de todos os quadrantes politico-económico-ideológicos têm surgido conceitos e juízos sobre a saída ou a permanência do Reino Unido na grande família europeia. Na balança dos argumentos acumulam-se muitas variáveis. Cada instituição releva-os ou renego-os, consoante os interesses corporativos das respectivas instituições. Entre a vaga do argumentário há um pico forte que espalha o medo e acicata as reacções do mais cego populismo – a imigração, os “perigosos” imigrantes. É patente o vendaval de xenófobas imprecações  com que os agitadores içam a bandeira do Brexit para cortar com a Europa Unida.
No meio desta “babilónia das gentes”, faltou uma voz – a das instituições religiosas. Todos sabemos que estas ficam à beira da picada, mudas, calculistas, sem se comprometer com ninguém, alegando que os pregadores da religião não se devem meter na esfera da “política”, mas após a refrega correm depressa a dormir na alcova do partido que ganha. Como os puritanos fariseus, voltam a lavar as mãos na bacia de Pilatos, cientes que assim comem do seu e do alheio. Nem me demoro em demonstrações, de tão evidentes e despudoradas elas são, mesmo à nossa porta.
Mas houve alguém que disse não. Proclamou-o ao mundo, não com discursos fúteis, mas com um gesto oportuno e histórico, na sequência  de anteriores atitudes e decisões já assumidas no terreno. Querem ostracizar os imigrantes, a pretexto de egoística soberania? Então aí vai, de novo, brandindo em campo aberto  seu flamejante exemplo, Francisco Papa, em Roma, precisamente na véspera do referendo-ultimato inglês: “Um cristão não pode nem deve fechar a porta aos irmãos refugiados”. O jovem quase-octogenário caminha com eles na Praça de São Pedro, fá-los sentar-se ao seu lado nos degraus do altar e dali lança para todo o mundo o “foguetão” libertador do seu aviso – o seu veredicto  -  esperando que, ao sobrevoar os céus de Londres,  saiba o seu povo acolher e abraçar quem lhes pede socorro e assim faça jus ao título milenar que ostenta  desde a sua fundação: Reino Unido!
Poderia o bispo de Roma acomodar-se, aconchegar a sotaina aos joelhos e balbuciar com santa unção: “Não me meto nisso, até porque amanhã há o Brexit”. Mas não! Com a penetrante visão da águia vigilante, levanta voo e brada: “Agora é que é a Hora”!
Seja qual for o resultado, aí fica o gesto memorável, espelho e estímulo para todos os que recusam a comida dos corvos e abutres! Todos os que sobem a montanha  da coragem e alcançam o cimo da coerência.

 23-Jun.16
Martins Júnior

terça-feira, 21 de junho de 2016

“DENTRO OU FORA DE JOGO” : eis o grande desafio na Europa de hoje.


