quarta-feira, 27 de julho de 2016

GUERRA AO “DEUS DA GUERRA”

      
      Para ajudar a entender melhor estas linhas, declaro que o título tem todo o significado daquela saudação do coro angélico na noite de Natal, ou seja: “Paz entre os homens de boa vontade”.
         Por muito importantes e decisivos que sejam os acontecimentos ocorridos hoje,  perto ou longe de nós, não poderei dar mais um passo sem demorar-me sobre o octogenário pastor de Saint-Étienne-du-Rouvray, na Normandia, barbaramente assassinado no altar, às oito e meia da manhã. Nunca na Europa tal sucedera. Aconteceu, anos antes, na Nicarágua com o bispo Óscar Romero, morto em plena celebração por vil maquinação dos capitalistas senhores das terras de El Salvador, que não consentiram ao bispo a defesa dos camponeses escravos, reduzidos à condição de servos da gleba.
         Mas é outro o caso da Normandia, outra a motivação do assassino: o ódio religioso aos cristãos. Numa palavra, a guerra das religiões, pese embora a evidência que a religião não é mais que a capa sacrílega que esconde inconfessáveis interesses de dominação político-financeira.
         O autor do crime interpretou cegamente o Corão  -  a “Guerra Santa” – sibilinamente expressa no versículo 5-51: “Ó vós que credes! Não tomeis a judeus ou cristãos por confidentes, pois uns são amigos dos outros. Aquele entre vós que os tome por confidentes será um deles”. Eis a maldição em que incorrem os que usem de tolerância religiosa. A sanção penal é a própria destruição, sem apelo nem agravo. Só assim serão desagravados  Alá e o seu Profeta. E o Hadith acrescenta: “Fazei guerra com sangue e extermínio a todos os que não crêem em Alá”. É o dogma universal e fulminante como um raio caído da morada divina, o qual, “nos finais dos anos 20, o fundador egípcio da Irmandade Islâmica, Hassan al Banna, transformou em ódio contra o Ocidente, proclamando que até a mais inócua influência ocidental constitui um acto de violência contra o Islão”.  (YoroslavTrofimov, in A Fé em Guerra).   
         Deus no epicentro da barbaridade humana. O Deus da Guerra!
         Não esqueçamos, porém, que Maomé inspirou-se no Livro, a Bíblia, para gizar o seu Alcorão. É lá que Deus se apresenta como o “Senhor Deus dos Exércitos”.  É lá, Livro dos Salmos, que se lê a oração a Deus-Iahveh, contra a Babilónia: “Hás-de ser devastada. Feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós. Feliz aquele que  pegar nos teus filhinhos e der com eles nas pedras”. (136-137). Arrepiante! Insuportável!
Sempre o Deus da Guerra!
         Até mesmo o protótipo génio criador da civilização greco-romana não hesitou em criar os deuses, afeiçoando-os aos instintos humanos, à sede de sangue e vingança, erguendo um majestoso altar a Marte, o Deus da Guerra!
         E assim se engendraram mitos, embustes, blasfémias, com a invocação de Deus para justificar as barbaridades dos homens. No último escrito, referi-me a D. Afonso Henriques, proclamado rei, após a batalha de Ourique, em 23 de Julho de 1140, cujo sucesso atribuiu a uma visão miraculosa de Jesus crucificado que terá dito ao príncipe: “Com este sinal vencerás”.  Rematado aleive e não menos insolente atrevimento do “verme”  humano contra a Divindade. Já no século IV, 13 de Junho de 313, o Imperador Constantino dera a paz aos cristãos de Roma, alegando ter sido a visão da Cruz no firmamento, com a mesma  inscrição -  In hoc signo vinces – que, um ano antes, lhe dera a vitória na batalha de Ponte Mílvia.
         E o Deus da Guerra continuou a luzir no ferro das baionetas das Ordens Religiosas Militares (os exércitos de Deus) nas sangrentas Cruzadas medievais, nas fogueiras da Inquisição, enfim, nos mais injustos combates  fratricidas, como a guerra colonial em África, onde a forçada presença de capelães militares se misturava com as atrocidades de comandos insaciáveis de sangue nativo. Não se entende esse resquício espúrio que dá pelo nome de “bispo castrense”, um bispo serventuário exclusivo das Forças Armadas. Tenho para mim, perdoem-me se me atrevo, mas tenho a convicção que o Papa Francisco está em chamas para ver-se livre da imperial “guarda suíça” do Vaticano, anacrónica e contraditória…
         “Enquanto não houver paz entre as religiões nunca haverá paz entre as nações” -  continua vivo e imperativo o pensamento de Hans Kung. Mas para aí chegar-se,  há um percurso doloroso e necessário a fazer, o de higienizar a mentalidade dos crentes, ensinando-lhes que é crime de lesa-divindade chamar Deus para os jogos sujos da guerrilha e do ódio entre povos,  nações e religiões. Quantos séculos e milénios serão precisos para alcançar a verdadeira pedagogia da espiritualidade humana?!... Basta constatar que a nossa hierarquia cristã e católica levou séculos para retirar da liturgia a malfadada expressão. “Senhor Deus dos Exércitos”.
         A Guerra ao “Deus da Guerra” – do velho Jeovah, de Alá, de Marte, dos Templários, das Cruzadas, da Inquisição, do vicariato  castrense  -  só será ganha com a catarse interior e com a purificação das instituições, para cujo êxito será necessário o nosso empenho mobilizador, com vista ao sonho dessa mágica noite de Natal: “Homens de boa vontade,  a Paz é obra vossa”.
         No entanto, o corpo frágil do Padre Jacques Hamel  jaz na campa fria. Foi assassinado pela loucura do jihadista, crente que prestava um serviço a Alá. Foi na Normandia. Em Saint-Etienne-du-Rouvray. Rouen. Ao sentir o nome de Rouen, estremeço, Porque há 585 anos (30.Maio.1431) uma jovem de 19 anos foi queimada viva, na praça pública, em Rouen,  por sentença  dos bispos da Inquisição, afectos ao domínio inglês, traidores à  pátria.
         Padre Jacques, nos teus 86 anos,  não estás só. A teu lado, tens a juventude e as cinzas quentes, libertadoras,  de Jeanne d’Arc, mais infeliz do que tu,  pois foi assassinada pelos “jihadistas” da Fé de Cristo…
         Quando chegará o dia de ver a Luz ?!     

