domingo, 23 de outubro de 2016

ACONTECEU TEATRO EM MACHICO – Quando o “blasfemo” se torna sublime e verdadeiro!


Foi ontem mesmo. E eu não posso conter a alma escaldante que, durante uma hora cheia,  dois talentosos protagonistas – Bruno Esteves e Rui Pinheiro - abriram, cavaram, dilaceraram, sacudiram  e, por fim, libertaram o espírito e a sensibilidade de quantos ali se encontravam.
Aconteceu teatro, ouro do mais fino quilate em terras de Tristão Vaz.
O título  sintético – “OPUS” – define a profundidade e a extensão da grande Aventura Cósmica urdida e guardada no punho da uma mão fechada, umas vezes em assombros de eloquência, outras de forma hermética e outras, ainda, povoada de um humor quase negro, a roçar o blasfemo. Um trabalho  similar ao de Hércules, da mitologia grega,  ou ao de um Sansão, no texto bíblico! Partilho convosco esta interpretação da “OPUS”.
O guião abarca, em toda a sua latitude, a história  do momento decisivo da Criação, o turbilhão tempestuoso do percurso do Homem dentro da Obra criada  (“Opus”)   – o passado, o presente e o futuro -  num entrosamento denso, mas subtilmente comunicativo, que exige do espectador uma intuição expectante, uma cumplicidade alucinante que nem é possível tracejar a respiração.
Tudo isto num cenário possessivo, sem adereços nem especial guarda-fato, pelo contrário com duas peças, apenas, de vestuário exterior, as mesmas desde a primeira à última cena, enfim, uma economia de motivos e, ao mesmo tempo, uma transfiguração  repentina, quase absurda, da mesma indumentária, arrastando a plateia para os muitos planos imaginários para onde os protagonistas nos querem transportar.
Ideologicamente, a “OPUS” é a denúncia do sufoco tumular em que a humanidade transformou a sublime epopeia da Criação, ao ponto de arrepender-se o próprio  Criador de ter accionado o Big-Bang originário de todos as galáxias, de todos os planetas, sobretudo o planeta Terra, com tudo o que ele contém. O epílogo tremendo, expresso no paroxismo da pergunta final com que termina a “OPUS”, resume o suplício sem retorno da Divindade, perante o desconcerto que os homens fizeram de um mundo harmonioso. E a pergunta, arrasadora como um ferro em brasa, é esta: “Tudo o que sucedeu foi por Minha culpa ou foi por vossa néscia culpa”?
Nesta interpelação que, por vezes tem assomos de veemente imprecação e libelo acusatório, estão envolvidos os governantes,  os eclesiásticos, o Vaticano e os capitalistas, para quem “Deus é o dinheiro”, todos os sabotadores do verdadeiro progresso. Mas o grito avassalador daquela apóstrofe sobe de tom e amarra-nos ao poste, quando o “Criador” desce do palco e aponta,  junto de  nós, espectadores: “E não terá sido pela tua própria culpa, pela tua acção, omissão e pelo teu silêncio”?!
Respigo, de cor, algumas dessas corrosivas acusações: “O número dos mortos assassinados em Meu Nome, nas Cruzadas, ultrapassa o dos Kmmer’s vermelhos e do “holocausto” ... “Achas que a Inquisição acabou? Não. Apenas mudou de pele”… “A heresia de hoje pode ser a ortodoxia de amanhã” … Estremecedora e genialmente bem conseguida  é a cena da  crucifixão do Filho, quando entra em palco o agente de seguros e oferece-se para fazer um seguro de vida ao Crucificado, “com direito a ressurreição garantida e a oferta de um sudário com a imagem do morto”…  Medonho e acusativo! Até com o Crucificado fazem negócio.
O historiador e latinista  Paul Vyne, a propósito da reedição das obras do filósofo Platão e do poeta épico Virgílio, recomenda-os à nossa leitura, com este cartão de sábio: “Os clássicos ensinam a fazermos perguntas a nós próprios”.
O mesmo pode, seguramente, afiançar-se da magnífica obra “OPUS”.  Nota máxima para o grupo cénico de Idanha-a-Nova!

