segunda-feira, 3 de outubro de 2016

“ÉRAMOS FELIZES E NÃO SABÍAMOS” – Belíssima entrada para o Dia de Machico


O estribilho, de pura inspiração pessoana,  percorre caminhos de outrora, povoa ritmos e canções, desvenda segredos e prazeres de outras eras em que a felicidade, de tão inteira e plena, nem dávamos por ela.
         Foi este o sabor e foi este o cheiro que  neste fim de tarde, no vetusto Solar do Ribeirinho, tomaram conta daqueles que seguiram o roteiro biblio-fotográfico de Machico nos alvores da Primavera de Abril. Aí desfilaram memórias, escaladas ascendentes e mergulhos empolgantes, uns gloriosos outros sofridos, numa atmosfera livre e saudável, colada ao corpo das pessoas e à  beleza do vale. Para quem como eu e muitos que ali estavam, maior foi esse perfume a felicidade, porque juntos fôramos sonho criativo e, ao mesmo tempo, pá, enxada e picareta – arquitectos e artífices braçais do que então foi feito.
         Pela mão do Dr. Bernardo Martins, também ele construtor do feito, percorremos o historial do denominado “Centro de Informação Popular”, nascido logo no coração de Abril de 1974.  Antes de certas “élites” madeirenses se organizarem em movimentos sócio-culturais ou políticos, já em Machico,  o chamado “Povo Unido”  (uma nomenclatura genuinamente local e mais tarde tomada por outras formações estranhas ao concelho) descobriu que tinha de estruturar-se colectivamente para alcançar o seu lugar ao sol, esse merecido sol que durante cinco séculos tinha sido negado a pais e avós.
         Não vou aqui inventariar o espólio – valiosíssimo, para quem tem olhos de ver – que nos mostra o salão de exposições do Solar. Apenas respirar de saudade e de íntima fruição de um mundo em que “éramos felizes e não sabíamos”.  O alinhamento lógico e cronológico dos acontecimentos é feito num estilo sóbrio e claro, como convém aos parâmetros da ciência histórica, não fosse este o resultado da Tese de Mestrado apresentada pelo Dr. Bernardo Martins na Universidade da Madeira.
         Bem poderia substituir a expressão “éramos felizes” por estoutra – “o que nós fomos capazes” de construir, as iniciativas concretizadas, perspectivas pioneiras que, sem outros meios que não fossem o ânimo da juventude e o desejo de um Machico Novo. Fomos visionários de tantos projectos que, mais tarde, os poderes e as finanças públicas vieram a dar mais amplo cumprimento.
         Sucintamente: a abertura de um Jardim de Infância nas instalações do Forte de São João Baptista sobranceiro ao cais de Machico: a abolição do leonino regime de colonia que escravizou gerações e gerações de camponeses; o semanário “O Caseiro”, a expensas da população; a luta dos engenhos de cana-de-açúcar por uma justa retribuição;  idem  na Fábrica de Conservas de Machico: idem na Fábrica Baleeira do Caniçal; idem quanto ao trabalho das bordadeiras da Madeira; o apoio ao alojamento dos refugiados-retornados das ex-colónias portuguesas; a estratégia popular para barrar o caminho aos bombistas da Flama separatista; a conquista do poder municipal;  a resistência a uma Igreja diocesana, ostensivamente aliada do fascismo salazarista e do “neo-fascismo” regional.
         Olhando daqui  - quarenta e dois anos volvidos – comovo-me e congratulo-me por redescobrir que o Machico de então, sem dinheiro e sem armas, foi a locomotiva que, por intuição e acção, transportou os sonhos do futuro.
         Bem fizeram a Assembleia Municipal, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Machico em colocar a presente iniciativa no frontispício das comemorações do Dia do Concelho, 9 de Outubro de 2016.

