domingo, 31 de julho de 2016

GOSTOSO BRINDE DE FÉRIAS ESTIVAIS


É o verão em pleno: a estação do “ver”, viajar, olhar para fora -  tudo composto num único vocábulo, o “voyeurismo” - que, descontando o transporte abusivo do galicismo para o nosso idioma,  significará, no seu sentido mais amplo, o abandono do consciente pessoal para dispersar-se e perder-se no colorido vácuo da paisagem exterior.
Mas nem sempre é assim. No festival do batuque envolvente de cruzeiros, paradas musicais, corridas e arraiais, há sempre alguém que nos convida para a nossa própria cabana, abre-nos a porta e faz-nos olhar uma outra paisagem – o nosso mundo interior – que a azáfama impertinente do ano inteiro não nos deixa ver. Há sempre quem nos ensine a viajar para dentro de nós. E é o que mais  falta faz ao viajante-vigilante, que habita nas paredes que somos.
Pois bem: foi exactamente este convite que me foi dado a mim e a todos quantos estiveram na exposição que a escola das artes, dirigida pela singular artista Alexandra Carvalho, apresentou no salão de actividade culturais da Junta de Freguesia de Machico neste fim-de-semana e fim-de- ano didáctico. O tema não podia ser mais adequado: o retrato. E dentro dele, o mais apetecido: o auto-retrato. Ao espectador desprevenido deverá ter causado – foi o meu caso - um sentimento de intriga e espanto pois, além de cinco ou seis imagens figurativas, os quadros apresentados saltavam da tela como línguas de fogo numa embriaguez de cor e vida. Outras, mais profundas, primavam pela penumbra de um verde tropical sob um sol recatado. O friso de imagens deste teor mais emotivo e concentracionário apresentava-se sob a nomenclatura comum de “auto-retrato”.
Foram estas,  as “paisagens interiores”, que me agarraram pelo tronco e me mantiveram estaticamente activo (passe a antítese) na busca incessante do rosto, da alma - do psiquismo enigmático que se desentranhasse daqueles traços aparentemente desconexos, daqueles retorcidos braços em flor, daquele complexo jogo de caras e cores, a um tempo harmoniosas e contraditórias. No entanto, uma mensagem tão subtil como eloquente enchia-me os olhos e o espírito. A tal ponto que tive de recorrer aos próprios autores para decifrar a leitura mais fidedigna da mensagem. Que beleza e que sabor indizível disfrutar da fogosidade e do sonho daqueles jovens artistas  retratando na tela as coordenadas invisíveis do planisfério que lhes vai na alma!


Gostaria de reproduzir aqui todos os quadros, o que me é impossível. E com muita pena minha, pois merecem ser partilhados, interpretados e assimilados por quem tenha olhos de ver. Continuam em exposição até 19 de Agosto. “Vai valer a pena”!
Achei importante que lá estivessem os responsáveis autárquicos da freguesia e do concelho, fornecedores das instalações onde decorreu o ano didáctico, bem como os apoios logísticos dispensados. É o seu dever. E é a sua honra. À professora Alexandra Carvalho e seus pupilos, as congratulações e o reconhecimento pelo brinde de férias estivais que nos ofereceram.
Olhar para dentro, viajar dentro de nós, enfim - na esteira pedagógica de Freud e  Carl Jung– que gostoso estar neste laboratório de psicanálise plasmada em arte!

 31.Jul-1Ago.16

Martins Júnior

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A PRIMAVERA EM JULHO

29 Setembro 1990
2 Abril 2011
29 Julho 2013 !!!

À Natália e ao José Lino pela Vitória que fizeram


Um dia foi…
Das rendas do bercinho leve
Fizeram-lhe as tábuas
Do caixão breve

E outro dia foi…
No chão crivado de mágoas
Sobre cardos frios e espinhos nus
Voou um pássaro de fogo arcanjo da luz
Um ano inteiro chorou
E outro todo cantou
E uma pérola se abriu em corola
Pele de seda e tranças de ouro
Olhar que redime e consola
Do longo pranto de outrora

Chamaram-te Vitória
E eras também  Primavera
Manhã de Páscoa
Asa de Fénix que se espera
Canção de outro mundo que abraçou a terra