23.Out.16
Martins Júnior

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

183 VELAS EM CIMA DO BOLO DE DINAMITE – recordando Nobel, o benemérito Mecenas da Humanidade



Quem seria capaz de provar desse bolo?
E quem teria fôlego de apagar uma só vela que fosse, suspeitando que ela lhe rebentasse nos olhos?
No entanto, está meio mundo – e talvez mais -  dependurado no pavio dessa vela e na farinha desse bolo. Não pensem que venho hoje decifrar algum enigma da espionagem clássica, tipo de Sherlock Holmes, ou servir à vossa mesa algum episódio de um estranho “thriller”.
Não. Venho apenas partilhar convosco uma data assinalável: o 183º aniversário de Alfred Nobel, sim, o mesmo que criou o generoso, o prestimoso, o glorioso Prémio Nobel, o cobiçado troféu com o respectivo montante, para o qual se dirigem os olhos da fina-flor dos criadores mundiais. O que, decerto, muita gente desconhece é o “pai da criança”, de tão fenomenal e milionária criança. Inscrevam no vosso catálogo das “Curiosidades” esta prosa que hoje vos trago.
Quem foi Alfredo NOBEL?... Um químico sueco, filho de químico, autodidacta, aventureiro, excêntrico, visionário, idealista profundo, ateu e panteísta. Supermilionário!  E supermilionário, porquê?... Por ter inventado a dinamite. Esse, o seu troféu vitorioso, a sua bandeira mortífera “em prol da Humanidade”! O sucesso financeiro da família Nobel teve o apogeu na guerra da Crimeia (1854-1856) vendendo à Rússia minas submarinas e explosivos militares. Com o fim da guerra, sobreveio-lhe a falência, Percorre, então, a Europa e tenta vender a patente aos banqueiros que, aterrorizados com o  anúncio publicitário  (“o invento é capaz de  destruir o mundo todo”) voltam-lhe as costas. Quem o apoia é o imperador francês Napoleão, a troco de uma avultada fortuna.
No fim da vida, em San Remo, Itália, e a sugestão da mulher, faz a decisiva e histórica doação – orçada em 40 milhões de francos – em testamento datado de 27 de Novembro de 1895 e aberto em 30 de Dezembro de 1896, ano da sua morte.  Inextrincável contradição: ele, “um pacifista, poeta incarnado num homem de negócios”, diz o escritor sueco Gustav  Cellstrom.  E que negócio? – o vil fabricante de armamento! No entanto, no seu testamento deixa todos os rendimentos da imensa fortuna “para serem aplicados na manutenção de cinco prémios anuais destinados a recompensar os benfeitores da Humanidade,  o espírito e a paz nas suas mais sublimes expressões”.
Ficar-me-ia por aqui, deixando campo aberto a quem me acompanha por este meio. Sintetizo a minha ( e nossa, poderei dizer) estupefacção na seguinte exclamação de um seu biógrafo: “Ele, que no século XIX fora o maior inimigo do género humano, esfacelando-o com os seus terríveis explosivos, acaba por mostrar-se o seu maior amigo”!
Dá que pensar esta constatação quase desconhecida, de tão pouco lembrada. Teria sido arrebatado o químico sueco, já perto de morrer, por um inelutável rebate de consciência e tentado remediar com volumoso cheque bancário os crimes humanitários que cometeu com o fabrico de  armas assassinas?
Tenho para mim que muitos dos laureados, sobretudo com o Prémio Nobel da Paz, sentirão  escorrer ainda nas mãos vestígios do sangue de milhares de vítimas tombadas - no passado, no presente e no futuro – pelos fabricantes de armamento.
E o meu pensamento discorre e aperta-se-me perante tantos magnatas das finanças que, por descargo de consciência ou ambição de fama, apresentam-se como Mecenas da Humanidade, com doações e fundações que mais não são que o ressarcimento (tardio demais!) pela exploração danosa e cruel que infligiram às gerações anteriores.  Em vez de generosas caridades de hoje, não seria  melhor ter pago o justo salário e as necessárias indemnizações àqueles que directamente trabalharam para tamanhas fortunas?... Lembro-me aqui do nosso arguto Almeida Garrett: “Quantos pobres serão precisos para fazer um rico”?...
Em todo o caso, cantemos os parabéns sobre as 183 velas do aniversário de Alfredo Nobel. E de todos os Gulbenkian’s, Champalimaud’s, Rockefeller’s, que os há em todo o mundo. Para bem da Humanidade. Maior bem, contudo,  seria o da “Justiça na hora” – e não ao retardador. Só leis justas farão o mundo justo. Aqui e agora!