03.Out.16

         Martins Júnior

sábado, 1 de outubro de 2016

ÀS PORTAS DO SILÊNCIO, O TRINAR DAS GUITARRAS – No dia novo do novo mês


À janela de Outubro, abro lentamente a cortina e leio o som escrito sem partitura na “Música Aquática” de  Haendel, sinto o verso branco sem linhas  lavrado no “Livro em Branco”  das horas felizes. Porque hoje escrevo sem corpo, tão forte  e possessiva é alma que me toma.
Música, Água, Idade longa! É essa  a alma que veste o corpo deste dia, numa tríade mágica que transforma tudo em páscoa renovada. Até das próprias cinzas nascem manhãs de primavera. Falo assim porque não me saem nem jamais sairão de dentro de mim os acordes de uma guitarra esvoaçando no terreiro da morte. Isso mesmo. Ontem, quando a urna da saudosa octogenária Professora D. Ivone preparava a entrada diante das portas do silêncio sem retorno, em vez de rezas perdidas ou ladainhas de prantos, soltam-se as cordas das guitarras sustentando a voz de Amália: Foi por vontade de Deus… Coração independente … Pára, deixa de bater… Eu não te acompanho mais…
Mais intensa e avassaladora que qualquer outra oração do ritual seco, inerte, dos funerais! Lembrei-me do Desfado que o amigo Paquete Oliveira escolheu para abrir a sua e nossa marcha comum, na Basílica da Estrela, rumo ao éden de Olivais Sul, a mansão adequada à sua identidade onomástica. Mais impressivo, ainda, o desejo expresso daquela mãe que pediu aos filhos, ainda adolescentes, nas vésperas do último suspiro: Quando o meu caixão sair da igreja da Ribeira Seca, digam ao senhor padre que ponha a tocar a nossa canção “Festa/ Festa do Povo/ O Povo que trabalha/ E faz o mundo novo”. E justificava: “É essa canção que me tem  aliviado as terríveis dores com que  vou morrer”. Que sereno estoicismo – mais que estoicismo – energia vital! E assim se cumpriu a última vontade.   
Enquanto, em 1 de Outubro, o último terço do ano aponta a porta de saída de 2016,  “os que da lei da morte se vão libertando” entregam-nos numa bandeja de prata  o testamento da vida, o respiro do optimismo e a força de saltar as barreiras desta pista onde todos corremos. É por isso que escrevo  mais com as asas da alma do que com os dedos do corpo. Das cinzas da  morte renascem centelhas da Vida!
É o que vi – todo o mundo viu e, julgo, muitos  nem queriam acreditar  –  no funeral de mais um obreiro da Paz, Shimon Peres, quando os dois inimigos figadais, Benjamin Nathanael e Mahmoud Abbas – apertaram as mão e balbuciaram, num fio de voz pacífico, inspirador – este  novo “grito do Ipiranga” entre a irredutível Israel e a massacrada Palestina: “Há quanto tempo… Há quanto tempo”…  Este  desabafo de saudade de dois povos irmãos, há tanto tempo desavindos, talvez seja a primeira página do testamento de Paz que lhes deixou Shimon Peres.
Para quem continue céptico diante deste gesto promissor relembro o aperto de mão – tão mal interpretado por muitos analistas – entre Barack Obama e Raul Castro, no dia do funeral do enorme génio do Consenso entre Povos desiguais, Nelson Mandela. Afinal foi esse o prenúncio do “inconcebível” Acordo de Paz assumido mais tarde entre Cuba e os EUA. Quem diria?...
É por isso que continuo a escrever nas estrelas e não nos epitáfios da morada dos mortos. É por isso que não nos deixa parados esta canção batida, à beira da tumba: “Festa do Povo que trabalha e faz o mundo novo”.  Na transição de 1 para 2 de Outubro, oxalá que o referendo do povo colombiano confirme o abraço, recentemente selado e proclamado, entre o “Timochenko” das FARC e o presidente da Colômbia, José Manuel dos  Santos.
E Oxalá – agora para nós – que o fio das lágrimas dê lugar às cordas de uma guitarra, como no dia claro do adeus à Prof. D. Ivone!

01.Out.16
Martins Júnior


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

E JÁ PASSARAM TRÊS ANOS!


Daqui a um ano, já não  poderei repercutir a batida de Sérgio Godinho: Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Tua Vida. Reproduzi-a entusiasticamente – e avisadamente – há três anos, quando soou na ponte que liga o 29 de Setembro ao 1º de Outubro, o hino apoteótico da Primavera da Madeira, quando à meia-noite da ilha irrompeu no firmamento  o  Histórico “Set’Estrelo”  das sete Câmaras ganhas pela oposição ao quarentão poderio   da Região e aqui consignadas na autarquia da capital madeirense.
Tinha preparado para hoje, mais que uma saudação,  um enorme espelho para todos os autarcas então eleitos, onde se projectassem os actores confrontados com os protagonistas do filme, eles mesmos, os eleitos de há três anos. Seria uma retrospectiva na primeira pessoa: os planos, os sonhos, as realidades, enfim, um retorno à juventude, agora amadurecida, talvez sofrida, mas sempre vigorosa no mesmo afã de bem cumprir o mandato novo que lhes foi confiado.
Ao ler hoje  a oportuna reflexão de Alberto Olim, Presidente da Junta de Freguesia de Machico, não hesitei em repor aqui a mensagem que então dirigi aos novos autarcas, pela flagrante  actualidade   de que hoje se reveste. Ei-la:

 SAUDAÇÃO ÀS SETE AUTARQUIAS
E SEUS CORAJOSOS AUTARCAS

           Escrevo para vós, que sois jovens, na  idade e no ofício.
          Escrevo agora que iniciastes  um Dia Novo!        
         Na qualidade  de cidadão e  veterano de lutas antigas, de vitórias e derrotas que são as pedras da calçada de todo o lutador, quero fazer meu o abraço de toda a Madeira Jovem, que vós incarnastes, toda  vestida de alvorada, livre na  pele e no coração dos farrapos desse estigma  ---Madeira Velha, Madeira Nova --- que, durante quase quatro décadas,  intoxicou até à exaustão o corpo e a alma dos madeirenses. Envolvo também neste abraço outras gerações que, antes e depois de Abril, estiveram na vanguarda desse sonho, mas não tiveram a dita, como nós,  de vê-lo e senti-lo.
         Sois vós, Madeira Jovem, os promotores e ao mesmo tempo os procuradores desse direito intergeracional que é o de preparar o Arquipélago do Futuro onde quereis e tereis de viver.
         A conquista, ora alcançada, dos postos de comando e dos centros de decisão ultrapassa o 29 setembrista ou o quadriénio do mandato que vos foi confiado. Vai muito além e atinge o horizonte de uma outra vida, outra paisagem física, ambiental, humana. Numa palavra, o vosso mandato aponta para  uma Nova Ordem Regional.
         Por isso, mais que a derrota do velho regime, importa relevar e interiorizar a chama viva que o Povo vos confiou na maratona olímpica que agora começa. É preciso apagar o rasto viscoso que outros deixaram e, como diria Antero de Quental, “lançar o arco de uma nova ponte”.
         Vede, pois,  na cadeira do poder em que tomais assento, não o porto de chegada mas o cais da partida.
         O “Set’Estrelo”  vitorioso do poder local na Madeira e Porto Santo não poderá trair quem primeiro o acendeu: os vossos constituintes, o Povo Eleitor. Como num grito do Ipiranga, fez-se a Primavera Madeira. Não a deixeis resvalar para uma qualquer  Primavera Árabe, seja nas candidaturas de Partido, seja nas candidaturas de Coligação, sabendo sempre que o vosso sucesso é o sucesso de toda a população, mesmo daquela que não votou na Mudança. E, da mesma forma, o vosso falhanço sê-lo-á o de toda a população , será o retorno aos muros da vergonha, da ditadura e do medo que acabais de derrubar.
         Estais agora sob os holofotes de toda a gente, milhares de olhares estão a contemplar-vos aqui, no Portugal Insular, no Portugal Continental e até no estrangeiro entre a diáspora madeirense que desejou e acompanhou ansiosamente esta vitória.
         Termino a minha saudação  com dois apelos, nascidos de muitos anos de veterania solidária:

         PRIMEIRO:
         Se é altíssima a soberania nacional e alta a autonomia regional, não menos alta e nobre é a autonomia do poder local. Este deverá ser sempre  o fio de prumo de todas as vossas decisões. Consegui-lo-eis instaurando, mais que a democracia representativa, uma outra maior, a democracia participativa, em que o Povo ocupe a centralidade na mesa das vossas decisões e no chão do vosso território.
           
            SEGUNDO:
         No mesmo tom da canção de Sérgio Godinho, que a toda a hora ouvia esta frase batida “hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”, assim também, desde o instante da tomada de posse, ressoe no vosso sentir e no vosso agir este pregão: “Lembra-te que hoje é o primeiro dia do resto do teu mandato”. Quatro anos passam-se mais depressa que a névoa da tarde. E o que é preciso é que,  ao fim deles,  renasça outra vez convosco a  manhã  da Primavera Madeira!
        