         27.Jul.16

         Martins Júnior

segunda-feira, 25 de julho de 2016

GRITOS E TRAIÇÕES NO BERÇO ONDE NASCERAM OS PORTUGUESES


Por azar ou sorte ou ironia do destino, o dia 25 do mês tem deixado marcas indeléveis no calendário de Portugal. Num passado recente, conhecemos o 25 de Abril e o 25 de Novembro. Estranhamente, porém, o mesmo sucedeu noutro 25 – o de 1140.
Faz hoje 876 anos!
O filho do  francês  Conde D. Henrique de Borgonha firmou, pela primeira vez, o seu nome como “Rei de Portugal”. O Tratado de Zamora, cujo conteúdo muitos historiadores põem em causa, mais não foi que a confirmação em 1143, do arrojado feito de 1140.
Passados que foram quase nove séculos, que cheiro terão as cinzas encarceradas no mausoléu de Santa Cruz de Coimbra? E que baladas cantará a poeira deitada daquele que brandiu a espada de fogo em brasa contra todos quantos se lhe opunham, inclusive contra a própria mãe?...
Terá ele orgulho da paternidade que deitou ao mundo os passageiros desta jangada-rectângulo mal presa ao ancoradouro europeu?...  Moçárabes e lusos, seios de castelhanas parindo em solo português, migrantes e refugiados, príncipes e párias, santos e assassinos, senhores e escravos… Poderá o Grande  Conquistador  proclamar com Fernando Pessoa: “Valeu a pena”? Não teria sido melhor  continuar unido  à estirpe de sua mãe Teresa, a Leão e Castela?
Incógnitas que outros antes de mim já formularam, alcançando uns o cume do sucesso histórico em tantos vultos gloriosos, derivando outros para o pessimismo deprimente em que nos fizeram ou fazem-nos  afogar timoneiros sem rumo, líderes sem amor pátrio, vendidos ao capital sem ética dos insaciáveis polvos bancários e aos interesses de potências estranhas!
Não só o 1º de Dezembro, não só o 5 de Outubro, não só o 25 de Abril e não só as pomposas encenações do “Estado da Nação” deveriam fazer-nos cair no real e perfurarmos até às profundezas do Inconsciente Nacional o chão onde nascemos e vivemos. Também o “25 de Julho”, o de mais longe, o nosso cordão de nascença, puxa-nos para essa retrospectiva responsável e responsabilizante do lugar que ocupamos.
No entanto, o primeiro  Rei de Portugal não ficaria em nada surpreendido com o que visse no rasto do seu país. Ele, mais que nenhum outro português, nasceu sob o signo de lutas encarniçadas, traições, guerras matricidas, enfim, um antro de maldades e contradições que foi o berço onde se fez rei. Chamo o insuspeito e austero  Alexandre Herculano que disto nos informa na sua monumental História de Portugal, sobretudo na análise do seu reinado e em cujas palavras vagueia o perverso enunciado de Machiavel, “o fim justifica os meios”:
“O pensamento de firmar a independência portuguesa subjugava no espírito dele (Afonso Henriques) outras quaisquer considerações, ainda talvez, com ofensa de algumas que deveriam ser respeitadas. É realmente àquela ideia que vão ligar-se muitos dos seus actos, os quais, avaliados separadamente, dariam direito a acusá-lo de pouca fé e ambição desmedida. Além da rebelião com sua mãe, a quebra do Tratado feito com o Imperador em 1137, o engano imaginado para colher desprevenida a guarnição de Santarém, as crueldades praticadas com os sarracenos, a maneira, enfim,  como se houve com o rei de Leão seu genro, cujo nobre e generoso carácter não pode deixar de fazer sombra ao de Afonso I, foram acções que, avaliadas em si unicamente, serão sempre dignas de repreensão”.
Eis a factura degradante que muitas vítimas tiveram de pagar para garantir o título de rei ao Pai da Portugalidade. Será esta a sina que deixou em herança à sua prole para todo o sempre? De forma alguma. A nós, compete-nos “cumprir Portugal”. No nosso tempo e na nossa circunstância.
Permitam-me terminar esta  breve mas útil incursão sobre os nossos primórdios, recorrendo ao belo texto de Herculano:
“O afecto que lhe dedicou o povo chegou a atribuir a D. Afonso Henriques a auréola dos santos e a pretender que Roma desse ao fero conquistador a coroa que pertence à resignação do mártir, o que não aconteceu. Outra religião, porém, também venerada, a da pátria,  nos ensina que, ao passarmos pelo pálido e carcomido portal da igreja de Santa Cruz, vamos saudar as cinzas daquele homem, sem o qual  não existiria hoje a nação portuguesa e, porventura, nem sequer o nome de Portugal”.