21.Out.16
Martins Júnior

      

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

NOBEL – NOBRE – ÍMPAR


Descomprimamos o ambiente. Vamos à música,  talvez o maior altifalante do pensamento que um homem produz. Com a música a palavra transfigura-se,  a Ideia despe-se e, na sua nudez original, ganha estatura e estatuto que, isoladamente, nunca alcançaria. Será por tudo isto que a Academia de Estocolmo outorgou o Nobel da Literatura/2016 ao cantautor estado-unidense  Bob Dylon?
         E cá estamos nós encalhados na primeira onda que eu contava ser de descompressão e alívio do peso habitual dos meus entretenimentos vespertinos convosco. É que isto tem sido um cabo de tormentas e imprecações para os críticos literários e, mais academicamente, para os professores de Literatura. Cada qual terá o seu monóculo, tipo queirosiano, para apreciar a ementa que os “juízes” nórdicos serviram este ano ao mundo, chamado culto. Para uns, como Jimenez Losantos e Jorge Bustos, o galardão de ouro foi atribuído a Bob Dylon, pelos mesmos motivos, atestam, que fundamentaram o Nobel da Paz a Juan Manuel Santos, da Bolívia: “a demagogia mediática e a corrupção política”. Para outros, operou-se uma viragem de paradigma, a qual uma amiga minha classificava de “democratização da Literatura”. Certo é que ao Grande Prémio têm-se candidatado os altos expoentes da escrita, uma “élite” (perdoem-me o galicismo) ardorosa, requintada e segregada, o que não raras vezes tem provocado atritos e insanáveis dissenções entre os pretendentes. Lembremo-nos, por todos,  António Lobos Antunes e José Saramago. Uma perspectiva diametralmente oposta é a que entende o texto  como um grito que estala na dormente e obscura insensibilidade da geopolítica em que os donos-disto-tudo nos obrigam a  viver. Aqui, o poeta - o escritor – é o profeta do Futuro.
Desta dicotomia estrutural, nasce uma outra que vem de longe, pela qual se deve privilegiar o qualitativo em detrimento do quantitativo. Levar-nos-ia a um largo oceano de opções este debate. Apraz-me dizer, apenas, que na mesma linha de Bob Dylon, mereceriam o pódio cimeiro os nossos Sérgio Godinho e Zeca Afonso.
         Mas a mais certeira bissectriz deste dilema quem a traçou foi o próprio laureado. Nem respondeu à chamada!... O incomensurável enredo desta atitude, a lição enorme de desapego “daquele vã cobiça e daquela vaidade humana com que se o povo néscio se engana” (Lus.V, )  podemos ver “claramente visto” (Ibid.) na decisão de Bob Dylon. Prova aberta,, irrefragável, de quem canta sem preço e escreve sem prémio, porque nele, como em António Aleixo, “mais vale pardal na rua que rouxinol na prisão”.
Num mundo em que impera o primado maquiavélico do vale-tudo, na banca, na política, até nas religiões, a maior peça literária e a mais bela canção (mais que a desassombrada Blowin in wind ou The times they are a changin)   está a dar-nos, aqui e agora, Bob Dylon, com esta atitude de gigante que não rasteja no chão lodoso das promessas megalómanas.
         Para nós, portugueses, o fenómeno não é estranho. Dois casos exemplares bastarão para prová-lo, em nosso conforto e para nosso modelo: Zeca Afonso – que se recusou a receber a Medalha da “Ordem da Liberdade”, atribuída pelo Presidente da República Ramalho Eanes. Ele, um dos maiores lutadores pela Liberdade do Povo Português! O outro protagonista, nosso – mais nosso por ser madeirense – é Herberto Hélder que, da mesma forma,  recusou  o Grande Prémio Camões, ele “o Poeta Maior”.
         Nesta senda da poesia, outra chave de ouro mais perfeita não acho para definir essa entrega incondicional dos verdadeiros servidores de uma Causa Maior,  senão o ainda mais nosso – porque de Machico – Francisco Álvares de Nóbrega, no último verso de um dos seus preciosos sonetos:
                            “Das almas grandes a Nobreza é esta”!  
    

