terça-feira, 19 de julho de 2016

ADAGIO CANTABILE : De mão em mão e de boca em boca!


Não sou de chorar mágoas nem cantar loas ao viajante na Barca de Caronte. Basta aceitar da sua mão – e nunca deixar morrer – o facho olímpico com que iluminou o mundo.
Naquele navio, onde todos embarcamos, não vi um corpo morto. Vi a partitura latente de uma vida inteira. Vi  todos os andamentos existenciais que ritmaram oitenta e sete anos, feitos de pautas vibrantes e pausas cantantes,  que só ele as sabia decifrar. Todos os andamentos… também as áreas da Paixão segundo São João, de Bach. Também as sonatas dolentes de Chopin  e o allegro pizzicato de Mozart. Também os coros retumbantes  de Wagner e Verdi. Mas, de todo o oceano rítmico em que vivia mergulhado, o que permanecia sempre inalterável no rosto sereno era o Adagio cantabile que nos deixou por herança, como se todas as agruras e tormentos ficassem submersas nas funduras abissais.
Um dia disse-me: “Somos construtores de capelas imperfeitas”. E esclareceu-me: “Capelas Perfeitas como as do Mosteiro da Batalha… mas Capelas Imperfeitas porque inacabadas. Outros continuarão a construí-las”.
É esse o testamento e a chama que nos unem. Quisera eu ter toda a vida e toda  a eternidade para  ajudar, como ele,  o mundo em construção, sabendo bem  que de  todos os esforços ficará sempre a obra inacabada. Refazer, com ele, a canção sobre a letra que escrevi, há mais de cinco décadas:

Grito de paz é o nosso grito
         Marcha de sol é o nosso passo
         Somos a voz do Infinito
Da cruz, do pão e do abraço

Para a Augusta, sua grande musa inspiradora e companheira de ouro, fica o outro tom da Cidade Nova que o Rufino adaptou a um “negro-espiritual”, muito antes dos cravos de Abril:

Vem comigo ver as ruas
De uma nova cidade
O Povo já tem pão
O pão da liberdade
Vem ver, oh vem…
As mãos estão vermelhas
De sangue e de alegria
O Povo quis lutar
Nasceu um novo Tempo Novo
Vem ver o Dia

Irmão, Irmão
Traz a tua fome
Traz as mãos e constrói a Rua
A cidade, a Cidade Nova
Já é  tua.
19 de Julho. Faltam seis meses para o 19 de Janeiro – o dia de mais um ano teu. Estaremos cá para trazer-te à nossa mesa e, aí sim, cantarmos as tuas Sinfonias Incompletas… as nossas Capelas Imperfeitas. Que bom saber que as tuas mãos continuam nos nossos braços e que os nossos dedos germinarão rebentos de futuro.  

 19.Jul.16
Martins Júnior

    

domingo, 17 de julho de 2016

DIA DE ESQUECER… PORQUE É DIA DE LEMBRAR !