25.Jul.16
Martins Júnior

sábado, 23 de julho de 2016

A CADA SÁBADO A SUA FESTA E A CADA DOMINGO O SEU CANTAR




 Porque Sábado é  dia de ter direitos!  Direito ao lazer e ao prazer após os sete dias da criação. Direito de ter festa. Há-as ruidosas como metralhadoras e há-as sobredouradas de lantejoulas fugazes. Há-as, ainda, opulentas do barroco musical e rococó amaneirado na decoração, na liturgia, no requinte do protocolo.
         Hoje, apenas canto a Festa do Povo na centralidade dos eventos felizes. Tem duas faces bivalves a nossa Festa: aquela, interiorizada, que começa com a chamada a reflexão comunitária  do Perdão e a outra, efusiva e vistosa,  para exteriorizar o prazer conquistado ao longo da semana.
         É essa a nossa Festa. Começou pela evocação assumida da interioridade inata que há em nós e  leva incondicionalmente aos actos do Perdão, porque sem Perdão não Festa!  Foi o dia de sexta, 22 de Julho. A outra é a festa franqueada e fresca que nos dá asas para voar e voz para cantar. Cantámos hoje, na grande cimeira solidária entre crianças, jovens e adultos. A tuna fez jorrar de mãos frágeis, inocentes, pulsões profundas de júbilo contagiante, através da grande Ode à Alegria. As canções e bailados intergeracionais – pais e filhos no mesmo embalo “doce e ledo” – continuam a ser o pão e o vinho de quem desbrava a vida sem rodeios nem fronteiras.  A Eucaristia de Sábado prolonga-se até ao cantar de Domingo, rediviva em 24 na celebração festiva, às 18 horas, altura em que o grande pedagogo da espiritualidade, o Padre José Luis Rodrigues, dirigirá a mensagem ao Povo.
         Entre a tradição e a modernidade – eis o traço característico das nossas festas. No amplo adro da Ribeira Seca, o nosso salão de festas,
cheiinho como a maçã do Paraíso, respira-se a alma pura das gentes e recupera-se a vitamina poderosa contra as viroses supervenientes.    
 “Porque hoje  é Sábado”… temos esse direito!