Quem escrever a tua história
Há-de chamar-te mais longe
De um século que não foi teu
Mas dentro de ti renasceu
Seiva do mesmo tronco e fruto do mesmo ramo
Por isso
Três vezes hoje canto
E três anos alto proclamo:
Ditoso o seio que te trouxe
Contigo
O mar salgado fez-se doce
E aquele antigo muro
Sem entradas nem saídas
Transfigurou as nossas vidas

Abriu a estrada branca do futuro

Martins Júnior
29.Jun.2016

quarta-feira, 27 de julho de 2016

GUERRA AO “DEUS DA GUERRA”

      
      Para ajudar a entender melhor estas linhas, declaro que o título tem todo o significado daquela saudação do coro angélico na noite de Natal, ou seja: “Paz entre os homens de boa vontade”.
         Por muito importantes e decisivos que sejam os acontecimentos ocorridos hoje,  perto ou longe de nós, não poderei dar mais um passo sem demorar-me sobre o octogenário pastor de Saint-Étienne-du-Rouvray, na Normandia, barbaramente assassinado no altar, às oito e meia da manhã. Nunca na Europa tal sucedera. Aconteceu, anos antes, na Nicarágua com o bispo Óscar Romero, morto em plena celebração por vil maquinação dos capitalistas senhores das terras de El Salvador, que não consentiram ao bispo a defesa dos camponeses escravos, reduzidos à condição de servos da gleba.
         Mas é outro o caso da Normandia, outra a motivação do assassino: o ódio religioso aos cristãos. Numa palavra, a guerra das religiões, pese embora a evidência que a religião não é mais que a capa sacrílega que esconde inconfessáveis interesses de dominação político-financeira.
         O autor do crime interpretou cegamente o Corão  -  a “Guerra Santa” – sibilinamente expressa no versículo 5-51: “Ó vós que credes! Não tomeis a judeus ou cristãos por confidentes, pois uns são amigos dos outros. Aquele entre vós que os tome por confidentes será um deles”. Eis a maldição em que incorrem os que usem de tolerância religiosa. A sanção penal é a própria destruição, sem apelo nem agravo. Só assim serão desagravados  Alá e o seu Profeta. E o Hadith acrescenta: “Fazei guerra com sangue e extermínio a todos os que não crêem em Alá”. É o dogma universal e fulminante como um raio caído da morada divina, o qual, “nos finais dos anos 20, o fundador egípcio da Irmandade Islâmica, Hassan al Banna, transformou em ódio contra o Ocidente, proclamando que até a mais inócua influência ocidental constitui um acto de violência contra o Islão”.  (YoroslavTrofimov, in A Fé em Guerra).   
         Deus no epicentro da barbaridade humana. O Deus da Guerra!
         Não esqueçamos, porém, que Maomé inspirou-se no Livro, a Bíblia, para gizar o seu Alcorão. É lá que Deus se apresenta como o “Senhor Deus dos Exércitos”.  É lá, Livro dos Salmos, que se lê a oração a Deus-Iahveh, contra a Babilónia: “Hás-de ser devastada. Feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós. Feliz aquele que  pegar nos teus filhinhos e der com eles nas pedras”. (136-137). Arrepiante! Insuportável!
Sempre o Deus da Guerra!
         Até mesmo o protótipo génio criador da civilização greco-romana não hesitou em criar os deuses, afeiçoando-os aos instintos humanos, à sede de sangue e vingança, erguendo um majestoso altar a Marte, o Deus da Guerra!