Escrevo debruçado à janela deste domingo, 17, olhando a paisagem de segunda, 18 de Julho. E ela, a paisagem, é toda branca. E azul e verde marinho. E ametista e ouro astral. Só “porque um Menino nasceu, foi-nos dado um Príncipe da Paz”, tal como os profetas messiânicos anunciaram ao povo judeu, desesperadamente amarrado ao cepo da guerra e mais desesperadamente sedento da verde planície sem termo.
Não esqueço as magmas abissais onde me deitaram a dormir, prestes a estourarem os miolos de todo o universo. Mas hoje tenho saudade – mais que saudade, sinto a  orgia incontida – de ver estendido à minha frente o lençol de água refrescante nestes dias de sufoco. Deixem-me recostar a cabeça, nem que seja por um dia, na almofada suave e segura a que todos temos direito.
E esse dia abre-se hoje diante dos meus olhos. “Porque um Menino nasceu”. Continuo a citar, sem esforço, sábias inspirações de antigas   canções:  “Não sei que nome te hei-de dar”, ó Dia Singular!…
Quisera transformar em poema, sem rima nem métrica, tudo quanto me acompanha hoje e amanhã, como um bordão de Moisés, nesta escalada até alcançar o inalcançável Monte Sinai, a Promessa de um Mundo Novo. Ficarei embebido em êxtase, contemplando um manto de negritude que , magicamente, tornou  brancos e diáfanos os farrapos de sangue inocente.
Foi-nos dado um Menino!
O Menino chama-se Nelson, nascido em 18 de Julho de 1918. Mandela ou Mandiba deveria ser hoje e amanhã  a abóbada celeste que nos contém,  o chão universal que nos mantém.  O colo saudoso de um coração de mãe. Ai, as inesgotáveis metáforas que eu desejaria criar! Mas de nenhuma delas tem necessidade o gigante de coração de criança. Basta-me ficar vigilante e aberto à eloquência de três citações infinitas:
“”Ninguém nasce odiando uma pessoa pela cor da pele, ou pela sua origem, ou pela sua religião, Para  odiar, as pessoas precisam aprender e se elas aprendem a odiar, também podem aprender a amar”
…………….
“Devemos promover a coragem onde há o medo, promover o acordo onde há conflito e inspirar confiança onde há desespero”.
………….
“Eu sou o capitão das minha alma”!

Vem, de novo, Mandela. Entre hoje e amanhã, calem-se as armas. Anulem-se as sanções Abracem-se as nações.

17.Jul.16

Martins Júnior  

sexta-feira, 15 de julho de 2016

MULHERES AO PODER ?!


Onde acharei um pico alto ou tronco de árvore para fugir destes subterrâneos cavernoso e ululantes à minha volta? O areal de Nice já é mortalha ensopada em sangue inocente. E em cada maré desta praia redonda  em que se tornou o planeta há sempre um mar vermelho de dor, um mediterrâneo de medo e desolação.
Para onde irei?