Machico,  1 de Outubro de 2013
Boa sorte e um abraço
___________________________________________________
Se em 2013 trauteei a canção de Godinho – “Hoje é o primeiro dia do resto do teu mandato” – passados três anos e faltando apenas UM  para a definitiva prestação pública de contas, apenas direi “Hoje é a primeira hora do resto do teu mandato”.
29.Set.16
Martins Júnior








terça-feira, 27 de setembro de 2016

TURISMO-VIP SEM SAIR DAQUI – No Dia Mundial do Turismo

         
        
           Mergulho no oceano que eu sou
         
          Timão e timoneiro
          Vento e veleiro
          Já sei para onde vou
          O sonho é amar e a sede é ver
          Paisagens-longe cidades presas
          No alicerce das profundezas
          Do meu ser

          Que bem maior é não saber nadar
          Para tocar os intocáveis corais
          Lá nas cavernas ancestrais
          De histórias não contadas

          Búzios de outras eras
          Ostras que escondem pérolas
          Nascidas dentro de nós
          Agarradas como heras
          Ao troco que somos e à memória de avós

          Esfinges do Egipto
          Pirâmides pontiagudas
          Onde repousam o cântico e o grito
          Das cinzas mudas
          Das estátuas que já fomos

          De tanto ver e já cego
          Não largo o leme e navego
          Navego
          Entre sargaços de seda índia
          Ilhéus de sândalo perfume capitoso
          Como a cambraia que borda a fímbria
          Das deusas dos Amores

          Anémonas de mil cores
          Trazem  o leque aberto
          Dos passados horizontes
          E os do futuro incerto

          No planeta oceânico
          O dia é sempre noite
          E a noite é sempre dia
          E o sol
          Nasce quando o meu olhar o chama

          Não quero outro guião nem outro panorama
          Na agenda viageira
          Senão a brisa ligeira
          E o sem-medo de esconjurar o abismo
                                      
          Quem me acompanha
          Na barca de turismo
          Sem sair daqui
          Ao mar e à montanha    
          Que há dentro de si ?!

27.Set.16
Martins Júnior

domingo, 25 de setembro de 2016

“EXTREME SAILING” NA QUOTIDIANA BAÍA DA VIDA – do latim “spiritus” para o português “vento”, “espírito” e “alma”


 Içaram as velas as jóias da Coroa

De Sagres ou de Lisboa
Das sete partilhas do mundo
As águias marinhas
Mais altas que os promontórios
São agora argonautas-rainhas
Mais que Ulisses, Neptuno e Marte

Brasonados do Império
Ninfas altivas cobiçadas
Saídas das telas de arte
Perfilam-se na amurada

Tangem trombetas de metálico alarde
E a Real Armada
Ribomba e troa
O canhão da proa
“Por El-Rei – é hora da largada”!
Troncos tisnados, braços de Atlantes
Agarram-se ao cordame
E do cais saltam olhos mareantes
Agitam a baía e o velame
Arraial arraial
Que vão partir as naus do estaleiro real

Mas nem um sopro nem um ai
Nem um lenço branco nem um mastro alto
Das naus reais nenhuma sai
Entrou o cais em sobressalto
Granadas explodem nos canhões
Retiram-se os barões
Toca a rebate a assembleia
Decreta-se a morte ou a cadeia
Ao vento que fez greve
E ao mar que não se alteia
Abrem-se os cofres despejam-se milhares
Mas não  comovem os ventos nem os mares
A multidão na ribalta da amurada
Torcendo os braços da varanda
Grita e enfurece
“A maré está cheia e o barco não anda”.


Murcham as velas nos mastros
Os atlantes estão de rastros
E as águias reais já não sonham com os astros

Por que o vento não se decreta
A alma não se compra
Não se vende o amor-motor
E não tem preço o sopro criador
Escrita nas ondas uma voz discreta
Sussurra como um grito em linha recta:
Tendes cascos de ouro velas de filigrana
Escotas e lemes de prata
Tendes o  aquático trono da fama
Tendes o corpo milionário do magnata
Tendes tudo
Menos  o que é gratuito e forte
A alma inteira e o vento norte
  ´´´´´´´´´
Lá longe, fora  da barra
Afrontando o mar bravo e o perigo
Um frágil batel que se desgarra
Corre veloz por sobre um sonho antigo

A alma o leva
E o vento o alevanta
Ironia sem limite
Solitário proletário
Fez da vela a sua manta
E é  maior
Que  as esquadras estagnadas
No fundo orgulho rotundo