    19.Out.16
    Martins Júnior

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

COCA, PEPSI E IGREJA


Se há temas que suscitam mais impressivamente o confronto na praça pública é quando a questão social vem à ribalta pela voz de alguém ligado à Igreja. Aí é o campo de guerra, onde  não há tácticas nem evasivas de espécie alguma: uns abraçam apaixonadamente, outros atiram-se numa fúria cega contra  o “pregador”,  tal como  a raiva irracional do touro diante do pano vermelho. É o que se tem visto, de alto a baixo, no tablado da vida.  Aqui e mais além. A título de exemplo, procurei na net as opiniões  sobre o vibrante apelo do bispo Angélico Sândalo Bernardino, citado no meu escrito anterior, e confirmei, de um lado, o aplauso do povo crente  e, do outro, o ataque feroz de certos clérigos – a pele anémica à roda de uns olhos furibundos –  vociferando, de código canónico na mão, contra o ilustre ancião Angélico Sândalo, sem o mínimo escrúpulo de atirar-lhe em  rosto a foice e o martelo de “comunista”.
         É sempre assim. No meio de tanta ‘histeria religiosa’, coloca-se-me diante dos olhos esta incontornável pergunta: Porquê tanto descontrolo, tanta praga, tanto anátema quando alguém aborda com realismo a missão da Igreja face aos desequilíbrios sociais do nosso tempo?... E a pergunta avoluma-se em tom mais agudo e lancinante, sobretudo hoje, 17 de Outubro,  “Dia Mundial da Erradicação da Pobreza”.
Velha e ponderosa questão que vem de longe e para longe vai, desde que há humanos sobre o planeta e que só se extinguirá quando definitivamente  sair de cena o último habitante terráqueo! Incontáveis são as prestações filosófico-teológicas, os argumentos, as proclamações “urbi et orbi” que se têm multiplicado sobre o tema, Na minha mesa de trabalho, tenho diante de mim, neste momento, nada menos que vinte volumes de autores diversos, desde Leonardo Boff (Grito da Terra, Grito dos Pobes) até Albert Gelin (Les Pauvres de Yahvh). Após consulta acurada, venho a ancorar o pensamento neste ponto de chegada que é, simultaneamente, o ponto de partida:
A história do mundo desenha-se  na arena encarniçada, onde frente-a-frente, degladiam-se interesses conflituantes que, no  limite, se resumem à luta do esquadrão dos poderosos contra a multidão dos pobres,  párias abandonados à sua sorte, sem hipótese de vitória: a dignidade e a igualdade de oportunidades.
O combate feroz vem do princípio do mundo: o astuto Caim contra o justo e frágil Abel, assassinado pelo próprio irmão, sem ter ninguém que lhe valesse. No mundo de hoje, os descendentes de Caim não pararam de construir o império do mais forte sobre o mais fraco: latifúndios, castelos, canhões e “offshores”,  “bunckers” e paióis. Mas quem aparece a defender os degradados “herdeiros” do justo Abel, os operários, os sem-terra, os servos da gleba, os escravos, os refugiados?... Com quem poderão estes contar para fazer ouvir os seus gemidos e protestos?... Os Estados, que só se aferram ao poder… os armeiros, cujo objectivo é a terra queimada… os banqueiros de alma feita de metal sonante…  os clubes “suciais” dependurados nos subsídios dos governos… os medrosos, quando não mafiosos, devotos que se acoitam debaixo do burel piedoso… as multinacionais,  “que aos pobres  dão um chouriço para lhes sacarem um porco” ????... Leio em El País que a Coca y Pepsi, para aumentar as vendas, financiam ao mesmo tempo organizações que recomendam a redução do açúcar nas bebidas. Requinte de cinismo – comenta o autor.
 Só uma autoridade digna, imune às ambições do poder, desinibida e livre de sair à rua, sem medo de perder as benesses e as boas-graças dos magnatas governantes – alguém, tocado pelo timbre dos verdadeiros heróis, prontos a dar a vida pela sua palavra,  gente de espírito e sensibilidade. Esse Alguém é a Igreja de Cristo. Não o tabernáculo dourado dos homens. E sim a grande cúpula reservada aos que, nada  tendo nas mãos, trazem a alma cheia da maior riqueza que o mundo ruim desconhece: dar a vida pela Justiça e pela Verdade. Erradicar a pobreza!
Os que propugnam  o espectáculo deslumbrante e, por via disso,  não querem  uma Igreja reduzida aos muros do templo e da sacristia, são os mesmos que não deixam, amaldiçoam até, uma Igreja autêntica que sai à rua em defesa da justa repartição do bem comum.  Mas se lhes tocarem nas subvenções aos  colégios, “Aqui d’El Rei”, vamos, criancinhas,  à Cruzada contra os Infiéis!
Preferem na rua os pendões, as velas, as procissões arrebanhadas, movidas a vapor  sem chama, porque manipuladas e anestesiadas, cantando alegremente enquanto pisam o asfalto negro, que me traz à mente o símbolo  das  vítimas que sucumbem aos “bulldozers” dos justiceiros-senhores do mundo.
Chega de uma “Igreja-Coca-Cola”!
  