Pois, em breves palavras, di-lo-ei sem sombra do vulcão de críticas que possa suscitar. Vou no encalce do doce cheiro de Mulher, da sua intuição persuasiva, enfim, como Umberto Eco, – mais que do nome – correrei atrás  do “Perfume da Rosa”. Essa nova  brisa, suave mas poderosa, já desce das colinas, entra pelas portas e janelas que habitamos, sobe as escadas da plebe e alcança o trono real. Como a um talismã inamovível não lhe poderemos fugir.
Preferia ficar por aqui, numa alegoria deliciante de fim-de-semana. Mas terei de decifrá-la. Refiro-me a essa onda que envolve o mundo e que reflecte a chegada da Mulher ao pódio do Poder. Não pela força das “quotas de paridade”, nem pela simpatia subtil que amolece os homens, mas por mérito próprio. As notícias que correm mundo  informam que mais duas mulheres estão prestes a juntar-se a essa plêiade feminina que terá a seus pés os destinos de nações.   Falo da britânica  Theresa May e da norte-americana Hillary Clinton, prestes a tomarem o leme desses magnatas da economia, o Reino Unido e os Estados Unidos da América.
Lembro-me de alguém, um dia,ter   expresso um voto histórico, embora escarnecido e vilipendiado por  certos pigmeus: “Como eu gostaria de ver o mundo governado por poetas”!... Da mesma forma, questionaria perante os analistas: Como é que seria o mundo governado por mulheres?
Queiramos ou não, é essa a boa-nova que cintila no horizonte. Brevemente, uma importante soma da humanidade prestar-lhes-á vassalagem, ter-se-á finado a supremacia machista do Poder.
Mas a ascensão feminina às mais altas instâncias da governação fica coroada de êxito com a nomeação de uma Mulher como vice porta-voz do Vaticano. É ela, uma madrilena, jornalista, Paloma Garcia Ovejero, de 40 anos de idade.  Os jornais de todo o mundo têm garbo em estampar em 1ª página o título :”Uma mulher entre a cúpula do Vaticano”.  Se, de um lado, se enaltece a juventude congénita de um octogenário Papa, releva-se, por outro,  a visão aberta de Paloma, em dois registo da sua primeira entrevista:” Por que razão as principais notícias da Igreja nos media hão-de ser sempre os seus pecados?... Creio que há que pôr-se um pouco de rock and rol na comunicação vaticana”.
É esta a nova aragem que trazem as Mulheres para este fim-de-semana, encharcado em sangue. Sei que, a par das guerras cruéis que nos sufocam, também fervem as “guerras de género”, assunto que merece tratamento adequado noutra altura. Mas deixem-me, por hoje, respirar o “perfume de Rosa” com que a condição feminina vai inundando o planeta.
Um mundo governado por mulheres!
Seja bem-vindo, de braço dado com os homens, e vista de optimismo, sensibilidade e amor os cemitérios a céu-aberto que o  rasto de outros tem deixado por herança.   