         E assim se engendraram mitos, embustes, blasfémias, com a invocação de Deus para justificar as barbaridades dos homens. No último escrito, referi-me a D. Afonso Henriques, proclamado rei, após a batalha de Ourique, em 23 de Julho de 1140, cujo sucesso atribuiu a uma visão miraculosa de Jesus crucificado que terá dito ao príncipe: “Com este sinal vencerás”.  Rematado aleive e não menos insolente atrevimento do “verme”  humano contra a Divindade. Já no século IV, 13 de Junho de 313, o Imperador Constantino dera a paz aos cristãos de Roma, alegando ter sido a visão da Cruz no firmamento, com a mesma  inscrição -  In hoc signo vinces – que, um ano antes, lhe dera a vitória na batalha de Ponte Mílvia.
         E o Deus da Guerra continuou a luzir no ferro das baionetas das Ordens Religiosas Militares (os exércitos de Deus) nas sangrentas Cruzadas medievais, nas fogueiras da Inquisição, enfim, nos mais injustos combates  fratricidas, como a guerra colonial em África, onde a forçada presença de capelães militares se misturava com as atrocidades de comandos insaciáveis de sangue nativo. Não se entende esse resquício espúrio que dá pelo nome de “bispo castrense”, um bispo serventuário exclusivo das Forças Armadas. Tenho para mim, perdoem-me se me atrevo, mas tenho a convicção que o Papa Francisco está em chamas para ver-se livre da imperial “guarda suíça” do Vaticano, anacrónica e contraditória…
         “Enquanto não houver paz entre as religiões nunca haverá paz entre as nações” -  continua vivo e imperativo o pensamento de Hans Kung. Mas para aí chegar-se,  há um percurso doloroso e necessário a fazer, o de higienizar a mentalidade dos crentes, ensinando-lhes que é crime de lesa-divindade chamar Deus para os jogos sujos da guerrilha e do ódio entre povos,  nações e religiões. Quantos séculos e milénios serão precisos para alcançar a verdadeira pedagogia da espiritualidade humana?!... Basta constatar que a nossa hierarquia cristã e católica levou séculos para retirar da liturgia a malfadada expressão. “Senhor Deus dos Exércitos”.
         A Guerra ao “Deus da Guerra” – do velho Jeovah, de Alá, de Marte, dos Templários, das Cruzadas, da Inquisição, do vicariato  castrense  -  só será ganha com a catarse interior e com a purificação das instituições, para cujo êxito será necessário o nosso empenho mobilizador, com vista ao sonho dessa mágica noite de Natal: “Homens de boa vontade,  a Paz é obra vossa”.
         No entanto, o corpo frágil do Padre Jacques Hamel  jaz na campa fria. Foi assassinado pela loucura do jihadista, crente que prestava um serviço a Alá. Foi na Normandia. Em Saint-Etienne-du-Rouvray. Rouen. Ao sentir o nome de Rouen, estremeço, Porque há 585 anos (30.Maio.1431) uma jovem de 19 anos foi queimada viva, na praça pública, em Rouen,  por sentença  dos bispos da Inquisição, afectos ao domínio inglês, traidores à  pátria.
         Padre Jacques, nos teus 86 anos,  não estás só. A teu lado, tens a juventude e as cinzas quentes, libertadoras,  de Jeanne d’Arc, mais infeliz do que tu,  pois foi assassinada pelos “jihadistas” da Fé de Cristo…
         Quando chegará o dia de ver a Luz ?!     