Porque é o vento e é o amor
Quem leva a “casca de noz”
Às ilhas do outro mundo

25.Set.16
Martins Júnior   
    





sexta-feira, 23 de setembro de 2016

PAZ DE PAPEL vs. PAZ DE CORPO E ALMA


Nunca a Paz viajou tanto,  como na semana que acabámos de viver. Em aeroplanos vip, a abóbada planetária viu cruzar-se no firmamento azul do seu seio a branca pomba da Paz pousada nas asas  dos aviões-de-bandeira.  Foi a Assembleia das Nações Unidas, foi a Assembleia inter-religiosa em Assis, foi a Conferencia de Bratislava, foi o Acordo de cessar-fogo na Síria e outros "sínodos" político-religiosos, desde Nova York a Paris, desde Assis ao Médio Oriente e, ainda no coração da América Latina. Se acrescentarmos  a apoteose de braços e cores dos Jogos Olímpicos, dir-se-ia que estamos no melhor dos mundos, no advento da Pax  Universalis, pomposamente lavrada e autenticada em sumptuosos salões.  
  Mas as juras de amor fraterno não fazem a viagem de retorno, quase sempre não passam dos pergaminhos que ficaram ciosamente embalsamados no berço onde nasceram, tal como  a primeira pedra enterrada no terreno expropriado para projectos que nunca de lá sairão. Caso mais fremente não há do que a pax síria, onde a fé muçulmana de El Assad versus rebeldes de Alepo  se embrulha nas “fés” russo-americana, ambas de sentido radicalmente oposto,  para fabricarem as bombas que tudo destroem e matam vítimas indefesas. É que ninguém quer abdicar dos seus paiós, uns capciosamente camuflados, outros ostensivamente abertos, sejam as finanças, sejam as alianças espúrias, as hegemonias, sejam enfim  as armas – a que  tudo se reconduz.
Esta breve reflexão serve para  pôr ao rubro o contraste entre as encenações  vistosas  dos “teatros  da paz” ( leia-se “teatro de guerra”) e os caminhos e as veredas pedregosas que conduzem à verdadeira Paz, fruto de muito sangue e maior sofrimento de décadas, senão mesmo de séculos. E abro logo os dois cenários contratantes:
Por muito que brade ao mundo o Papa Francisco em Assis de Itália o pregão –  quente e eloquente como nenhum outro! –  do Consenso Mundial sob o sinal da Fé, dificilmente os primeiros destinatários, cardeais, bispos e similares alistar-se-ão na sua generosa cruzada. Digo o mesmo (até com maioria de razão) das 400 religiões que se assentaram na grande Assembleia em terras do Poverello. Porque os magnatas-donos  da religião não estão sós. A fé num  mundo institucionalizado dificilmente se liberta das vestes do poder e dos interesses mundanos. Permitam-me a expressão, mas tenho que dizê-lo: de manhã servem a Deus na liturgia pontifical, mas à tarde e à noite servem o Maligno sentado nas cadeiras dos poderosos. Como pode uma Igreja oficial chinesa, comandada pelo Estado, juntar-se a uma Igreja livre, crística, despida da prepotência dos ditadores? O que trago dito aplica-se exactamente à Igreja Ortodoxa moscovita. E a outras crenças multiplicadas como cogumelos  por esse mundo fora. “Ninguém pode servir a dois senhores”.  Por isso – a não ser que se trate de  gente de Fé inquebrável e assumidamente sacrificial, como nalguns casos, depois proscritos pela aliança Igreja-Governo – sou um céptico, militante descrente de magnas assembleias religiosas em que os tratados de Paz vêm curtidos com as sotainas escarlate dos seus subscritores.  Com quem conta Francisco Papa para a Via Crucis, a caminho do Gólgota,  de onde ressurgirá a “Misericórdia”, o Perdão, o Consenso, os nomes duradouros da Paz?!
. Por outro lado, cruzo-me com  a “Festa da Reconciliação” nas pampas da Colômbia. Cinquenta e dois anos de ódios irreconciliáveis foram definitivamente transformados no abraço impossível para o mundo, mas sentido, amado, proclamado entre os guerrilheiros  camponeses das aldeias e as urbanas tropas governamentais, com o expresso exemplo pessoal do  comandante “Timochenko”, pelas FARC, e o  presidente José Manuel Santos, pela Colômbia.   A “bênção” que selou este milagre foi o sangue  perdidamente derramado  e hoje reconhecido como o percurso definitivo para a concórdia das gerações futuras. Os acordos de Paz não são feitos de papel, mas de homens e mulheres, conscientes, pela dura experiência, de que precisam, não de balas e canhões, mas de pão para a boca e cultura, a tal fé, para o espírito. A gravura-supra bem podia ter por legenda: “Abaixo as armas – Acima a Paz”!
Quererá  qualquer de entre nós, no seu próprio meio,  alistar-se nesta campanha?