15.Jul.16

Martins Júnior

quarta-feira, 13 de julho de 2016

ÉS BOA ALUNA?...LEVAS!

          Que resposta mais absurda para uma pergunta tão pertinente!
Qual o professor e de qual colégio seria capaz de chegar agora ao fim do ano lectivo e desfechar tamanho murro em cima de um aluno ou de uma aluno, pelo único crime de terem sido reconhecidos, na opinião do próprio mestre, como exemplares perfeitos durante o ano inteiro?  Esse não era um colégio: era um manicómio.
E, no entanto, ele existe. Junto de nós. Aliás, todos nós andamos nesse colégio. Matricularam-nos, sem o nosso inteiro consentimento, nesse internato de lunáticos.
Vou ser breve na decifração desta charada pegada, porque não se fala de outra coisa nos jornais, no audiovisual, nas redes sociais. Outros analistas, tecnicamente  competentes e seguros, têm apontado para a injustiça de que Portugal está a ser vítima. Faço-o conscientemente,  para ser mais um a solidarizar-se com a causa e para traduzir numa linguagem mais empírica e acessível a incongruência desse absurdo.
Refiro-me a essa espada de Dâmocles com que do terraço mais alto de Bruxelas os agiotas sem lei ameaçam os portugueses. É a ameaça das sanções que a Comissão Europeia  descarrega contra nós e contra este governo porque o governo anterior excedeu, em duas décimas, a quota do deficit orçamental.
A nossa contra-argumentação já foi largamente expendida pelos governantes e pelos observadores. Afinal, quem mais do que o governo anterior, às ordens da Troika, sorveu até ao tutano o sangue, o suor e as lágrimas de Portugal?... Quem é que mandou um vice-Primeiro Ministro bradar até à exaustão que só faltava uns dias para nos vermos livres da Troika?... E que, após a saída dela, tudo correria na mais pacífica normalidade?... Afinal, repito  (e assim esclareço o título) quem chamou à nossa  ministra das Finanças “uma boa aluna, uma aluna exemplar”? Quem? O Mestre da “economia que mata”, o sr. Schauble , o todo-poderoso ministro germânico da guerra-fria financeira!... E é agora, ele mesmo, assessorado pelos seus pares europeus, que vem desfechar um murro cego e surdo em cima da “aluna perfeita”. Nela não. Em todos os portugueses de hoje e de amanhã! Não há critérios de equidade,  de mínima  justiça, nesse tentacular colégio europeu.
Sempre me apercebi de que o polvo de Bruxelas traz-nos no bojo como uma mãe desnaturada sente prazer em amarrar no ventre um nado-morto ou um hipotético nascituro, sempre moribundo e mal formado , sem esperança de ver-se livre e saudável,  respirando a luz do dia. Dizem que nos ajudam, mas com uma cláusula imperativa: a de ficarmos sempre na maldita condição de pedintes devedores.
 O queixume que sentimos transforma-se em grito de revolta. Não terá este Povo  o direito de “tomar uma refeição quente”, como recompensa de quatro longos anos de gélida ementa “a pão e água”?...  Está visto que os talhantes de carne humana, espojados no divã do capital sem rosto,   não nos querem ver em paz dentro da nossa própria casa, dando as mãos, separadas que estavam há quarenta anos. Preferiam um parlamento irremediavelmente dividido, para reinarem a seu indomável instinto.
Que desorganizada União é esta, traidora dos ideais de Monnet, Shuman e Adenauer,  os pais fundadores do nobre projecto europeu! De que servem cimeiras, tratados, Livro Verde e Livro Branco,  convénios, turbilhões de fortunas, arrancadas ao Povo, para envernizar palácios,  faustosos hemiciclos,  viagens intercontinentais, “voos cegos a nada”?... Rasguem esse campanudo rolo de papel que dá  pelo pomposo  nome de “Estratégia Europa 20/20”, onde (cinicamente, digo eu) se apregoa o tríplice “Crescimento:  inteligente, sustentável, inclusivo”.  Que inteligência, que sustentabilidade e que inclusão, quando comprometem legítimas expectativas,  destroem a economia e o nosso prestígio perante os investidores?!    
         Uma situação explosiva esta, que nos leva a uma dupla tentação. A primeira, a saída, na esteira do Brexit. A segunda, positiva e militante: participar nas Eleições Europeias, aquelas em que a abstenção costuma ser rainha. Agora é que vemos a força decisória da nossa atitude. Que saibam os avaros funcionários do capitalismo  sediados em Bruxelas e saibam-no os juízes metalizados  do Ecofin:  Em Portugal há um Povo firme, vigilante, participativo!   