17.Out.16
Martins júnior

    

sábado, 15 de outubro de 2016

MAR AGITADO NA “BARCA DE PEDRO”


Nada melhor que um provisório agitar de ondas numa manhã aberta de luz oblíqua. Porque aí  vêem-se  os contornos das falésias, aí  separam-se  as águas e aparta-se a promiscuidade estagnada. Provisório – disse – no sentido de metódico e didáctico, tal com a dúvida cartesiana que nos descobre a verdade.
Estamos a viver, na hora presente, essa manhã da descoberta. Ela surge ciclicamente em cada pico da história. Mas  esta é a nossa hora. Na ciência, na tecnologia, na medicina, até na atribuição dos Prémios Nobel, como  nos demonstrou a Academia sueca no segmento da literatura. É na agitação das ideias e das opções que se forjam os rumos do futuro.
Hoje, no redemoinho turbulento da maré vejo a milenar  “barca de Pedro”, a Igreja Católica. E vejo-a através de um vídeo que o sempre actualizado Padre José Luís Rodrigues teve a gentileza de partilhar: Aconselho-o a todo o homem, cristão ou não, que quer encontrar a verdade separada da mentira, o trigo limpo expurgado do joio. É o colóquio – não lhe chamo sermão, porque é muito mais que um discurso anémico – dirigido a eclesiásticos e crentes no dia da Senhora da Aparecida. Que tratado de clarividência, que bravura de carácter, que coerência evangélica a do bispo Angélico Sândalo Bernardino. Palavras de Anjo libertador, sabendo ao sândalo rude e aromático da Verdade, denunciando o charco social da sociedade brasileira, inclusive a de certa prática religiosa, em que o “regime capitalista em que vivemos mata a dignidade da pessoa humana”. O convite a um jovem padre, de etnia negra, ali presente, para junto de si, abraçando-o efusivamente e apontando para a imagem: “A Senhora da Aparecida também é preta e Ela não suporta a segregação, seja  qual for”! Perante tanta coragem, só me aparecia na retina o falecido Hélder da Câmara, o chamado “bispo vermelho”, quando o ouvi falar em Olinda e Recife, em 7 de Setembro de 1972, dia da Independência do Brasil. É assim a hierarquia brasileira, com bispos da estirpe de Duarte Calheiros, António Fragoso e muitos outros que bateram pé nos tempos da ditadura militar (1964-1985) e que sofreram os garrotes do poder autocrático de então.
O comentário do Padre JLR, corroborado por muitos seguidores, terminava com esta ousada incógnita: “Quando é que em Fátima ouviremos um bispo, um cardeal, com uma mensagem tão clara e  coerente com o Evangelho”?!
         Nem de propósito, abro  o  Le Monde , que traz em grande manchete o seguinte título “Le cri d’alarme des évêques de France” -  O grito de alarme dos bispos franceses – referindo-se ao documento que o presidente da Conferência Episcopal Francesa, Georges Pontier, arcebispo de Marseille,  apresentou publicamente em 13 de Outubro. Raridade num jornal agnóstico, são dedicadas duas páginas inteiras e um editorial. Do texto integral, que merece uma leitura atenta, recorto  duas citações: “Num mundo que está em mudança, é preciso reencontrar o sentido das política”. E ainda: “O contrato social tem de ser redefinido”.
         Volto ao comentário de JLR e convido quem me lê: façam o paralelo entre o vigoroso texto do episcopado francês e a pomposa encenação, no mesmo 13 de Outubro em Fátima, que a nossa comunicação social titulava assim: “A peregrinação  é presidida pelo Secretário de Estado do Vaticano”.  Semelhante contra-senso seria capaz de fazer desabar o tecto da nova basílica. Mas o que é isto? A mensagem de Maria, Mãe de Jesus, escoltada, presidida por um Secretário de Estado?!... E de que Estado?... Alguma vez, Pedro, o pobre pescador da Galileia, e o seu Mestre sonharam  ter embaixadores, os “núncios apostólicos” , e secretários de Estado, os cardiais?... É caso para  orar à Senhora  que repita hoje  o pedido que fez aos  três humildes  pastorinhos: “Digam às pessoas que não ofendam mais  Nosso Senhor, porque ele já está muito ofendido”.
         Neste agitar de águas contraditórias,  agradeço a aparição de homens, como o bispo Angélico Sândalo Bernardino  e como os bispos franceses que nos ajudam a separar o trigo do joio. Confio ainda que o nosso J: Cristo reincarnado, parcialmente, na vida e na acção deste  Francisco Papa, quando vier a Fátima em 13 de Maio de 2017, nos ajude a dissipar as trevas, meta sangue novo na hierarquia e nos cristãos e purifique o nosso olhar para descobrirmos a manhã luminosa da Verdade.