         23.Jul.16   
Martins Júnior



quinta-feira, 21 de julho de 2016

OS PADRES DO POMBAL: Memória de uma primavera na Igreja


Normalmente as cruzes dos epitáfios não dizem mais que  o informe da praxe: “Aqui jaz”. Outras, porém, aos olhos de quem as lê, ao vivo, brilham como um anúncio luminoso em plena escuridão da noite: “Aqui vive”!
 Foi o caso do Dr. Rufino Silva.
No preito de gratidão que  anteontem deixei aqui expresso, não coube  a longa e sábia extensão do memorial de outros tempos. Uma delas ficou conhecida pelos “Padres do Pombal”. Devo dizer quanto me enfada, até à náusea (e por isso a detesto)  essa esfarrapada “estirpe” de escribas, subservientes ao mais forte, que se arrogam o direito de escrever historietas e larachas e a que chamam “subsídios” para a História da Autonomia ou Democracia na Madeira.  Todos eles, os coevos de então, mais não fizeram senão esconder os factos reais, manipulando-os à sua maneira, para denegrir quem deu todo o seu talento e o seu corpo às causas nobres.
É o caso dos “Padres do Pombal”, com que o exemplar-mór da regional boçalidade governativa encharcou-se de baba vingativa, asquerosa.
Nunca se contou a eloquente saga desses “Quatro Cavaleiros do Apocalipse” da segunda metade do século XX na Madeira. Homens de cultura,  verticais na sua personalidade de “antes quebrar que torcer”,  numa  incondicional  entrega  à  transformação das mentalidades anquilosadas da ilha, modelos de comportamento cívico e eclesial. Pedagogos e  mestres exímios, cada qual na sua área: o Rufino Silva, formado na Pontifícia Academia de Santa Cecília, em Roma, ensinou a Madeira a cantar e deixou um inestimável repositório das tradições musicais religiosas da Região. O João da Cruz cursou Letras na Universidade Clássica de Lisboa e leccionou literatura no Liceu Nacional do Funchal. O Sidónio Figueira estudou no Pontifício Ateneu Salesiano de Itália e o Lino Cabral, meu ilustre conterrâneo, além da Religião e Moral que ministrava no ensino oficial, era o protótipo do orador sacro que arrastava multidões.
Entre outras, duas breves mas eloquentes notas características:
A primeira foi a opção por uma vida comunitária, abnegada e desprendida de toda a fumaça mundana de prestígio ou lucro vil. Decidiram viver em comunidade, sob o mesmo tecto, à imagem daquela plêiade de sacerdotes que germinou em França, à luz do Concílio Vaticano II. Habitavam um modesto prédio na Rua do Pombal, Funchal.
A segunda define-se pela inteira generosidade, sobretudo a nível sócio-cultural, dedicando largo tempo a promover os trabalhadores. Muitas horas, retiradas ao merecido descanso após as aulas diárias, estão na memória de tantos homens e mulheres que, em período pós-laboral,  completaram a sua formação académica no CCO, Centro de Cultura Operária. Tudo isto a custo zero!
Foi em meados da década de sessenta que os “Padres do Pombal” iniciaram esta, então estranha, forma de exercer o sacerdócio ao serviço de causas. Se, por um lado, prestigiou a Igreja, por outro, esta vida nova concitou a malquerença, o ódio mesmo, dos corifeus do fascismo e, já no pós-25 de Abril, a perseguição terrorista dos homens de mão da FLAMA separatista e dos respectivos seguidistas assolapados no governo regional.