13.Jul.16
Martins Júnior

segunda-feira, 11 de julho de 2016

POR-TU-GAL, POR-TU-GAL: OS VENCEDORES E OS GANHADORES


Na véspera do grande “derby” europeu, escrevi: “Dos empates às vitórias!”, prenúncio do feito memorável que ontem alvoroçou Portugal e todo o  mundo português, ao mesmo tempo que levantou as estradas e as colinas desta Lisboa capital. O fenómeno colossal, igual talvez só a esplanada de Fátima, merecer-me-ia uma escrita múltipla e mais vasta  que as cores da bandeira nacional.
Hoje, só os tópicos essenciais-
O Primeiro: A história é a versão dos vencedores. Desde os mais remotos tempos, a narrativa das guerras e sucessos é escrita pelos  e  para os que  triunfam. Tivesse o “improvável” Éder falhado o remate e a música em Portugal seria hoje em tom menor. A confirmar esta velha conclusão, leiam-se os jornais estrangeiros e logo ver-se-á que onde não houve vencedores não houve manchetes. Os jornais  alemães, à excepção do Bild, preferem dar em grande plano o triunfo do tenista Andy Murray em Wimbledon. Os ingleses  e reportando-me ao Daily Mail,  comentam: Crying  game for Ronald as injury wrecks his big night. Em Gazeta del Spots, diário italiano da especialidade, mereceu honras de 1º página a foto de CR7 empunhando a taça. E o nosso mais próximo El País vai bordejando assim: Sin Ronaldo, sin el domínio de juego, sin crearr  apenas ocasiones, aun asi Portugal logro ayer un éxito sin precedentes en la prórroga. Os franceses, até agora, não chegaram até nós, nem tiveram braços nem tinta para alcandorar,  o troféu que a si mesmos tinham prometido. A história do Europeu não teve glória nos outros países. Por onde se prova que são os vencedores que fazem a história.
Mas há os vencidos. Se há cenas que emocionam qualquer espectador isento, uma delas é o cenário após o último apito de qualquer competição decisiva. Ninguém, por certo, ficará insensível ao abismo que separa vencedores e vencidos. No mesmo cenário e com os mesmos gestos. Aqueles fazem das lágrimas notas sonoras, brilhantes; estes derramam sal de um “mar morto” a seus pés. Aqueles beijam a relva como quem aperta ao peito a mulher amada; estes comem, mastigam, vomitam o verde acintoso que lhes cavou a sepultura. Do desespero dos vencidos não se ocupa a história. Aqui ressalvo a magnífica atitude dos galeses que receberam em apoteose os jogadores-quase amadores do País de Gales quando, mesmo derrotados, chegaram à sua pátria. Teríamos nós feito o mesmo?  Quero crer que sim.
O misterioso enigma da Unidade! Que estranho gérmen consegue unir, num só feixe, ramos verdes e gravetos velhos, intelectos criadores e espécimens vulgares de Lineu, gente grada da grossa finança e magros esqueletos sem eira nem beira?!... Roleta russa esta para os líderes maiores e menores…  Não será apenas o futebol: na minúscula Madeira não haveria nunca (pelo contrário!) a mesma sensibilidade unitária entre Marítimo e Nacional.. Pior ainda no campeonato nacional entre Benfica’s, Sporting’s ou Porto’s. A evidência está no objectivo, dir-me-ão. E é certo. Mas o mesmo objectivo,, sendo comum, não deixa de ser individualista, diferenciando-se apenas na dimensão dos círculos que gravitam na mesma galáxia.
E os ganhadores? “Nesta altura do campeonato”, há-os directos e indirectos, Além dos artífices - os vencedores e a Federação Portuguesa de Futebol – adiantam-se os poderes oficiais, cultores ou não do desporto-rei. Entram por outra porta, mas lá estão: os políticos credenciados pelo voto e também as fés religiosas, sejam quais forem o seu Deus e a sua religião. Estas últimas suscitam uma análise mais séria e profunda, que não cabe neste lugar, mas que muito me interessaria  investigar. Cuidado não meter a Divindade  nas chuteiras dos goleadores.          Respeitando a crença de cada qual, é meu imperativo de consciência colocar no mesmo altar esta contradição, à espera de resposta: As mesmas razões que levam os portugueses a agradecer a Deus pela vitória, são as mesmas que levariam os franceses a imprecar e repudiar Deus pela derrota. O Deus português será adversário do Deus francês? "Pelo amor de Deus" não O metam  onde  não é chamado! Mais a mais, sabendo das contingências a que está sujeito um desafio de futebol, a começar pelo árbitro…
Vencedor e ganhador é o nome de Portugal. Em qualquer recanto onde viva um português.!  Machico, também,  do alto da varanda do Município e por todo o largo envolvente, festejou patrioticamente o grande feito.
Parabéns também  ao quinteto medalhado do atletismo europeu, recém chegado de Amesterdão 

VIVA PORTUGAL UNITÁRIO !

         11.Jul.16
         Martins Júnior   

    


sábado, 9 de julho de 2016

DOS EMPATES ÀS VITÓRIAS!