         15.Out.16
         Martins Júnior
  


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

“MISSÃO IMPOSSÍVEL” PARA UM FUTURO NOBEL DA PAZ – Ele passou por aqui!


Imperdoável seria deixar bater as vinte e quatro badaladas deste 13 de Outubro sem convidar para o coração da nossa cidade o aclamado hoje, em Nova Iork, Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres. Não pelo patrioteiro rótulo de ser português, mas pelo clarão de esperança que ele traz ao mundo. Antes de chegar à magna Assembleia da ONU, já ele passara por cá, como a foto documenta.
Mais que palmas e panegíricos, apraz-me reter desta aclamação as ilações que dela derivam.
Primeiro, a oportunidade de ouro, sabiamente aproveitada pelos países eleitores para prestigiar a Sociedade das Nações, numa altura periclitante em que  ia resvalando  na mais repugnante promiscuidade de interesses, quando a Srª Merkel atirou para a cena a candidata Kristalina Georgieva. Felizmente a transparência e a honestidade impuseram-se aos oportunismos nacionalistas.
      Já foram internacionalmente elencados os altos predicados de António Guterres que o tornaram o supremo candidato ao majestoso trono para que foi eleito. Eloquentes foram as duas palavras com que subiu à tribuna: “Humildade e gratidão”. Relevo, porém, a primeira. Se este deve ser o estado de alma de quem é designado para o mais  modesto pódio de uma autarquia, junta, câmara, governo regional ou nacional, quanto mais para quem lhe cai aos ombros toda a estrutura do planeta. Não é apenas de finanças que lhe impende a responsabilidade, nem da fome, nem da saúde, nem das alterações climáticas, nem da crise identitária, nem da religião, nem dos conflitos rácicos, nem das multinacionais. É de tudo  isso, ao mesmo tempo  que  será amassado o seu pão-de-cada-dia. Podem cognominá-lo de “Senhor dos Anéis”, Dono do Mundo, Juiz das Nações. Mas nada disso o conforta ou acende sequer um lampejo de dominadora ambição. O conteúdo funcional e final de cinco anos de mandato é o de um Arcanjo Pacificador, quase que um  Extra-terrestre,  que irrompe entre as hostes do ódio e da guerra e aí serena ventos e furacões, cala as armas e transforma-as em altifalantes da Paz.
         O quanto de labor insano, dias e noites aos pés de guerrilheiros e refugiados, o quanto de paciência expectante e, aí, frustradas expectativas, enfim, uma odisseia imparável que nem uma vida inteira seria capaz de levar a bom porto! A diplomacia, com toda a habilidade que lhe é reconhecida,  não vai chegar. Virão os meridianos inultrapassáveis em que será inadiável fazer opções, decidir. E é neste nó crítico – a hora de decidir - que, dizem os analistas, Guterres não brilha. Abandonou o poder, quando Primeiro-Ministro, antes que  Portugal se tornasse num “pântano”, disse então.  Mas o que ele vai encontrar não é um pântano, mas um bravio vulcão incandescente. E não queremos vê-lo no papel intransitivo de um Ban Ki-moon ou nas diplomáticas indefinições de um  Kofi Annan. Segundo a visão dos especialistas internacionais, assumir-se como  Secretário Das Nações Unidas é, hoje, muito mais problemático e penoso que nos tempos da Guerra-Fria, em que o mundo estava identificado no confronto de dois blocos: URSS e EUA. Não assim, agora, porque os focos de rebelião deixaram de ser entre duas potências, para se tornarem em guerras regionais, conflitos dispersos no terreno, reacendendo-se em locais antes imprevisíveis.
         Restam-nos as auspiciosas qualificações que vêm de longe, desde os tempos de estudante universitário em que ocupava as férias no apoio aos bairros da periferia lisboeta. Conforta-nos a simpatia do Papa Francisco  com esta eleição. Tenho para mim que António Guterres será o braço civil do Papa Francisco, o seu estratega operativo no mundo actual. Será ele, António Guterres, no final do mandato, o mais convincente Prémio Nobel da Paz.
         Quando chegar esse dia, Machico poderá aclamar e proclamar: ELE ESTEVE AQUI, no coração da nossa cidade!