A prova irrefutável deste terrorismo urbano ( de requinte que hoje chamaríamos de jihadista) foi o macabro atentado de 11 de Novembro de 1975, dia em que, pelas oito horas da manhã, um forte explosivo rebentou na sala de entrada do prédio onde habitavam os quatro sacerdotes, causando o pavor de quantos habitavam ou circulavam naquela rua. Os abutres facínoras estavam saciados do seu ódio contra quem  só fez o bem à Madeira. Ninguém, senão o Povo, os defendeu. Nem a própria Igreja governada pelo colaboracionista do regime salazarista, o bispo Francisco Santana. Após o alvoroço que tal acto produziu, sobretudo no Funchal, muitos foram os curiosos que lá apareceram e se solidarizaram com os inquilinos da casa. Eu fui um deles, juntamente com  o funcionário superior das Finanlas, o Sr. Oliveira (pai do falecido Dr. Paquete) o qual vociferava em altos brados contra o bispo, o católico Jornal da Madeira e contra a Igreja diocesana, conivente e cobarde com tais acontecimentos.
   Deixo aqui o testemunho verídico de há quarenta e cinquenta anos. Para que os homens não esqueçam. Possivelmente voltarei ao caso, às suas incidências e consequências, adiantando, desde já, o ostracismo a que quatro valorosos sacerdotes foram votados pela hierarquia católica regional, ao ponto de abandonar  o sacerdócio e refazer, do nada, a sua vida civil. Suprema ingratidão dos farisaicos “Homens da Misericórdia”, só comparável à destruição cultural e social que tais factos produziram nesta ilha.
No epitáfio do Rufino Silva e do Lino Cabral que “deixaram de ser vistos”, não figuram os crepes da morte. Pelo contrário, ali pode ver-se o glorioso anúncio da Vida, onde se lê: “Aqui mora a flor da  Primavera, aquela que foi e continua à tua espera,  para reflorir num Tempo Novo”.

21.Jul.16

Martins Júnior

terça-feira, 19 de julho de 2016

ADAGIO CANTABILE : De mão em mão e de boca em boca!


Não sou de chorar mágoas nem cantar loas ao viajante na Barca de Caronte. Basta aceitar da sua mão – e nunca deixar morrer – o facho olímpico com que iluminou o mundo.
Naquele navio, onde todos embarcamos, não vi um corpo morto. Vi a partitura latente de uma vida inteira. Vi  todos os andamentos existenciais que ritmaram oitenta e sete anos, feitos de pautas vibrantes e pausas cantantes,  que só ele as sabia decifrar. Todos os andamentos… também as áreas da Paixão segundo São João, de Bach. Também as sonatas dolentes de Chopin  e o allegro pizzicato de Mozart. Também os coros retumbantes  de Wagner e Verdi. Mas, de todo o oceano rítmico em que vivia mergulhado, o que permanecia sempre inalterável no rosto sereno era o Adagio cantabile que nos deixou por herança, como se todas as agruras e tormentos ficassem submersas nas funduras abissais.
Um dia disse-me: “Somos construtores de capelas imperfeitas”. E esclareceu-me: “Capelas Perfeitas como as do Mosteiro da Batalha… mas Capelas Imperfeitas porque inacabadas. Outros continuarão a construí-las”.
É esse o testamento e a chama que nos unem. Quisera eu ter toda a vida e toda  a eternidade para  ajudar, como ele,  o mundo em construção, sabendo bem  que de  todos os esforços ficará sempre a obra inacabada. Refazer, com ele, a canção sobre a letra que escrevi, há mais de cinco décadas:

Grito de paz é o nosso grito
         Marcha de sol é o nosso passo
         Somos a voz do Infinito
Da cruz, do pão e do abraço

Para a Augusta, sua grande musa inspiradora e companheira de ouro, fica o outro tom da Cidade Nova que o Rufino adaptou a um “negro-espiritual”, muito antes dos cravos de Abril:

Vem comigo ver as ruas
De uma nova cidade
O Povo já tem pão
O pão da liberdade
Vem ver, oh vem…
As mãos estão vermelhas
De sangue e de alegria
O Povo quis lutar
Nasceu um novo Tempo Novo
Vem ver o Dia

Irmão, Irmão
Traz a tua fome
Traz as mãos e constrói a Rua
A cidade, a Cidade Nova
Já é  tua.
19 de Julho. Faltam seis meses para o 19 de Janeiro – o dia de mais um ano teu. Estaremos cá para trazer-te à nossa mesa e, aí sim, cantarmos as tuas Sinfonias Incompletas… as nossas Capelas Imperfeitas. Que bom saber que as tuas mãos continuam nos nossos braços e que os nossos dedos germinarão rebentos de futuro.  

 19.Jul.16
Martins Júnior

    

domingo, 17 de julho de 2016

DIA DE ESQUECER… PORQUE É DIA DE LEMBRAR !


Escrevo debruçado à janela deste domingo, 17, olhando a paisagem de segunda, 18 de Julho. E ela, a paisagem, é toda branca. E azul e verde marinho. E ametista e ouro astral. Só “porque um Menino nasceu, foi-nos dado um Príncipe da Paz”, tal como os profetas messiânicos anunciaram ao povo judeu, desesperadamente amarrado ao cepo da guerra e mais desesperadamente sedento da verde planície sem termo.
Não esqueço as magmas abissais onde me deitaram a dormir, prestes a estourarem os miolos de todo o universo. Mas hoje tenho saudade – mais que saudade, sinto a  orgia incontida – de ver estendido à minha frente o lençol de água refrescante nestes dias de sufoco. Deixem-me recostar a cabeça, nem que seja por um dia, na almofada suave e segura a que todos temos direito.
E esse dia abre-se hoje diante dos meus olhos. “Porque um Menino nasceu”. Continuo a citar, sem esforço, sábias inspirações de antigas   canções:  “Não sei que nome te hei-de dar”, ó Dia Singular!…
Quisera transformar em poema, sem rima nem métrica, tudo quanto me acompanha hoje e amanhã, como um bordão de Moisés, nesta escalada até alcançar o inalcançável Monte Sinai, a Promessa de um Mundo Novo. Ficarei embebido em êxtase, contemplando um manto de negritude que , magicamente, tornou  brancos e diáfanos os farrapos de sangue inocente.
Foi-nos dado um Menino!
O Menino chama-se Nelson, nascido em 18 de Julho de 1918. Mandela ou Mandiba deveria ser hoje e amanhã  a abóbada celeste que nos contém,  o chão universal que nos mantém.  O colo saudoso de um coração de mãe. Ai, as inesgotáveis metáforas que eu desejaria criar! Mas de nenhuma delas tem necessidade o gigante de coração de criança. Basta-me ficar vigilante e aberto à eloquência de três citações infinitas:
“”Ninguém nasce odiando uma pessoa pela cor da pele, ou pela sua origem, ou pela sua religião, Para  odiar, as pessoas precisam aprender e se elas aprendem a odiar, também podem aprender a amar”
…………….
“Devemos promover a coragem onde há o medo, promover o acordo onde há conflito e inspirar confiança onde há desespero”.
………….
“Eu sou o capitão das minha alma”!