Cá vou eu, de malas aviadas, correndo asinha,  ansioso por chegar a  Paris. Confesso que não estava nos meus planos. Mas o coercivo acelerador  das    telefonias, dos  telefones, televisões, telejornais e tele-multidões, enfim, o vendaval da pressão pública e publicada arrastou-me. E lá vou eu, olhando o grande teatro do estádio de França, onde nos querem convencer do futuro de Portugal. Na Torre Eiffel começa o grande cordão verde-rubro que abraça Versailles, Les Champs  Elysées e avança desabrido pelos vastos continentes onde vive um português. Digamos que o cordão ibérico amarra todo o planeta. E um potente e tracejado trissílabo, “POR-TU-GAL”, faz tremer o universo.
Quem ousará negar o assombro que nos traz o futebol, mais precisamente a Euro copa? Não há quem lhe resista ou lhe seja sequer  indiferente. Em Portugal e no estrangeiro. Vejo uma enorme página do super-gaulês Le Monde, .dedicada  à nossa selecção e onde se classifica o capitão como “Le sauveur du Portugal” (o salvador da pátria portuguesa), enquanto “nuestro hermano” El País põe-lhe água na fervura e diz que “há mais ruído que futebol… e que França já se bateu com um campeão, Portugal ainda não se bateu com nenhum”. Dos jornais portugueses, é “A BOLA” que vai à frente quando, sobre Ronaldo, escreve assim “UM DEUS PORTUGUÊS”. E os protagonistas do estádio não fazem por menos. Foi impressionante ouvir Quaresma, após marcar o penalty: “Ao avançar para a bola, senti Portugal todo aos ombros”. Talvez fosse anatomicamente mais “científico” se dissesse que sentiu o pais inteiro nos pés.
Há quem veja em tudo isto um testemunho eloquente de patriotismo, de genuína portugalidade arvorada em todo o mundo. Entretanto, um espectador do programa televisivo questionava: “Será que se Portugal ganhar o Euro Futebol,  a Comissão Europeia ou o Ecofin  dispensar-nos-ão das sanções com que nos ameaçam a todas as horas?”. Ironia subtil esta pergunta, que nos remete para  outra maior: Será este o patriotismo que faz falta a Portugal? Não estaremos perante um momentâneo pico de alienação colectiva, o qual, 24 horas volvidas, obrigar-nos-á à mesma lassidão, à mesma modorra de sempre, sem força para reagir aos abusos do poderio  do Banco Central Europeu, do FMI, dos salteadores bancários?”...
É belo, belíssimo ver os estádios, as praças, as esplanadas, as avenidas regurgitarem de gente alvoroçada. E, sem querer esfriar o entusiasmo das multidões, perguntaria: Teríamos o mesmo ânimo em massa para protestar contra os monstros dos offshores, do desemprego, da doença, da incultura?
Relevemos, no entanto, a coesão uníssona dos portugueses no aplauso aos valentes guerreiros do rectângulo. Não há divisões, nem Benfiquistas, nem Portistas, nem Sportinguistas. Isso fica para depois de amanhã. Agora, o lema é: “Um por todos e todos por um”! Isto também é patriotismo. Mas já não é patriotismo, senão paranóia pegada, ouvir as ondas sonoras em cachão, “esclarecendo” e arrastando o público na rádio e TV: “Qual Cabo Bojador, qual Batalha de Aljubarrota, qual Revolução dos Cravos, em comparação com o Portugal-França?”… Ridicule, mais charmant, sublinhe-se. A prova por excesso vale tanto como a prova por defeito, ditado antigo.
Moral desta historiazinha inofensiva:  Que a transição dos empates iniciais da nossa Selecção  para as vitórias finais sirva para alcançarmos ganhos efectivos no grande estádio onde em cada dia se defronta Portugal na Europa e no Mundo!
Com este desejo, vou-me deixar ficar por cá, à espera que Paris passe à minha porta...

  09.Jul.16
 Martins Júnior





quinta-feira, 7 de julho de 2016

ESCOLAS OU DEPÓSITOS DE CRIANÇAS ?

        

          Fechou-se mais um ano lectivo. Abrem-se agora dois meses livres de horários, de monótonas campainhas. Mas dois meses, também, de preparação para novo campeonato. Portanto, é neste descontraído teleférico entre um ano e outro que nos dá para olhar e monitorizar a grande e sinuosa  paisagem da Educação.
         Permitam-me colocar na tabuleta desta minha  reflexão aquele sábio axioma de outros tempos. “Para educar uma criança é preciso uma aldeia inteira”.
         Ao falar da “aldeia inteira”, situo a Escola na sua omnímoda dimensão: o local, o ambiente social, a família, as instituições, enfim, o habitat ecológico do educando. Sem a conjugação de todos estes ingredientes, dificilmente sairá uma criança segura, auto-confiante, receptiva ao conhecimento, numa palavra, uma criança educada, na completa acepção do conceito. Porque a Escola não pode reduzir-se a uma “loja de atacado” ou a um depósito de embrulhos, hipocritamente rotulados de “as nossas crianças”.
 