         13.Out.16
         Martins Júnior

        

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O GENERAL, O PROFETA E O MERCENÁRIO – Um filme desde a Síria de há 3.000 anos até à ilha de hoje


       Foi deslumbrante, de 8 para 9 de Outubro, ver a noite em Machico transfigurada pelas luminárias, tantas, que até ofuscaram a rede pública da Empresa de Electricidade. Lembram, todos os anos, os nocturnos da longínqua idade medieval, povoada de fantasmas e mistérios. Mas o epicentro de toda essa galáxia de cera mole foi a palavra redonda, redonda e vermelha, vermelha, da cor da túnica oriental, saída  do “sol” diocesano: Bem vindos vós, romeiros, que viestes pagar ao Senhor dos Milagres as vossas promessas.
         Nesse mesmo domingo, 9 de Outubro, anteontem, as leituras bíblicas desdobravam diante dos nossos olhos um filme heróico e comovente: a cura do comandante-em-chefe das Forças Armadas da Síria (lá, onde hoje agoniza a martirizada Alepo) o general Naamã. Vem no 2º Livro dos Reis, capítulo V.  Tentarei resumi-la neste breve (?) esboço, de uma possível peça de teatro.  
  
ACTO  I
Sala escura, cheirando a carne moída e malsã.  Ao fundo, encovado no divã,  jaz Naamã, com a lepra a tomar conta dos braços e do rosto. Entra o lugar-tenente.

 LUGAR-TENENTE
Mau general, acabou-se a maldição. Cedo serás livre da fatal doença, se fores ter a Israel com um tal Eliseu,  o homem  de  Deus. Profeta e curandeiro.

NAAMÃ
Juro que não irei a Israel. Será esse profeta maior e mais sábio que os físicos do nosso Império Sírio? Não vou

LUGAR.TENENTE
Tente V.Senhoria, meu general. Toda a corte irá consigo.

ACTO II
     Santuário de Ihaveh: um humilde casebre onde se acoita Eliseu. Na liteira, suportada por quatro eunucas da corte, entra  o general, suplicante.

ELISEU
Não fales mais. Tem confiança. Vai mais além,  ao rio Jordão e mergulha sete vezes.

NAAMÃ dando ordem de retirada aos eunucos
Juro que não vou. Temos na Síria rios mais famosos que esse reato Jordão de Israel. Não vou.

LUGAR-TENENTE
Nosso general, atenda a este vosso servo. Siga o caminho do homem de Deus.

NAAMÃ
Não vou. Esperava eu que esse profeta fizesse oração, que me deitasse a bênção a este corpo que se desfaz. E manda-me lavar ao rio! Está dito, não vou. Palavra de general.

LUGAR-TENENTE
Por vós, Senhor. Pelo poderoso exército sírio. Por todo o povo do nosso reino. Vamos todos. Avante, eunucos.

ACTO III
Rio Jordão. Manhã clara, sol de primavera. Aias e eunucos envolvem o corpo de Naamã, pousam-no na margem do rio que, entretanto, o  afasta para o leito da corrente mansa. Mergulha uma vez. E outra. E a terceira. Na ponte do rio, a comitiva agita-se, ansiosa, num crescente entusiasmo.

VOZES
Será possível? …Que vemos nós?...  A carne toma cor… os braços a abrir. Outro mergulho. E mais dois. E com que energia estranha! … Só falta mais um… E já nada sozinho. Palmas, hossanas ao Profeta de Deus, ao Deus de Israel.

AS AIAS
Quero ser a primeira a tocá-lo… E eu quero beijar aquela pele, agora macia e leve como uma criança recém-nascida.
Naamã sai das águas do rio. Parece acordar de um sonho. As aias e os subalternos trazem vestes novas, limpas, reluzentes. Todos gritam de alegria incontida.

NAAMÃ  
Fora de si, instintivamente  ajoelha, ergue os braços ao alto

Não há outro Deus, senão Iahweh de Israel. Levantemo-nos todos, vamos ao santuário de Eliseu. Trazei-me os cofres das moedas de ouro, os sacos das moedas de prata, as vestes especiosas do mais rico tecido  de Damasco.

ACTO  IV

Casebre-santuário de Eliseu. Ao chão térreo chega, primeiro, Naamã.  Depois, todo o seu séquito, as aias, os eunucos que deixaram fora a liteira, o lugar-tenente. Manda aos oficiais subalternos que  tragam  os presente. Há vivas e cantares. Prostrado por terra, o general, em altos brados, diante de Eliseu.