Não passa de mera curiosidade prática o saber se, por essa Europa fora, o futebol invade assim as estações  de TV, chegando ao ponto de ver-se este pequeno rectângulo que é Portugal reduzido às quatro linhas do rectângulo-estádio com onze homens, de verde e vermelho,  a marcar a manhã, a tarde e a noite de um país. Quando às portas da Europa se acercam nuvens sombrias que nos atingem logo de entrada, é de uma tremenda insensibilidade ter de “aturar” nada menos que quatro ou cinco “mesas residentes”, a botar enfadonhas faladuras sobre  o mesmo vaivém de um couro redondo, o único que pode orgulhar-se de dizer: “quanto mais me bates, mais gosto de ti”. Comentadores de todos os uniformes – treinadores e ex-jogadores, advogados e escribas,  políticos e pavões, diariamente são entre 20 e 25 - todos se esticam, mais o pescoço que as mãos, a lobrigar o milímetro do paralelo imaginário do “fora-de-jogo” ou o porquê de o ferro da baliza não se ter alargado mais uns centímetros. É caso para perguntar:  Será daí, do relvado e das chuteiras, que virá a solução para Portugal, para a Europa?  É aí que se esgota a bandeira do nosso patriotismo de 24 sobre 24 horas?
A Europa está  em pleno bloco operatório, à espera de ver-se amputada de um dos seus braços mais saudáveis e seguros. É o nevrálgico Brexit que conhecerá, depois de amanhã o desfecho histórico: “In or Out” – eis a questão, diria hoje Shakespeare. Na mesma “marquesa” da cirur4gia  está também Portugal, queira ou não queira.
Não vou desdobrar diagnósticos possíveis para este confronto.   Sabe-se que no lado do Out, puxando para a rua, estão os que resistem ao comando de tecnocratas não eleitos,  sediados em Bruxelas. Estão também os artífices da economia de base, entre os quais os pescadores, que não se conformam com as quotas impostas pela EU. Do lado do In estão os experts da macroeconomia, o FMI, o BCE, a Banca e seus satélites, o mercado, a moeda, a abolição de fronteiras, a paz entre as nações. Ambos têm razão. Repetindo Gilbert Cesbron, “É o drama deste mundo: todos têm razão”.  O patriotismo exacerbado, que não olha a meios, vai mais longe e  lança mão da arma branca que tem à mão, o populismo. E aponta a mola contra os imigrantes e o terrorismo, em síntese, a campanha do medo.
Trata-se, segundo António Navalon, de um autêntico “Tsunami Político”. Acusa Cameron de um mal-calculado “esticar da corda”, perigoso porque inoportuno,  por parte de David Cameron, como seja o de transformar conflitos regionais em “guerras campais” europeias e transatlânticas. Pensemos, entre outros,  no diferendo entre os dois presidentes de Londres, o ex, Boris Johnson, pelo Out,  e o seu rival recém-chegado ao cadeirão municipal,   o muçulmano Sadiq Khan, pelo In. Até há uma semana, o Out levantava bandeira nas sondagens, somando todas as vantagens, múltiplas, como sublinhava um analista: “O Reino Unido tem o melhor de dois mundos: integrou-se no Mercado Comum e livrou-se do pior, o euro”.
Mas um acto macabro alterou o desequilíbrio do voto de mais de 60 milhões de britânicos: o assassinato da deputada Jo Cox, defensora dos imigrantes,  por um demente fanático  do Out.  Relâmpago a toldar cérebros e dogmas:  a avassaladora força de factos marginais!  Até o já citado  Boris Johnson mudou de argumentação e passou a afirmar: “Agora eu próprio sou pela imigração, sou pelos imigrantes. Mas, mesmo assim,  apelo ao Brexit, pela saída do Reino Unido”.
Longas seriam as análises que podemos consultar na vasta e contraditória literatura sobre o assunto. Como vasta e contraditória é esta Europa em que cujo bojo – há quem lhe chame Titanic – entrámos. Mas a mais sensata declaração que li sobre tão dramática circunstância foi a do presidente do Parlamento Europeu, Martin Shulz: “Chegou a hora de repensar a Europa. Definitivamente”!
Sejam quais sejam as teses e as engenhosas elucubrações que se possam tecer, há um vírus intrínseco ao mafioso cérebro de Bruxelas e seus pares:  o capitalismo financeiro. E a capacidade mimética deste monstruoso polvo  vai ao requinte de apresentar-se como benemérito dos países pobres. Ajuda-os, cativa-os, deita-lhes a mão, com aparentes facilidades e empréstimos. Mas com uma condição: “Que nunca deixem de precisar de nós, magnatas da finança”… “Nunca permitiremos a tua emancipação, muito menos os instrumentos para viveres por ti próprio. Será sempre o pobre e o pedinte, a nossos pés” -  é o que dizem e fazem a Portugal, à Grécia, à Itália, à Espanha. Recorrendo a todos os truques e sofisticados estratagemas, como os  ratings e os aleatórios juros da dívida.
É para esta capciosa, satânica engenharia , que devem olhar os países que integram a CE, muito especialmente, o Sul europeu. Por isso, a palavra de ordem não será sair,  mas ficar para podermos alterar as regras deste jogo sujo, desta “economia que mata”.  Submeter-se como escravo mudo é o mesmo que viver numa morgue rotulada de hotel. Bem fazem os governos que batem o pé. Somos pobres, mas com o direito de sermos autónomos e tratados com dignidade!
Mesmo desconhecendo o resultado de depois de amanhã, valeu a pena esta sacudidela gigante do Reino Unido que pôs o mundo em sobressalto. Efeito colateral foi  a decisão histórica que passou a dar ao  Banco Central Europeu o poder e obrigação de comprar dívidas soberanas que asfixiam a economia dos países devedores.
Tenho para mim que nada será igual na Europa do pós-referendo britânico de 23 de Junho.   

21.Jun.16

Martins Júnior