         27.Jul.16

         Martins Júnior

segunda-feira, 25 de julho de 2016

GRITOS E TRAIÇÕES NO BERÇO ONDE NASCERAM OS PORTUGUESES


Por azar ou sorte ou ironia do destino, o dia 25 do mês tem deixado marcas indeléveis no calendário de Portugal. Num passado recente, conhecemos o 25 de Abril e o 25 de Novembro. Estranhamente, porém, o mesmo sucedeu noutro 25 – o de 1140.
Faz hoje 876 anos!
O filho do  francês  Conde D. Henrique de Borgonha firmou, pela primeira vez, o seu nome como “Rei de Portugal”. O Tratado de Zamora, cujo conteúdo muitos historiadores põem em causa, mais não foi que a confirmação em 1143, do arrojado feito de 1140.
Passados que foram quase nove séculos, que cheiro terão as cinzas encarceradas no mausoléu de Santa Cruz de Coimbra? E que baladas cantará a poeira deitada daquele que brandiu a espada de fogo em brasa contra todos quantos se lhe opunham, inclusive contra a própria mãe?...
Terá ele orgulho da paternidade que deitou ao mundo os passageiros desta jangada-rectângulo mal presa ao ancoradouro europeu?...  Moçárabes e lusos, seios de castelhanas parindo em solo português, migrantes e refugiados, príncipes e párias, santos e assassinos, senhores e escravos… Poderá o Grande  Conquistador  proclamar com Fernando Pessoa: “Valeu a pena”? Não teria sido melhor  continuar unido  à estirpe de sua mãe Teresa, a Leão e Castela?
Incógnitas que outros antes de mim já formularam, alcançando uns o cume do sucesso histórico em tantos vultos gloriosos, derivando outros para o pessimismo deprimente em que nos fizeram ou fazem-nos  afogar timoneiros sem rumo, líderes sem amor pátrio, vendidos ao capital sem ética dos insaciáveis polvos bancários e aos interesses de potências estranhas!
Não só o 1º de Dezembro, não só o 5 de Outubro, não só o 25 de Abril e não só as pomposas encenações do “Estado da Nação” deveriam fazer-nos cair no real e perfurarmos até às profundezas do Inconsciente Nacional o chão onde nascemos e vivemos. Também o “25 de Julho”, o de mais longe, o nosso cordão de nascença, puxa-nos para essa retrospectiva responsável e responsabilizante do lugar que ocupamos.
No entanto, o primeiro  Rei de Portugal não ficaria em nada surpreendido com o que visse no rasto do seu país. Ele, mais que nenhum outro português, nasceu sob o signo de lutas encarniçadas, traições, guerras matricidas, enfim, um antro de maldades e contradições que foi o berço onde se fez rei. Chamo o insuspeito e austero  Alexandre Herculano que disto nos informa na sua monumental História de Portugal, sobretudo na análise do seu reinado e em cujas palavras vagueia o perverso enunciado de Machiavel, “o fim justifica os meios”:
“O pensamento de firmar a independência portuguesa subjugava no espírito dele (Afonso Henriques) outras quaisquer considerações, ainda talvez, com ofensa de algumas que deveriam ser respeitadas. É realmente àquela ideia que vão ligar-se muitos dos seus actos, os quais, avaliados separadamente, dariam direito a acusá-lo de pouca fé e ambição desmedida. Além da rebelião com sua mãe, a quebra do Tratado feito com o Imperador em 1137, o engano imaginado para colher desprevenida a guarnição de Santarém, as crueldades praticadas com os sarracenos, a maneira, enfim,  como se houve com o rei de Leão seu genro, cujo nobre e generoso carácter não pode deixar de fazer sombra ao de Afonso I, foram acções que, avaliadas em si unicamente, serão sempre dignas de repreensão”.
Eis a factura degradante que muitas vítimas tiveram de pagar para garantir o título de rei ao Pai da Portugalidade. Será esta a sina que deixou em herança à sua prole para todo o sempre? De forma alguma. A nós, compete-nos “cumprir Portugal”. No nosso tempo e na nossa circunstância.
Permitam-me terminar esta  breve mas útil incursão sobre os nossos primórdios, recorrendo ao belo texto de Herculano:
“O afecto que lhe dedicou o povo chegou a atribuir a D. Afonso Henriques a auréola dos santos e a pretender que Roma desse ao fero conquistador a coroa que pertence à resignação do mártir, o que não aconteceu. Outra religião, porém, também venerada, a da pátria,  nos ensina que, ao passarmos pelo pálido e carcomido portal da igreja de Santa Cruz, vamos saudar as cinzas daquele homem, sem o qual  não existiria hoje a nação portuguesa e, porventura, nem sequer o nome de Portugal”.

25.Jul.16
Martins Júnior

sábado, 23 de julho de 2016

A CADA SÁBADO A SUA FESTA E A CADA DOMINGO O SEU CANTAR




 Porque Sábado é  dia de ter direitos!  Direito ao lazer e ao prazer após os sete dias da criação. Direito de ter festa. Há-as ruidosas como metralhadoras e há-as sobredouradas de lantejoulas fugazes. Há-as, ainda, opulentas do barroco musical e rococó amaneirado na decoração, na liturgia, no requinte do protocolo.
         Hoje, apenas canto a Festa do Povo na centralidade dos eventos felizes. Tem duas faces bivalves a nossa Festa: aquela, interiorizada, que começa com a chamada a reflexão comunitária  do Perdão e a outra, efusiva e vistosa,  para exteriorizar o prazer conquistado ao longo da semana.
         É essa a nossa Festa. Começou pela evocação assumida da interioridade inata que há em nós e  leva incondicionalmente aos actos do Perdão, porque sem Perdão não Festa!  Foi o dia de sexta, 22 de Julho. A outra é a festa franqueada e fresca que nos dá asas para voar e voz para cantar. Cantámos hoje, na grande cimeira solidária entre crianças, jovens e adultos. A tuna fez jorrar de mãos frágeis, inocentes, pulsões profundas de júbilo contagiante, através da grande Ode à Alegria. As canções e bailados intergeracionais – pais e filhos no mesmo embalo “doce e ledo” – continuam a ser o pão e o vinho de quem desbrava a vida sem rodeios nem fronteiras.  A Eucaristia de Sábado prolonga-se até ao cantar de Domingo, rediviva em 24 na celebração festiva, às 18 horas, altura em que o grande pedagogo da espiritualidade, o Padre José Luis Rodrigues, dirigirá a mensagem ao Povo.
         Entre a tradição e a modernidade – eis o traço característico das nossas festas. No amplo adro da Ribeira Seca, o nosso salão de festas,
cheiinho como a maçã do Paraíso, respira-se a alma pura das gentes e recupera-se a vitamina poderosa contra as viroses supervenientes.    
 “Porque hoje  é Sábado”… temos esse direito!