25.Set.16

Martins Júnior

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O DIA EM QUE A NOSSA MEMÓRIA É A FACULDADE DE ESQUECER


Pertence à literatura paralela, sobejamente conhecida, o axioma supra-citado. Achei adequado trazê-lo hoje ao nosso convívio, para dele extrairmos ilações úteis, coladas a nós próprios sem que disso tomemos inteira consciência. Dotada de incontáveis e misteriosos megabytes, a banda larga da nossa memória chega a um dado tempo crono-psicológico em que os neurónios são obrigados a “descarregar” informação acumulada para dar espaço a novas mensagens que, por sua vez, conhecerão o adequado “cl”. É o normal processo neurológico em marcha. Hoje, porém, 21 de Setembro, a comunidade científica e nós, seus utentes, nos confrontamos com um outro processo – este, degenerativo e destruidor da personalidade – chamado síndrome de Alzheimer, cada vez mais disseminado nesta era de inimagináveis conquistas tecno-científicas. Ironia das ironias: quanto mais se avança na grande escalada do elixir mágico que cura e transcende os vírus malignos, mais se degrada e apodrece a potência criadora da mente humana! Caso para recordar com Luís Vaz de Camões: “Vejam agora  os  sábios na Escritura/ Que segredos são estes da Natura”…(Lus. V,22).
 Uma palavra de respeito e profundo apreço por aqueles que, no decurso de anos e anos de luta e sofrimento, esgotaram-se, ao ponto de não  se reconhecerem, nem a si, nem aos outros. Na mesma linha e com redobrada homenagem a todos quantos dedicam todas as suas forças como cuidadores incondicionais dos seus pais e avós.  O diário El País, na sua edição de hoje conclui que “em 94% dos casos, os parentes tomam a seu cargo o cuidado da pessoa que sofre dessa enfermidade” e constata a extraordinária entrega de Juan Pedro Garcia, de 41 anos de idade, que desde 2009 deixou tudo para cuidar da sua mãe Antonina Hernandez, de 82 anos, afectada pela fatídica doença. E outros casos haverá entre nós.
Mas o Alzheimer  - ainda  um outro! -  que me persegue todos os dias, cai-me hoje diante dos olhos e arrebata-me os nervos. Ao contrário do Alzheimer fisicamente visível, estoutro, em vez de fazer-me esquecer, desperta e aguça-me a memória, faz-me bradar ao silêncio do meu quarto e impele-me a sair à rua, pegar nas armas da consciência humana e denunciar “até que a voz me doa” o Alzheimer auto-provocado, insensível, globalizado. Toma outro nome, eufemisticamente designado por “Indiferença”.  Foi  Francisco Papa quem mais ostensivamente  denunciou a todo o planeta, sobretudo aos dominadores dos povos, a “Globalização da Indiferença”! Com a autoridade moral e factual que lhe assiste, lançou o ataque frontal contra esta espécie maligna do Alzheimer pré-elaborado, assumido, legislado.
Para  os  amigos que me acompanham dia-a-dia à mesa deste convívio vespertino, nem é preciso especificar. Tanto quanto eu, vêem e sentem o maquiavélico tropel dos que fecham os olhos, tapam os ouvidos e anestesiam o espírito diante do que se passa à porta de casa. Poderia lembrar todo esse estendal de Congressos, Cimeiras, Protocolos, Acordos de cessar-fogo – assinados hoje e  insolentemente varridos amanhã da memória e dos actos! Os magnatas da finança metidos no bunker dos  offshores e dos bancos que devoram as poupanças  dos lesados;  e estes, por sua vez, que querem sangrar o povo, exigindo-lhe devoluções que não lhe dizem respeito.
Na esteira do Papa Francisco, aqui entram os “sacerdotes e levitas” que vêm o samaritano moribundo e dele se esquecem passando ao largo. Entram os que, armados de “misericórdia” até à gola,  lêem nos púlpitos o Evangelho  e  deixam-no no congelador das sacristias para voltar a tirá-lo  no dia seguinte, mecanicamente, sem memória nem coração, num ritual de contrabandistas refinados, contumazes, o que nos  provoca mais raiva que tédio. O seu silêncio cúmplice, na palavra e na acção, fazem deles narcotizados profissionais do Alzheimer global.
E nós, também, cada um de nós, no recanto mesmo  longínquo deste mundo doente por opção, decidamos  atacar esse vírus da inércia e do laxismo, para  nos mantermos imunes, sempre  de memórias vivas,  vigilantes e saudavelmente interventivos.

         21.Set.16

         Martins Júnior