         Nem de propósito, hoje na imprensa diária, o abalizado mestre da arte de ensinar (educar), o Prof. André Escórcio, em consonância com o presidente do Sindicato dos Professores da Madeira, insistia (como de resto faz nos seus escritos) na necessidade de “melhores condições de trabalho e na maior aposta no acompanhamento do aluno”, constatando que “nas turmas em que podemos fazer um trabalho concreto e individualizado temos bons resultados e reduzem-se as taxas de reprovações”.  E conclui que é urgente “questionar as razões substantivas do insucesso escolar  no enquadramento organizacional e pedagógico”.
         Agora sou eu que sublinho: “condições de trabalho … acompanhamento … trabalho concreto e individualizado … razões substantivas … enquadramento organizacional”. Aqui está a síntese de todo um tratado objectivo, porque experiencial, do sistema educativo. Entram nesta súmula as mais amplas coordenadas conducentes ao sucesso na Educação.
         Da minha parte, vou incidir a reflexão que se impõe face ao dilema com que pais e alunos se confrontam neste momento crucial de transição: a fusão de escolas. Assentados nas poltronas dos gabinetes, os especialistas em autópsias sociais cortam, recortam, entortam até às costelas o corpo e a vida de crianças e adultos. Por instinto exclusivamente economicista, dividem o organismo social, de  régua e esquadro em cima do tabuado, insensíveis àquilo que mexe e faz sofrer não apenas pais e filhos, mas toda a arquitectura da Educação. Fazem das crianças embrulhos descartáveis em cima de contentores e atiram-nas para onde virarem os ventos da incompetência governativa.
         Se um dia pais e filhos e educadores entrarem pelos gabinetes assépticos, gritando que não são os prédios que arrastam as crianças, mas são estas que determinam e dão sentido às construções escolares – dirão eles que se está diante de uma revolução de arruaceiros analfabetos. E, de ricochete, ouvirão a resposta: Analfabetos, esquartejadores sois vós, que roubais  “as turmas, as condições de trabalho, a aposta no acompanhamento escolar”, enfim, desenraizais de suas famílias e da sociedade envolvente as crianças desde a mais tenra idade!
Amputais do  “habitat” do seu crescimento natural  a infância carente da proximidade inter-geracional para encaixotá-la em monstruosos paredões, descaracterizados, despersonalizados, enchouriçados. De muros gradeados em volta, mais parecem prisões que sedes de Educação, onde fermentam como larvas os complexos da anomia na psique de quem se sente como um estranho. Na sua escola de origem, tinham pátios de recreio, campos de jogos, amplos espaços de lazer.
         Não menos censurável é a desertificação  a que ficam condenadas as zonas altas, olhando para a  sua antiga escola como quem tem sempre diante si um cemitério de crianças varridas do seu berço. Quem pode suportar tamanha cegueira, senão mesmo, tão desumana crueldade?!... As estradas que fizeram tanto trazem como levam. As grandes superfícies comerciais, os centros de saúde, os equipamentos desportivos e culturais, as delegações bancárias, as repartições públicas, os correios -  tudo está previamente delineado para a debandada das populações. Só lhes restam a igreja e a escola. Mas, agora, nem a escola!... A pouco e pouco, desenraízam quem aqui nasceu e tem amor à terra-madre dos seus antepassados. E lá vêm depois as mágoas das carpideiras dos gabinetes da capital sobre a “lamentável” desertificação dos meios rurais… Grandes trastes!
         Voltarei a este assunto até que as mãos me doam.
Mas não podia deixar passar em claro esta afronta à Escola, precisamente hoje, 7 de Julho, Dia Internacional da Educação. Um grande Salvè a todos os homens e mulheres que abraçaram a nobilíssima missão de Educar!

         07.Jul.16

         Martins Júnior