         23.Jul.16   
Martins Júnior



quinta-feira, 21 de julho de 2016

OS PADRES DO POMBAL: Memória de uma primavera na Igreja


Normalmente as cruzes dos epitáfios não dizem mais que  o informe da praxe: “Aqui jaz”. Outras, porém, aos olhos de quem as lê, ao vivo, brilham como um anúncio luminoso em plena escuridão da noite: “Aqui vive”!
 Foi o caso do Dr. Rufino Silva.
No preito de gratidão que  anteontem deixei aqui expresso, não coube  a longa e sábia extensão do memorial de outros tempos. Uma delas ficou conhecida pelos “Padres do Pombal”. Devo dizer quanto me enfada, até à náusea (e por isso a detesto)  essa esfarrapada “estirpe” de escribas, subservientes ao mais forte, que se arrogam o direito de escrever historietas e larachas e a que chamam “subsídios” para a História da Autonomia ou Democracia na Madeira.  Todos eles, os coevos de então, mais não fizeram senão esconder os factos reais, manipulando-os à sua maneira, para denegrir quem deu todo o seu talento e o seu corpo às causas nobres.
É o caso dos “Padres do Pombal”, com que o exemplar-mór da regional boçalidade governativa encharcou-se de baba vingativa, asquerosa.
Nunca se contou a eloquente saga desses “Quatro Cavaleiros do Apocalipse” da segunda metade do século XX na Madeira. Homens de cultura,  verticais na sua personalidade de “antes quebrar que torcer”,  numa  incondicional  entrega  à  transformação das mentalidades anquilosadas da ilha, modelos de comportamento cívico e eclesial. Pedagogos e  mestres exímios, cada qual na sua área: o Rufino Silva, formado na Pontifícia Academia de Santa Cecília, em Roma, ensinou a Madeira a cantar e deixou um inestimável repositório das tradições musicais religiosas da Região. O João da Cruz cursou Letras na Universidade Clássica de Lisboa e leccionou literatura no Liceu Nacional do Funchal. O Sidónio Figueira estudou no Pontifício Ateneu Salesiano de Itália e o Lino Cabral, meu ilustre conterrâneo, além da Religião e Moral que ministrava no ensino oficial, era o protótipo do orador sacro que arrastava multidões.
Entre outras, duas breves mas eloquentes notas características:
A primeira foi a opção por uma vida comunitária, abnegada e desprendida de toda a fumaça mundana de prestígio ou lucro vil. Decidiram viver em comunidade, sob o mesmo tecto, à imagem daquela plêiade de sacerdotes que germinou em França, à luz do Concílio Vaticano II. Habitavam um modesto prédio na Rua do Pombal, Funchal.
A segunda define-se pela inteira generosidade, sobretudo a nível sócio-cultural, dedicando largo tempo a promover os trabalhadores. Muitas horas, retiradas ao merecido descanso após as aulas diárias, estão na memória de tantos homens e mulheres que, em período pós-laboral,  completaram a sua formação académica no CCO, Centro de Cultura Operária. Tudo isto a custo zero!
Foi em meados da década de sessenta que os “Padres do Pombal” iniciaram esta, então estranha, forma de exercer o sacerdócio ao serviço de causas. Se, por um lado, prestigiou a Igreja, por outro, esta vida nova concitou a malquerença, o ódio mesmo, dos corifeus do fascismo e, já no pós-25 de Abril, a perseguição terrorista dos homens de mão da FLAMA separatista e dos respectivos seguidistas assolapados no governo regional.
A prova irrefutável deste terrorismo urbano ( de requinte que hoje chamaríamos de jihadista) foi o macabro atentado de 11 de Novembro de 1975, dia em que, pelas oito horas da manhã, um forte explosivo rebentou na sala de entrada do prédio onde habitavam os quatro sacerdotes, causando o pavor de quantos habitavam ou circulavam naquela rua. Os abutres facínoras estavam saciados do seu ódio contra quem  só fez o bem à Madeira. Ninguém, senão o Povo, os defendeu. Nem a própria Igreja governada pelo colaboracionista do regime salazarista, o bispo Francisco Santana. Após o alvoroço que tal acto produziu, sobretudo no Funchal, muitos foram os curiosos que lá apareceram e se solidarizaram com os inquilinos da casa. Eu fui um deles, juntamente com  o funcionário superior das Finanlas, o Sr. Oliveira (pai do falecido Dr. Paquete) o qual vociferava em altos brados contra o bispo, o católico Jornal da Madeira e contra a Igreja diocesana, conivente e cobarde com tais acontecimentos.
   Deixo aqui o testemunho verídico de há quarenta e cinquenta anos. Para que os homens não esqueçam. Possivelmente voltarei ao caso, às suas incidências e consequências, adiantando, desde já, o ostracismo a que quatro valorosos sacerdotes foram votados pela hierarquia católica regional, ao ponto de abandonar  o sacerdócio e refazer, do nada, a sua vida civil. Suprema ingratidão dos farisaicos “Homens da Misericórdia”, só comparável à destruição cultural e social que tais factos produziram nesta ilha.
No epitáfio do Rufino Silva e do Lino Cabral que “deixaram de ser vistos”, não figuram os crepes da morte. Pelo contrário, ali pode ver-se o glorioso anúncio da Vida, onde se lê: “Aqui mora a flor da  Primavera, aquela que foi e continua à tua espera,  para reflorir num Tempo Novo”.