Vem, de novo, Mandela. Entre hoje e amanhã, calem-se as armas. Anulem-se as sanções Abracem-se as nações.

17.Jul.16

Martins Júnior  

sexta-feira, 15 de julho de 2016

MULHERES AO PODER ?!


Onde acharei um pico alto ou tronco de árvore para fugir destes subterrâneos cavernoso e ululantes à minha volta? O areal de Nice já é mortalha ensopada em sangue inocente. E em cada maré desta praia redonda  em que se tornou o planeta há sempre um mar vermelho de dor, um mediterrâneo de medo e desolação.
Para onde irei?
Pois, em breves palavras, di-lo-ei sem sombra do vulcão de críticas que possa suscitar. Vou no encalce do doce cheiro de Mulher, da sua intuição persuasiva, enfim, como Umberto Eco, – mais que do nome – correrei atrás  do “Perfume da Rosa”. Essa nova  brisa, suave mas poderosa, já desce das colinas, entra pelas portas e janelas que habitamos, sobe as escadas da plebe e alcança o trono real. Como a um talismã inamovível não lhe poderemos fugir.
Preferia ficar por aqui, numa alegoria deliciante de fim-de-semana. Mas terei de decifrá-la. Refiro-me a essa onda que envolve o mundo e que reflecte a chegada da Mulher ao pódio do Poder. Não pela força das “quotas de paridade”, nem pela simpatia subtil que amolece os homens, mas por mérito próprio. As notícias que correm mundo  informam que mais duas mulheres estão prestes a juntar-se a essa plêiade feminina que terá a seus pés os destinos de nações.   Falo da britânica  Theresa May e da norte-americana Hillary Clinton, prestes a tomarem o leme desses magnatas da economia, o Reino Unido e os Estados Unidos da América.
Lembro-me de alguém, um dia,ter   expresso um voto histórico, embora escarnecido e vilipendiado por  certos pigmeus: “Como eu gostaria de ver o mundo governado por poetas”!... Da mesma forma, questionaria perante os analistas: Como é que seria o mundo governado por mulheres?
Queiramos ou não, é essa a boa-nova que cintila no horizonte. Brevemente, uma importante soma da humanidade prestar-lhes-á vassalagem, ter-se-á finado a supremacia machista do Poder.
Mas a ascensão feminina às mais altas instâncias da governação fica coroada de êxito com a nomeação de uma Mulher como vice porta-voz do Vaticano. É ela, uma madrilena, jornalista, Paloma Garcia Ovejero, de 40 anos de idade.  Os jornais de todo o mundo têm garbo em estampar em 1ª página o título :”Uma mulher entre a cúpula do Vaticano”.  Se, de um lado, se enaltece a juventude congénita de um octogenário Papa, releva-se, por outro,  a visão aberta de Paloma, em dois registo da sua primeira entrevista:” Por que razão as principais notícias da Igreja nos media hão-de ser sempre os seus pecados?... Creio que há que pôr-se um pouco de rock and rol na comunicação vaticana”.
É esta a nova aragem que trazem as Mulheres para este fim-de-semana, encharcado em sangue. Sei que, a par das guerras cruéis que nos sufocam, também fervem as “guerras de género”, assunto que merece tratamento adequado noutra altura. Mas deixem-me, por hoje, respirar o “perfume de Rosa” com que a condição feminina vai inundando o planeta.
Um mundo governado por mulheres!
Seja bem-vindo, de braço dado com os homens, e vista de optimismo, sensibilidade e amor os cemitérios a céu-aberto que o  rasto de outros tem deixado por herança.   

15.Jul.16

Martins Júnior