NAAMÃ
Jamais curvarei meu corpo diante de outros deuses.  A Iahweh, o Deus de Israel adorarei e só a Ele para sempre servirei.  (Sem parar, fala a Eliseu). Profeta de Deus, eu te saúdo e dou-te graças. Rogo-te que dês a este teu servo o dom de aceitares estes presentes que te trago.

ELISEU – dando as mãos a Naamã.
Pelo Deus vivo que tenho servido, sou eu agora que te juro: Não aceitarei, seja o que for que trouxeres. Levanta-te, segue o teu caminho, cumpre os mandamentos do Deus de Israel.

NAAMÃ
Não, Profeta de Deus. Eu agora sou o teu vassalo e Iahweh o meu soberano. Só irei em paz para a minha amada Síria, se aceitares estes singelos presentes.

ELISEU
Não aceitarei. Nem eu, nem o meu ajudante Giesi. Está dito. Palavra de Profeta. Segue o teu caminho.

ACTO V

Perante a recusa, o general pede para  transportar um pouco de terra de Israel, para levantar em Damasco um templo ao Deus de Eliseu. A despedida de Naamã e de todo o séquito faz-se entre lágrimas, clamores e cânticos de festa. Entretanto, recolheu-se o Profeta em oração. E Giesi, sempre  atento e de olhar sequiosos em todo o Acto anterior, deixou que a comitiva dobrasse uma das dunas do deserto e, às escondidas de Eliseu, galopou a toda a brida no encalce de Naamã, que mandou parar a sua escolta.  

GIESI
General do Grande Império! Digna-te perdoar a este teu servo… O meu amo e senhor Eliseu acaba de receber em sua casa dois mancebos, filhos de profetas  da montanha de Efraim.  E não tem nada que lhes dar.  Poderá V. Senhoria dispensar uma ou duas porções do presente  que ele recusou?... Iahweh te agradece e o Profeta te abençoa.

NAAMÃ
Viva o Deus de Israel! Aias e eunucos, oficiais meus subalternos, devolvei a Giesi  todo o ouro, toda a prata, as vestes reais e tudo o mais que eu trouxera  ao Profeta.  (Para Giési).  Não te esquecerás de dizer ao teu amo e senhor quanta honra e felicidade  destes  a este seu vassalo e para sempre  sequaz do Deus do Profeta de Israel.

ACTO VI
Giesi, radiante como nunca, depois de guardar ciosamente em casa a fabulosa oferta de Naamã, apresenta-se, nesse fim de tarde, a Eliseu, no templo-casebre onde ficara.

ELISEU
Giesi, dizei-me  por onde andou este meu servo bom e fiel, toda a tarde deste dia.

GIESI
Por lado nenhum, meu amo e senhor

ELISEUEm tom severo e ameaçador.
Pensas, acaso, que o meu coração não foi contigo., quando saíste na tua montada?...  Pensas que eu não te vi receber desse homem riquezas sem conto?... Pensas que o Deus de Israel não te viu quando  as escondeste  em casa?... Recebeste dinheiro e mudas de roupa real em nome do Deus vivo, que eu sirvo!!!
(Giesi, transido de pavor, escondia-se no desvão da escada).

ELISEU(No mesmo tom de voz)
Não fujas, Giesi, hás-de ouvir-me até ao fim. Hás-de saber a sentença que te reserva  Iahweh. Agora, estás rico, riquíssimo. Podes  à vontade comprar terras, vinhas, gados, bois, carneiros. Terás tudo o que Naamã  te  deixou. Mas, ficarás com algo mais. (expressão mais grave e austera). Sim, ficarás com algo mais. Ficarás  com a lepra de Naamã!... Tu e toda a tua geração!

                                   (Cai o pano)
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O texto do 2º Livro dos Reis, capítulo V, versículo 27, termina assim :
“E naquela hora Giesi retirou-se, com o corpo coberto de lepra”.
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 E agora termino eu:
“Vem, Eliseu Profeta de Deus, olha em teu redor e em nosso redor. Hás-de encontrar, decerto,  muitos Giesi’s, locupletados . à custa do Deus de Jesus  e Sua Mãe, comprando quintas e quintais, carros e carruagens, bolsos e bolsas bancárias. Não com o dinheiro de generais, mas com as promessas ‘pagas a Deus’ pelos pobres crentes,  explorados no corpo e na alma”.
 Será que o mundo anda todo leproso sem darmos por isso?!

11.Out.16

Martins Júnior