21.Jul.16

Martins Júnior

terça-feira, 19 de julho de 2016

ADAGIO CANTABILE : De mão em mão e de boca em boca!


Não sou de chorar mágoas nem cantar loas ao viajante na Barca de Caronte. Basta aceitar da sua mão – e nunca deixar morrer – o facho olímpico com que iluminou o mundo.
Naquele navio, onde todos embarcamos, não vi um corpo morto. Vi a partitura latente de uma vida inteira. Vi  todos os andamentos existenciais que ritmaram oitenta e sete anos, feitos de pautas vibrantes e pausas cantantes,  que só ele as sabia decifrar. Todos os andamentos… também as áreas da Paixão segundo São João, de Bach. Também as sonatas dolentes de Chopin  e o allegro pizzicato de Mozart. Também os coros retumbantes  de Wagner e Verdi. Mas, de todo o oceano rítmico em que vivia mergulhado, o que permanecia sempre inalterável no rosto sereno era o Adagio cantabile que nos deixou por herança, como se todas as agruras e tormentos ficassem submersas nas funduras abissais.
Um dia disse-me: “Somos construtores de capelas imperfeitas”. E esclareceu-me: “Capelas Perfeitas como as do Mosteiro da Batalha… mas Capelas Imperfeitas porque inacabadas. Outros continuarão a construí-las”.
É esse o testamento e a chama que nos unem. Quisera eu ter toda a vida e toda  a eternidade para  ajudar, como ele,  o mundo em construção, sabendo bem  que de  todos os esforços ficará sempre a obra inacabada. Refazer, com ele, a canção sobre a letra que escrevi, há mais de cinco décadas:

Grito de paz é o nosso grito
         Marcha de sol é o nosso passo
         Somos a voz do Infinito
Da cruz, do pão e do abraço

Para a Augusta, sua grande musa inspiradora e companheira de ouro, fica o outro tom da Cidade Nova que o Rufino adaptou a um “negro-espiritual”, muito antes dos cravos de Abril:

Vem comigo ver as ruas
De uma nova cidade
O Povo já tem pão
O pão da liberdade
Vem ver, oh vem…
As mãos estão vermelhas
De sangue e de alegria
O Povo quis lutar
Nasceu um novo Tempo Novo
Vem ver o Dia

Irmão, Irmão
Traz a tua fome
Traz as mãos e constrói a Rua
A cidade, a Cidade Nova
Já é  tua.
19 de Julho. Faltam seis meses para o 19 de Janeiro – o dia de mais um ano teu. Estaremos cá para trazer-te à nossa mesa e, aí sim, cantarmos as tuas Sinfonias Incompletas… as nossas Capelas Imperfeitas. Que bom saber que as tuas mãos continuam nos nossos braços e que os nossos dedos germinarão rebentos de futuro.  

 19.Jul.16
Martins Júnior